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O JARDIM DAS AFLIÇÕES

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OLAVO DE CARVALHO

OBRAS DE OLAVO DE CARVALHO
1. Universalidade e Abstração e Outros Estudos. São Paulo, Speculum, 1983 2. O Crime da Madre Agnes ou: A Confusão entre Espiritualidade e Psiquismo. São Paulo, Speculum, 1983 3. Astros e Símbolos São Paulo, Nova Stella, 1983 4. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes”. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 5. Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 6. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio, Astroscientia Editora, 1993 7. A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994 (1a ed., fevereiro; 2a ed., revista e aumentada, agosto). 8. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994. 9. O Jardim das Aflições. De Epicuro à Ressurreição de César — Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil. Rio, Diadorim, 1995. 10. O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras. Rio, Faculdade da Cidade Editora e Academia Brasileira de Filosofia, 1996 (1a ed., agosto; 2a ed., outubro; 3a ed., abril de 1997 ; 4a, maio de 1997; 5a, janeiro de 1998; 6a, abril de 1998). 11. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, Topbooks, 1996. 12. O Futuro do Pensamento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo. Rio, Faculdade da Cidade Editora (1a ed., agosto de 1997; 2a ed., março de 1998). 13. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Comentários à “Dialética Erística” de Arthur Schopenhauer. Rio, Topbooks, 1997. 14. A Longa Marcha da Vaca para o Brejo & Os Filhos da PUC. O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.

Revista .OLAVO DE CARVALHO O Jardim das Aflições DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O MATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL PREFÁCIO DE BRUNO TOLENTINO Segunda Edição.

413 – CEP 20091-000 Rio de Janeiro – RJ – Tel. gr.6 OLAVO DE CARVALHO Copyright © 1998 by Olavo de Carvalho Capa e planejamento gráfico: Ateliê 19 Assessoria em Comunicação R. 531 / 16 F. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Visconde de Inhaúma.87178 . 58.: (021) 233. Todos os direitos reservados pela TOPBOOKS EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA.1806 Fax (021) 245. RJ.2920 Rio de Janeiro RJ CIP-Brasil. das Laranjeiras. (021) 225. R.

................... .......... 53 § 11......19 CAPÍTULO I: A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA .. 9 § 17............................................ 79 § 18..... 124 § 25................................. 174 CAPÍTULO X: NA BORDA DO MUNDO .......... O Império contra-ataca.................................................................... ou: O Estado bedel................................... 182 § 33...... 151 § 29.. ..... 96 § 21.. 45 § 9............................. 203 ÍNDICE ONOMÁSTICO ....... Aristocracia e sacerdócio no Império americano (II)..................... Um piedoso subterfúgio ................................... 57 § 13......................... A imaginação dos deuses.......................................... Epicuro e Marx .............................................................................................. As conferências do MASP ....................... 40 § 6. Porcarias epicúreas ....................... 37 § 4.............................................. Dos cães de Pavlov ao lava-rápido cerebral ....................................... Revisão do itinerário percorrido........... 137 § 28....................................... 135 § 26................................................... A abolição da consciência.................... 84 O JARDIM DAS AFLIÇÕES LIVRO I: PESSANHA .................................. A matéria segundo Epicuro ............... Translatio imperii................................ 93 § 20............................ A Servidão Voluntária................ 77 .................... 53 § 10................................................................................................................ 164 § 31............... A divinização do tempo (I): A força dos meios ......... A fuga para o jardim ....... 77 PREFÁCIO.............................. O que Epicuro veio fazer aqui........... 134 CAPÍTULO IX: A RELIGIÃO DO IMPÉRIO................ 123 § 23...................... POR BRUNO TOLENTINO .............................................................................................. Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições..................................................................................................................................... 91 CAPÍTULO VII: O MATERIALISMO ESPIRITUAL.................................................. LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR...... 117 CAPÍTULO VIII: A REVOLUÇÃO GNÓSTICA..... Pessanha e o pensamento Ocidental................................................................................. 67 § 14....... O remédio de todos os males.............. O véu do templo ...... 93 § 19................................................................................................... 59 CAPÍTULO V: A ÍNDOLE DO EPICURISMO ........ 37 § 5........................................................ 41 § 7.............. De Wilhelm Meister a Raskolnikov. 168 § 32.. 45 § 8.............................................................................. 130 LIVRO II: EPICURO... Introdução....... 42 CAPÍTULO III: ÉTICA DE EPICURO..........................................................................................51 CAPÍTULO II: COSMOLOGIA DE EPICURO ............................ 71 LIVRO V: CÆSAR REDIVIVUS ......................................................................................... A divinização do espaço (II): O infinito de Nicolau de Cusa.... 46 CAPÍTULO IV: LÓGICA DE EPICURO .................................. 154 § 30........................ A fumaça e o fogo............... A divinização do espaço (I): Pobres bantos............ 21 § 1............................. A divinização do tempo (II): Beaux draps ...................................................................... Epicuro crítico de Demócrito....................... 182 Post-scriptum..... Uma profissão-de-fé epicurista............. ou: Biografia deste livro21 § 2....................... A eviternidade ......... 213 LIVRO III: MARX .................................................... A tradição materialista......133 CAPÍTULO VI: A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO......................................... ........ Leviatã e Beemoth ....................... De Hegel a Comte ....................... Breve história da idéia imperial............................. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) ............... O convite ao sono............................................... Comentários à 11ª “Tese sobre Feuerbach” .. 31 LIVRO IV: OS BRAÇOS E A CRUZ ........ 28 § 3.......................................... 54 § 12................................................ 123 § 24... As novas Tábuas da Lei............ 67 § 15......... 135 § 27..§ 16................................................... 107 § 22.................... 201 BIBLIOGRAFIA ......................................................

Herberto Sales. que. No entanto é dos dois o melhor e o único que constitui propriamente um livro. coisa unida e coesa. Só repito o apelo a que o leitor não o leia de viés e saltado. mas pela ordem dos capítulos — e peço que entenda isto como receita médica. O Jardim comparece limpo e correto. A OLAVO DE CARVALHO . Josué Montello. O Imbecil Coletivo. cumprida mal ou imprecisamente. meio e fim. quando o companheiro teve quatro em seis meses. é este. melhorado em detalhes de linguagem e sem as gralhas mais visíveis da primeira edição. este livro não mereceu do público a atenção que se concedeu generosamente a seu irmão menor. Solicitando humildemente a parcela de audiência a que julga ter direito. Mas não aumentado: se há um livro em que o autor disse tudo o que nele queria dizer. enquanto O Imbecil não passa de uma coletânea de notas de rodapé que não couberam no rodapé. Vamireh Chacon.8 OLAVO DE CARVALHO NOTA DO AUTOR À SEGUNDA EDIÇÃO pesar dos elogios de Antonio Fernando Borges. Leopoldo Serran e muitos outros. Roberto Campos. Vai para a segunda edição após dois anos. com começo. trará mais dano que benefício.

e em particular contra a espécie de Gabinete do Dr. Obra eletrizante. nunca a partir dos fatos segundo a intelligentzia. única justificativa à intrusão de um prefácio em obra tão límpida. Sedimentado através dos séculos pela perspicácia de uma nobre linhagem. ou sobretudo. tiver suado frio por semanas sob o peso das centenas de impenetráveis páginas que nosso mais reputado e menos aspeado filósofo atual. estou celebrando meu alívio de que a tampa da marmita se tenha afastado de mim o bastante para deixar-me perceber.. Com efeito. ou mesmo de suas idéias. No momento esse lapso de um tempo mental que não acaba de acabarse é ainda. . como a tampa que subitamente abandona a marmita. pelo mundo-comoidéia. insurge-se com toda a lucidez o vigor deste livro. paradoxalmente. Tanto mais se. tem a vantagem de respeitar os dados do real. São raros esses momentos. Caligari em que se vai transformando entre nós a veneranda idéia de Universidade. fui encontrar na lição de trevas deste livro. a quem de fato pense o mundo. ). Soube-o enfim graças à claridade que.. A esse respeito. mas de fácil leitura justamente por causa e não a despeito da formidável erudição em que se firma. não tanto do autor. esperava-me um convite a bem outro tipo de investigações: as que se ocupam de verificar o real a partir da inteligência e dos fatos. Não estou desmerecendo do esforço de ninguém. Refratário à leitura transversal ou salteada a que às vezes incita. mas onde começam meus inadiáveis problemas de brasileiro acuado há décadas pela futilidade do ininteligível. os três inseparáveis elementos da doutíssima Trindade que se propõe a recriar o mundo. Afortu- D nadamente neste último. como eu. inevitavelmente sempre a idéia do mundo mais em voga a um certo momento. o argumento central deste aflitivo jardim evolui à maneira de um crescendo para desafiadoramente elucidar-se apenas nas duas partes finais: “Os Braços da Cruz” e “Cæsar Redivivus” são a sístole e a diástole do coração vivo desta obra alarmante. mas da tarefa que se propôs. Dr. em vez de buscar substitui-los. numa visão inquietante do sentido universal da aventura da inteligência moderna. de estirpe marxista. o anestesiador de gerações uspianas. Assim. rica e complexa. achei-me no pólo oposto à perplexidade em que vivia durante a leitura ⎯ que digo?! durante a suadíssima mineração que empreendi nas duras e obscuras galerias sublinguais daquele celebrado duo: o ascético autor do Tractatus (ou das Investigations?) e o ex-Papa Doc.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 9 PREFÁCIO BRUNO TOLENTINO e quando em quando na vida do espírito desanuvia-se aquele céu plúmbeo e baixo em que Baudelaire via a tampa da marmita na qual. o autor extrai uma estonteante exposição de significações. de seu sentido cuidadosamente oculto. Que o leitor leve em conta o caráter. de marca universitária e de cunho dogmático-materialista. não tanto aonde leva o labirinto lingüístico do vienense em sua versão paulistana (c’est assez que Quintilien l’ait dit. uma advertência apenas. o sufocante mundinho dos cortesãos e doutores de mais uma trópica Bizâncio?). esse método de investigar o como e o porque do ser-nomundo. perfeitamente capaz de tudo dizer por si mesma. Gianotti. O Jardim das Aflições. segundo ele. ferve a humanidade. dados e fatos. Inclusive. viga mestra de todo esforço de verificação filosófica. Quem quer que tenha lido de cabo a rabo este livro há de convir que vive um destes momentos privilegiados. dos dados de um problema aparentemente sem maior importância no plano das idéias (que importa. inclusive os pressupostos do saber acumulados pela tradição. atual Papa pálido da enrubescedora tropa-de-choque investigada neste jardim de aflições. mas de uma clareza própria a desnudar como nunca os pólos extremos de uma velha e enfumaçada questão: ver ou não ver. dedicou recentemente às investigações do surrado materialismo lingüístico de Wittgenstein. Contra tudo isso. e outra vez acabo de constatá-lo até à exaustão.

A pedantaria engordaria bem mais tarde. indicaria o sentido de uma solução racional (Dialética). com os que somos e continuamos a ser submetidos a uma contínua barragem de slogans e esoterismos a transpirar intenções nem lá tão ocultas assim. graças à coragem intelectual de um erudito que não se esconde atrás do que sabe. Rio. Claro. Longe de constituírem um empecilho ao entendimento. de imposturas orquestradas como filosofia e penduradas ao nada como amoras de mentirinha. O que certa gente quer e persegue com uma obstinação de cachorro magro. a gênese como a elaboração da obra aqui ajudam muito o leitor: a mim pareceu-me muitíssimo estimulante progredir através da “multiplicidade de temas e planos que faz a trama compósita deste livro”. de um sujeito que não pode não pensar. proposição de seu ensaio pioneiro. expõe. não há como tomar esta obra apenas como a hábil ampliação de um panfleto. ou seja. Graças a sua inexaurível erudição e incontornável honestidade intelectual. torna-se enfim possível dar esse passeio para fora das brumas do obscurantismo idealista doublé de pedantismo acadêmico. Só então tornar-se-ia factível estabelecer métodos e critérios propriamente científicos. Segundo o Aristóteles de Olavo de Carvalho. e em última análise tão aterrador quanto o estrilo de um despertador à meia-noite. tudo o que aqui vai tem a ver ⎯ e urgentemente ⎯ comigo. Ao contrário. É talvez o primeiro esforço de Olavo de Carvalho para pensar em público se- gundo sua Teoria dos Quatro Discursos. Sobre essa massa crítica do acúmulo dos esforços retóricos seria então possível o exame dialético que. A tarefa específica do filósofo seria. ou seja. ao acompanhar um filósofo de verdade em sua minuciosa e exaustiva investigação de um embuste. um tanto paradoxalmente à maneira de um tutti orchestrale. através do combate retórico. assim. por detrás de suas cátedras como abutres encapuzados em togas e títulos. Caligari. . que trabalho tão ímpar. só tem a perder suas ilusões a respeito da seriedade dos donos da hora. antes nos convida a examinar com ele o que investiga. o que andou e anda fazendo em nome da inteligência como desdentados leões de circo. à primeira vista paralelo aos procedimentos sinfônicos de um Sibelius. E dá-lo com toda a clareza através de um assustador pomar de aflições. Nada de estranhar. confrontando e hierarquizando. leitor. 1994). Seu método de composição. como o entendem os “atuais” pupilos do Dr. a presente identificação entre filosofia e adiposidade de jargão é fenômeno tão moderno quanto os enlatados de supermercado. como nos adverte uma nota do autor. de um conhecido e bem mancomunado establishment. Há que lê-lo até seu eletrizante gran finale para perceber todo o escopo deste livro singular. capazes de levar a questão a uma resolução maximamente exata (Lógica). O qual. por exemplo. para citar apenas um “compósito” que à primeira vista pouco tem de ostensivamente filosófico. montar as oposições que só na conclusão (naquelas duas últimas partes. o olhar que põe tudo isto a nu vem do olho agudo de um filósofo nato. emanariam interpretações discordantes fortalecidas no confronto das vontades que as apoiam (Retórica). no sentido agostiniano) vai-se definitivamente elaborar. este livro não é resíduo de tese de doutoramento nem se propõe a enfeitar a carreira de mais um philosophe local cevado na massuda monotonia dos gabinetes à la page. Mas que o leitor não se apresse. ficará perfeitamente claro ao longo do passeio em que nos guia a agudeza da leitura que Olavo de Carvalho faz da história das idéias no Ocidente. portanto. acha-se logo em excelente companhia: no Ocidente a filosofia pós-helênica teve muito cedo entre seus cumes obras como as Confissões de Santo Agostinho. num conjunto de investigações dialéticas. com você. a de colher as questões ao nível retórico e elaborá-las em hipóteses formais para as entregar à busca de uma solução lógico-científica. O leitor. invariavelmente alienígenas. Passamos a ver claramente o que por estas bandas nos vem tapando a mente e sufocando o espírito. parta de impressões subjetivas para.10 OLAVO DE CARVALHO Só que. à diferença de compêndios bem mais ao gosto do dia. por menos que assim fazendo consiga caber nos moldes. ou Livros. da esquematização objetiva que atribui a um conjunto de dados sensíveis uma figura dotada de sentido (Poética). nisto ao menos. calca-se no entanto em modelos bem mais antigos e prováveis. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura (IAL & Stella Caymmi Editora. explica.

Leitor multilingüe. e por 1 conta dos provados e clássicos valores que o forjaram e o sustêm. Murilo Mendes. para ler e escrever sozinhos. sem pisar-lhes a uns e outros seus explosivos ovos de cobra. Caio Prado Jr. à maneira de todo poeta frente à própria poética. de política e de metafísica. em caminho inverso. I. principiais. Ensaios. mas nele pareceu-me reconhecer a rica tradição da hermenêutica simbólica. sem nada perder em densidade. Olavo de Carvalho. e por isso mesmo no meu ver indispensável hoje. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria. a bem dizer. de um movimento tripartite oposição-complementaçãosubordinação. É que. ora cronologicamente. saudou e desnudou os belos fantasmas do platonismo. ) 2 Reproduzida no volume A Dialética Simbólica. garantam a sobrevivência do jeito que for. Mas talvez o autor. é sempre anterior àqueles termos. Sim. seja o etéreo campo minado do guénonismo. insubmisso e fértil para muito além das meras conjunturas de nossa douta e crônica tropicalidade atávica. Rio. para chegar de olho aberto a Kurt Gödel e a Éric Weil. passou reverente pela nata da sabedoria escolástica de Sto. estes dois gigantes modernos. mas não como professores universitários. Os Gêneros Literários. Per strada circunvolteou sabiamente seja o pot-pourri liliputiano dos hoje inúmeros e celebrados philosophes. e tantos outros espíritos livres da raça. faz-se por isso mesmo apaixonante e como que compulsiva. tal receita é própria antes ao recebimento de aspas aposto ao seu justíssimo título E não é só no Brasil que a decadência das universidades acaba por revalorizar o autodidatismo: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. Já não hesito mais: tenho o pensamento de Olavo de Carvalho por paradoxalmente intemporal e atualíssimo. Como se tem visto. Capistrano de Abreu Manuel Bandeira. mas antes recuaria a condições prévias. reafirmo. por natureza. seu peso erudito. Tomás de Aquino a Leibniz. Façam qualquer outra coisa. ora lógica. como ao tempo da formação intelectual do autor era cronicamente o nosso. acaba por não pesar. espécie entre nós. Seus Fundamentos Metafísicos. João Cabral de Melo Neto. por décadas entre o fuzil da Redentora e o realejo utopista de nossa incurável e festiva intelligentzia. existente apenas como apostila didática no Seminário Permanente de Filosofia e Humani1 dades do Instituto de Artes Liberais do Rio de Janeiro) ajudou-me a elucidar algo mais o método deste pensador originalíssimo até mesmo na forma a que molda seu discurso.. Ou seja: nosso homem parece partir de uma antítese observada no campo dos fatos para hierarquizar os termos opostos e resolvê-los no princípio comum de que emanam. Sua forma mentis foi evidentemente forjada a fogo. de reportagem e panfleto. não se tenha dado um código senão para submetê-lo às necessárias infrações do ato criador. porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade. Até então eu não havia encontrado este método aplicado à construção de uma sistemática propriamente filosófica. a exemplo de Machado de Assis. teve que aprender quase sozinho a imensidão do que hoje sabe. thank God! Resta que nada disto é aceitável. Mais uma surpresa num pensador inclassificável. ao nosso encruado marxismo universitário. 1993). incansável e metódico. O qual. 6 de agosto de 1995. como se vê. ou de substituição de importações) sua leitura. a leitura deste livro (às antípodas do tijolaço com que acaba de brindar-nos o acima citado mentor de uma filosofia tão nativa quanto uma agência de importações. ao quanto pude perceber. Olavo de Carvalho (parece incrível naqueles tempos de tanta seca!). Folha de S. Não se trataria aqui do conhecido modelo tese-antítese-síntese. à diferença do modelo hegeliano a dialética de Olavo de Carvalho não buscaria uma síntese temporal futura. no corpo a corpo do autodidata sem alternativas num país ocupado pela legião dos ressentidos ou pelos batalhões de imbecis. Uma conferência sua semi-inédita (“A dialética simbólica”. menos ainda familiar.. Paulo. e não raro ambas as coisas. Luís da Câmara Cascudo. . partiu very advisely do seu ⎯ e nosso Pai de Todos ⎯. Miguel Reale. e talvez por isso mesmo o tenha sabido inscrever no mármore candente da mais limpa tradição letrada do Ocidente 2. “Harold Bloom contraataca”. áspero e lúcido.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 11 Misto de memórias e ensaio filosófico. Surpreendente é vê-lo sair da mesma pena que ainda recentemente nos dava uma rigidíssima teoria dos gêneros. aportou a Schelling e a Husserl. mas sim. IAL & Stella Caymmi Editora. (v. Aristóteles. em curso de publicação pela Faculdade da Cidade Editora. pelo que me pareceu perceber. Mário Ferreira dos Santos.” ( Harold Bloom.

a alegre festa no velório acaba ⎯ uma vez mais! ⎯ com este admirável livro. Mas a quem lhe importaria alongar a sobrevida na cidade do mortos. subvenções e sabujices de nosso perigosíssimo establishment pensante. julho de 1995. Nesse empolado contexto. como toda verdadeira vocação filosófica. honrarias. not least. são mais que horas de acordar para cuspir. Sem dúvida a circunstância dessa solidão defensiva e profilática o terá. pendante. sua fulgurante crítica do binômio Epicuro-Marx é pura heresia. cátedras. anátema. leitor. suicídio. dos zumbis. Que os mortos enterrem seus mortos: sai da frente. PhDs.. muito mais merecido que aos diplomas. patenteado uma vez mais neste livro imperdoável. O Jardim das Aflições. tão ao gosto da fábrica de esterilidades diplomadas com sede à Rua Maria Antônia. soa-me como o clarim de uma adiada e temida ressurreição da independência crítico-filosófica da nação. que onde deixei um país encontrei trinta anos depois um acabrunhante acoplamento de pedantaria e show business. neologismo de rigueur ante tantas pedânticas pendências e dependências das infindáveis listas de importações canonizadas.. se por um lado desencorajaram de munir-se de títulos prestigiosos aquele que dentre nós hoje possui talvez o intelecto mais corajosamente individual entre seus pares. SP.. nosso retrato assustador. Olavo de Carvalho volta a nos dizer em alto e bom som: basta de sestas à sombra da utopia e do marasmo mental. subserviência ou simplesmente descaro. tão patentes em nosso incipientíssimo e prudentíssimo intellectual output. São Paulo. a de Olavo de Carvalho é incompatível com o alinhamento compulsivo (e repulsivo) a que nos vêm acostumando por aqui os donos de cátedras et caterva. .12 OLAVO DE CARVALHO de filósofo. É que. acabou por avisá-lo sobre o que de fato valia o que perdeu. Os tremeliques de Mademoiselle Rigueur. Com esta sua rigorosa e instigante investigação de aflições ⎯ mais um livro do campineiro fora dos eixos segundo os importadores das fórmulas da invenção da roda ⎯. e pensar! Quanto a mim.. ou antes. dos hipnóticos hipnotizados? O suicídio ⎯ em termos acadêmicos ⎯ de Olavo de Carvalho. ajudado a balizar justamente o terreno minado da autocastração por timidez. Rio.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O MATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL TOPBOOKS .

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MERI ANGÉLICA HARAKAVA e SANDRA TEIXEIRA resolveram mil e um pequenos e grandes problemas que teriam adiado sine die a publicação deste livro. DANTE AUGUSTO GALEFFI e seus alunos da Universidade Católica do Salvador devolveram-me a confiança nos jovens estudantes brasileiros de filosofia — leitores sem os quais este livro não faria sentido. me incentivou sem descanso a que a completasse. a superar encrencas da vida prática que sem sua generosa interferência teriam me absorvido por completo e talvez inutilizado o meu pobre cérebro por alguns anos. um pouco a cada uma dessas pessoas. JOSÉ ENRIQUE BARREIRO. de vários modos. LUIZ AFONSO FILHO. a quem li os rascunhos da obra. ROXANE ANDRADE DE SOUZA. KÁTIA MEDEIROS. numa época em que tudo em minha vida me convidava a dispersar meus neurônios em trabalhos menores. CLAUDETTE ALVES DUCATI e JÔ BRITO ouviram a leitura de muitos capítulos. LUCIANE AMATO. dando-me apoio moral e muitas sugestões valiosas. MARIA ELISA ORTENBLAD e PAULO VIEIRA DA COSTA LOPES me ajudaram. OLAVO DE CARVALHO . por afeição e gratidão. Esta obra pertence.AGRADECIMENTOS MUITA GENTE me ajudou a realizar o projeto deste livro: BRUNO TOLENTINO.

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de um tipo tão fátuo que era impossível calcular-lhe a origem por qualquer processo racional. Imago. sangrenta futilidade.” 3 JOSEPH CONRAD “Car si désireux qu’on soit de trouver une cause naturelle à ces tragiques abérrations. qui révèle un goût lucide.” WILLIAM BLAKE “.“. Pois a irracionalidade malévola tem os seus processos lógicos próprios... ce je ne sais quoi d’inutile. Lætitia Cruz de Moraes Vasconcellos ( O Agente Secreto. . ou mesmo irracional. 1995 ). de pensamento. erecting pillars in the deepest Hell to reach the heavenly arches. de superflu.the War by Sea enormous & the War by Land astounding. Rio.. une lucide déléctation?” GEORGES BERNANOS 3 Trad. comment justifier leur raffinement..

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PESSANHA - .LIVRO I .

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417. malgrado tudo. tomando este livro como expressão de opiniões prontas. querendo ou não. Daí a conveniência de garantias preliminares contra um duplo equívoco possível: de um lado. no ar. pior ainda. — O que Epicuro veio fazer aqui. Isto projetará talvez a imagem de um fanáHabituado por uma longa autodisciplina a suspender o juízo até encontrar uma evidência ou uma prova suficiente. ouvidas algumas horas antes numa conferência sobre Epicuro no ciclo de Ética que a Secretaria Municipal de Cultura promovia no Museu de Arte de São Paulo. substancialmente uma investigação. isso é absolutamente obrigatório: os acontecimentos que o sugeriram determinaram as condições em que foi escrito — as quais. ao fundá-la numa impressão do momento —. and seem to prefer words to facts. U M ESCRITOR EDUCADO. Compreendo perfeitamente que as pessoas intoxicadas por essa atmosfera enxerguem ou finjam enxergar um mero truque de retórica na minha afirmação de não ter partido de convicções prontas. pois. Macmillan. sob o impacto da aversão que haviam despertado em mim as palavras de José Américo Motta Pessanha. pode rejeitar de cara a formulação mesma da pergunta. sem tomar o cuidado de seguir até o fim o fio dos argumentos onde se manifestará. Introdução. Transgrido aqui as boas maneiras por necessidade intrínseca do assunto. London. de um país. devo advertir que as opiniões expressas no começo são apenas um começo. dentro de certos limites. sabendo ou não. A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA § 1. estará se enganando a si próprio. e uma tese filosófica pouco significa se amputada das razões que a ela conduzem e das motivações geradoras da pergunta a que responde. que aceitá-las ou rejeitá-las in limine é impedir-se de entender aonde levam. here and in other parts of South America. de expor a situação real e vivida de onde a pergunta emerge. que não obstante consiste — posso garantir — em coisas cuja relevância transcende infinitamente a pessoa do autor. A necessidade a que me refiro provém do seguinte: este é. a pressão coletiva e a intimidação autoritária são meios não apenas legítimos mas preferenciais do debate intelectual. que o leitor. já que o indivíduo não pensa e é sempre. No caso deste livro. de uma raça. mas também alguns brasileiros. men of undoubted talent are often beguiled by phrases. Digo então que o miolo destas páginas redigi numa só noite de maio de 1990. de uma cultura.” 4 JAMES BRYCE como um bom convidado à mesa. o seu verdadeiro sentido. na convicção nada acadêmica de havê-las escrito eu mesmo. quando ele é. investigação que. a sinceridade individual não tem valor. 4 . de outro. p. 5 South America: Observations and Impressions. Mas contra o segundo dos males mencionados só cabe o recurso de contar os fatos. como há de ver quem o leia até o fim. só então. não deve ir logo de entrada falando de si mesmo. apenas o boneco de ventríloquo de um interesse coletivo que salta sobre as intenções do coitado e diz pela sua boca o que bem entende. 1912. o leitor pode acolher ou repelir a tese em abstrato. nesse sentido. Contra o primeiro desses equívocos. do meio para diante.CAPÍTULO I. fazem parte do assunto. onde vigora o pressuposto dogmático de que uma idéia ou doutrina qualquer nada mais pode ser que a expressão do desejo de poder de uma classe. ao tomar posição pró ou contra logo nas primeiras páginas — ou. [Nota da 2a. edição]. sem saber a que coisas e seres se refere na vida deste mundo. um livro de filosofia. portanto. e de que. ou: Biografia deste livro “It is strange to find that. Deixo a essas criaturas a tarefa extremamente científica de desencavar das sombras o secreto autor coletivo destas páginas. e permaneço. o autor refere-se especificamente ao Brasil. toma de fato um rumo bem diverso daquele que parecia anunciar no come5 ço . principalmente norte-americanos. De pouco adiantará alegar que fui perfeitamente sincero. A carência absoluta dessa habilitação pode chegar a ser mesmo uma conditio sine qua non para a aquisição de respeitabilidade em certos círculos universitários. surpreendo-me ao notar o quanto essa habilidade pode ser deficiente em intelectuais militantes afeitos a buscar numa idéia antes seu poder de mobilização do que sua veracidade intrínseca. No trecho citado. para essa gente.

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OLAVO DE CARVALHO

tico, a espumar de cólera ante a opinião adversária. Mas não foi nada disto. O que Pessanha suscitara em mim não fora uma discordância, fanática ou razoável, indignada ou mansa. Fora uma perturbação da alma, uma decepção, uma tristeza desesperançada, uma agitação soturna carregada de maus presságios. Meras opiniões não produzem este efeito. O título prometia “delícias” 6, mas ali eu só encontrara pesares e aflições. O Jardim de Epicuro parecia-se estranhamente com o Jardim das Oliveiras . Cheguei em casa pela meia-noite e, não conseguindo pegar no sono, varei a madrugada anotando objeções e protestos que, contra minha vontade consciente de adormecer e esquecer, não cessavam de brotar como reações de um organismo febril à invasão de uma toxina. Era isto, precisamente: as frases de Pessanha eram um entorpecente, que entrava pelos ouvidos da platéia, envenenava os cérebros, movia o eixo dos globos oculares, fazendo ver tudo diferente do que era, num giro louco da tela do mundo. Um público de quinhentas pessoas submetera-se à intoxicação com sonsa alegria, numa deliqüescência mórbida, como crianças a seguirem um novo flautista de Hamelin, sugestionadas pela voz melíflua, pelo jogo de imagens que dava às lorotas mais óbvias um intenso colorido de realidade. Puro feitiço, no melhor estilo Lair Ribeiro. Eu saíra dali em estado de estupor, sem crer no que acabara de presenciar. Em casa, tentando adormecer, via em alucinações as poltronas do MASP lotadas de zumbis sem olhos. Saltava da cama com a cabeça fervilhando. Tudo o que a platéia não quisera ver parecia ter se condensado no meu subconsciente, exigindo vir à tona. Querendo ou não, eu me tornara o sintoma denunciador de uma neurose coletiva. O que mais me impressionava, na trama de erros tecida por Pessanha, era a sua densidade. Não havia ali uma única brecha por onde pudesse se introduzir uma discussão inteligente. Cada palavra parecia calculada para desviar a atenção do ouvinte, impedi-lo de olhar o assunto de frente, fixá-lo num estado de apatetada passividade ante o fluxo de sugestões, hipnotizá-lo e arrastá-lo deli6

“As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro”. Mais tarde foi publicada no volume coletivo Ética, São Paulo, Companhia das Letras, 1991.

cadamente pela argola do nariz até uma conclusão que ele já não estaria mais em condições de julgar e à qual se curvaria com um sorriso de felicidade idiota e um mugido voluptuoso. O grumo compacto de absurdidades exalava uma radiação debilitante sobre as inteligências, produzia a acomodação progressiva a um estado de penumbra, de lucidez diminuída, até que, perdida toda vontade de enxergar, a alma da vítima se amoldasse às trevas como num leito fofo, aspirando o adocicado perfume do esquecimento. Não sei se me faço compreender. Há uma grande diferença entre o doutrinador que mete simplesmente na cabeça das pessoas uma idéia errada e o feiticeiro que as adoece, debilitando suas inteligências para que nunca mais atinem com a idéia certa. O primeiro move-se no reino das palavras, que podem ser enfrentadas com palavras. O segundo exerce uma ação quase física, produzindo feridas num estrato profundo que os meros argumentos não atingem. Feridas insensíveis, que só começarão a doer quando for tarde para curá-las — e quando a lembrança de sua origem estiver demasiado apagada para que se possa identificar o rosto do agressor. “Discordar”, mesmo com veemência fanática, seria aí tão descabido quanto tentar deter um assaltante à força de citações do Código Penal. A ação do feiticeiro passa ao largo da consciência, como uma neurose, um vício, uma droga; ela salta por sobre a mente, remexe os órgãos dos sentidos, move tendões e músculos, instaura novos reflexos involuntários; ela se esquiva ao olhar humano e vai exercer seu domínio diretamente sobre o macaco residual que habita em nós; ela não pode ser desfeita pela persuasão racional. Saí dali enjoado como um autêntico careta sai de uma festinha de embalo. Não que nunca tivesse visto coisa igual. Vira muitas, mas somente produzidas por feiticeiros confessos, por profissionais da dominação psíquica, no recesso de seitas obscuras que não se adornavam do prestígio da autoridade acadêmica nem se abrigavam sob a proteção do Estado. Vira-as também em demonstrações de hipnose, de Programação Neurolingüística, de técnicas psicológicas que, reduzindo o cérebro humano a uma passividade vegetal, ao menos não proclamavam, com isto, estar lhe transmitindo cultura, autoconsciência, juízo

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crítico. O que me espantava era que esse gênero de manipulação, próprio somente para o tratamento de doentes mentais inacessíveis à comunicação consciente, ou então para usos perniciosos e ilícitos, tivesse deixado o recinto das clínicas psiquiátricas e das seitas ocultistas, para ser empregado por acadêmicos como um sucedâneo da transmissão de idéias. Eu estava consciente, doloridamente consciente do declínio intelectual brasileiro, da debacle do ensino universitário, mas nunca imaginara que a coisa pudesse baixar a esse ponto. Supunha que a redução do pensamento à tagarelice ideológica fosse o limite inferior da decadência, consolava-me com aquelas palavras que as avós sempre dizem quando a gente despenca da bicicleta: “Do chão não passa.” De súbito, o chão se abrira: pelas mãos de Pessanha, o público era convidado a mergulhar num abismo de inconsciência, na treva sem fim de um definitivo adeus à inteligência. Eu nunca tinha visto José Américo Motta Pessanha. Mas conhecia sua fama e havia notado nela um traço peculiar: seus ouvintes saíam fascinados, tecendo ao conferencista os maiores elogios, mas se mostravam incapazes de dar qualquer noção clara do que ele dissera. Guardavam uma impressão difusa, intraduzível em palavras, envolta num halo de prestígio místico. A alguns objetei que o mesmo acontecia aos ouvintes de Hitler, mas em resposta recebi aquele sorriso de condescendência desdenhosa com que o detentor de um segredo beatífico marca a distância que o separa do profano. Apaziguei minhas inquietações explicando essa reação como esnobismo do público, sem suspeitar que ela pudesse fornecer algum indício quanto ao caráter do orador. Imaginei apenas que fosse um sujeito abstruso, a quem a platéia indenizava com tanto mais fartura de aplausos fúteis quanto maior a quota de compreensão que lhe sonegava. Nada, mas absolutamente nada, me fazia antever o que encontrei no MASP. Não consegui conciliar o sono. Após cinco tentativas falhadas, assumi que era um sintoma vivo e me encaminhei ao divã mais próximo — a máquina de escrever — para verbalizar os conteúdos neuróticos que a magia de Pessanha injetara em meu cérebro. Como sempre acontece em tais situações, verbalizálos foi o bastante para exorcizá-los, desfazer o macabro encantamento, recupe-

rar o senso do real momentaneamente entorpecido pelas artes de um feiticeiro. Esse exorcismo constitui duas quintas partes do presente livro, onde, ao fio dos argumentos de Pessanha, examino a filosofia — ou seja lá o que for — de Epicuro, de modo a curar-me dela para sempre.

Na noite seguinte, li o manuscrito para uma roda de amigos e o guardei, tencionando dar-lhe mais tarde uma forma final e remetê-lo a Pessanha, com o convite para uma réplica, se lhe interessasse, antes da publicação em livro. Imprevistos e correrias de uma vida anormalmente repleta deles impediramme o retorno a este trabalho, que ficou jazendo, interminado e tosco, no fundo de uma gaveta, e me acompanhou em uma mudança de cidade e cinco mudanças de casa. Ocupações variadas desviaram-me para outros assuntos. Larguei Epicuro, esqueci Pessanha. No fundo, era o que eu queria. Foi só em fins de 1992 que, cogitando as razões da súbita e inusitada popularidade adquirida pela palavra “ética”, me dei conta do papel que tivera aquele ciclo de conferências na preparação discreta de acontecimentos que depois iriam avolumar-se e desabar sobre o país como uma tempestade. Ele fora um sinal de largada, quase inaudível, da campanha pela “Ética na Política”. Tive então um impulso de retomar este trabalho. Mas, na maçaroca de papéis que trouxera de São Paulo comprimida em cinqüenta e tantas caixas, não pude encontrar o manuscrito. Nos meses seguintes, o curso dos eventos políticos tomou um rumo imprevisto e, para mim, esclarecedor. A campanha da “Ética”, que começara como um amplo movimento de conscientização moral, empenhado em desarraigar da nossa mentalidade política alguns vícios seculares, foi estreitando cada vez mais seus objetivos, até concentrá-los num alvo único e imediato: a retirada do Sr. Fernando Collor de Mello da Presidência da República. Alcançada esta meta, a campanha festejou o evento como se ele tivesse dado plena satisfação aos seus anseios, como se as mais profundas exigências morais da nação tives-

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sem sido cabalmente saciadas mediante a simples dispensa daquele infausto mandatário. Meditando os eventos à luz do preceito de Hegel, segundo o qual a essência de uma coisa é aquilo em que ela enfim se torna, achei então que a destruição política do Sr. Collor de Mello, e a conseqüente ascensão das esquerdas à posição dominante, tinham sido realmente os únicos objetivos da campanha, que não começara propondo metas tão gerais, amplas e profundas, senão para melhor atingir o alvo particular, estreito e raso que lhe interessava. É verdade que tout commence en mystique et finit en politique, mas o espantoso, no episódio, era a desproporção entre a quantidade de mystique que se mobilizara e a mesquinhez do seu resultado político. Uma campanha de escala nacional que se apoia numa retaguarda filosófica, apela a todas as forças intelectuais da civilização, convoca as luzes dos sábios do passado e se dá todos os ares de uma revolução cultural, só para eliminar um adversário político ou meia dúzia deles, é realmente um daqueles casos em que o excesso de chumbo só faz ressaltar pateticamente a míngua de passarinhos. Governantes muito mais poderosos que o Sr. Collor, e mesmo Estados e regimes inteiros, tinham sido derrubados com muito menos investimento intelectual. Mais tarde, quando a campanha voltou à carga, desta vez contra deputados e empreiteiras, a “ética” que se reivindicava assumiu de vez sua verdadeira natureza de mero impulso de vingança política 7 voltado contra alvos descaradamente seletivos . Tudo isso é muito normal em política, onde cada facção procura sempre se arrogar o monopólio do bem. O estranho era que a inaudita mobilização da classe intelectual não desse à campanha nem mesmo um arremedo de rigor, de seriedade, de autoconsciência moral; que a farsa de uma ética reduzida a grosseiras expressões de ressentimento parecesse contentar a todos os cérebros incumbidos, em princípio, de ser exigentes consigo mesmos. Aparentemente, os âncoras de TV tinham se tor7

nado guias e orientadores da intelectualidade mais pomposa e autoritária, que se deixava guiar ao som de slogans, com festiva credulidade, como se a destruição de seus desafetos políticos valesse a abdicação de toda inteligência crítica. Amigos com quem comentei o caso explicavam-no pelo revanchismo: como macacos a espancarem a onça morta, os esquerdistas buscavam uma compensação por duas décadas de humilhações, perseguindo os remanescentes de uma ditadura que não tinham conseguido vencer e que só se desfizera, enfim, por vontade própria. Mas a explicação, embora parcialmente verdadeira, não me satisfazia. A revanche era tardia demais, os inimigos já estavam quase todos mortos ou esquecidos, e os militantes da moral não relutavam em recrutar para suas tropas notórios servidores dos governos militares, como o senador Jarbas Passarinho. Não era possível que, decorrido tanto tempo, o desejo de vingança ainda tivesse força bastante para obnubilar todas as inteligências, para atirar ao limbo as exigências mais comezinhas do amor à verdade, em troca de resultados políticos de valor duvidoso. Estávamos, enfim, diante de um fenômeno estranho, cuja singularidade, no entanto, parecia escapar inteiramente àqueles mesmos que o protagonizavam 8. E — conjeturei então — talvez fosse possível
8

A onda de ira nacional contra Collor e depois contra os deputados envolvidos em desvios de verbas são casos ainda mais estranhos, quando comparados à persistente indiferença ante o escândalo das “polonetas” (empréstimos irregulares ao governo comunista da Polônia), que trouxe ao Brasil muito mais prejuízo do que o ex-presidente e todos os “anões do Congresso” somados.

Documentei o bastante a esquisitice ambiente em O Imbecil Coletivo para poder me dispensar de enumerar novamente aqui os sinais da patologia mental que então acometeu a inteligência brasileira. Só para dar um exemplo, um aspecto estranho, que pareceu escapar totalmente aos melhores observadores, foi este que na segunda fase da campanha — a guerra contra João Alves & Cia. — anotei num artigo que escrevi para a revista Imprensa: “Pelo furor investigativo com que os jornais e a TV abrem as latrinas, destapam os ralos, vasculham os esgotos da República, parece que o Brasil, dentre todos os países, tem a imprensa mais ousada, mais independente, mais empenhada em descobrir e revelar a verdade. Porém o mais admirável, nela, é a unanimidade da sua adesão a esse objetivo. Não há neste país um só jornal, estação de rádio ou canal de TV que se exima da obrigação de informar, que procure mesmo discretamente abafar denúncias, proteger reputações, acobertar suspeitos. Todos, mas todos os órgãos de comunicação, sem exceções visíveis, estão alinhados no ataque frontal à corrupção, que verberam em uníssono, com a afinação de um coro multitudinário regido por uma só vontade, por um só espírito, por um só critério de valores. No exército da moralidade pública, não há defecções. Foi a uniformidade do noticiário que permitiu fixar na retina do público a imagem de um Brasil dividido em justos e pecadores, mocinhos e bandidos, sem quaisquer ambigüidades ou meios-tons. Imagem na qual a linha demarcatória da “ética” se sobrepôs mesmo às divisões de partidos, de interesses, de ideologias, terminando por neutralizá-las e por não deixar à mostra senão duas facções, a de Caim e a de Abel, esta vociferando sua indignação nas praças, aquela esgueirando-se pelos corredores, tramando golpes, apagando pistas, num sombrio meneio de cobra. Esse unanimismo não teria poder sobre as consciências se não incluísse, entre os temas dominantes do seu discurso, a celebração de si mesmo: a condenação dos políticos corruptos é,

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encontrar, na esquisitice geral do ambiente pátrio, um princípio de explicação para aquilo que eu vira no MASP. Diante dessa expectativa, não pude mais adiar a retomada deste trabalho. Revirando de novo meus papéis, agora com o empenho investigativo de um “araponga” do PT, localizei o manuscrito e fiz-lhe os acréscimos que àquela altura me pareciam necessários. Nada alterei nele em substância. Apenas mudei um pouco a ordem, acrescentei os livros finais e este começo. Toda a parte inicial — do § 2 ao § 17 — é o texto de 1990, cortado de excrescências, aumentado de esclarecimentos indispensáveis e melhorado — espero — nos detalhes da expressão. Algumas correções foram bem minuciosas, mas deixaram inalterado o sentido do conjunto. Acrescentei também muitas, muitas notas de rodapé. Muitas e longas. Notas de rodapé são uma das mais amáveis invenções humanas. Além da sua função moral de testemunharem o justo reconhecimento de um escritor para com seus fornecedores de material; além da economia que nos facultam ao abreviar um argumento mediante saltos que a indicação de um mero título preenche; além da aparência verdadeira ou falsa de probidade científica de que revestem o conteúdo de um livro; além do benefício pedagógico de abrirem
ao mesmo tempo, e não raro explicitamente, a glorificação da imprensa livre que os investiga e desmascara. Ninguém hesita em ver nesse fenômeno o começo de uma nova era: levado pela mão da imprensa, o Brasil atinge o portal da maturidade democrática. Mas, a quem fez seu aprendizado no jornalismo ouvindo dizer que imprensa é diversidade, que democracia é pluralismo de opiniões, essa unanimidade não pode deixar de parecer um tanto suspeita. Anormal historicamente, ela é. Nunca, em qualquer lugar ou época, se viu um caso como este, de uma nação em peso abdicar de suas divergências internas para formar frente única sob uma bandeira tão vaga e abstrata quanto a “ética”. Nem países em guerra, movidos pela necessidade de unir-se em defesa de bens mais palpáveis contra perigos mais imediatos e letais, lograram homogeneizar a tal ponto o discurso dos seus jornalistas. O que está acontecendo no Brasil é um fenômeno ímpar na história da imprensa mundial. Um fenômeno tanto mais estranho quanto é recente a introdução da palavra “ética” no vocabulário popular brasileiro e rapidamente improvisada, com êxito fulminante, sua promoção ao status de ideal unificador de todo um povo. Jamais uma palavra-de-ordem emanada de um estreito círculo de intelectuais ativistas logrou alastrar-se com tal velocidade pela extensão de um continente, sem que ninguém se lembrasse de objetar que a rapidez com que se propagam as palavras está às vezes na razão inversa da profundidade de penetração das idéias.” ( “Unanimidade suspeita”, em Imprensa, maio de 1994; reproduzido em O Imbecil Coletivo ). — Se o conhecimento, como diz Aristóteles, começa com o espanto, a falta da capacidade de espantar-se é um grave sintoma de apatia mental na nossa intelligentzia.

para o leitor um leque de estudos complementares; além mesmo do inegável deleite psicológico que um autor pode tirar da ostentação erudita, além de todas essas coisas apreciáveis e reconfortantes, elas nos dão algo ainda melhor. Elas representam, dentro do corpo de um livro, as sementes de outros tantos livros possíveis, as linhas de investigação que tiveram de ser abandonadas para que o livro pudesse chegar a um ponto final. Abandonadas mas não desprezadas. Sua presença nas notas manifesta a confissão de que este não é o único nem o melhor dos livros possíveis sobre o seu assunto. O mesmo autor deste, daqui de onde fala ao distinto público, pode agora mesmo vislumbrar em pensamento outros tantos melhores. Mas escrever, por ora, só pôde escrever este. Hoje surpreendo-me de ter podido escrever tanto numa só noite. Mas, pensando bem, não poderia ter sido de outra forma. A fala de Pessanha era tão cheia de subentendidos, de intenções veladas, de mensagens camufladas para uso dos happy few, que, mais que contestá-la, era preciso desvendá-la, mostrar toda a cosmovisão que ela trazia de contrabando por baixo do sentido explícito das palavras. Como esta cosmovisão, por sua vez, convocava reforços de eras pretéritas para dar apoio a uma política do presente, não se poderia elucidá-la sem ampliar formidavelmente o círculo das investigações, com muitas idas e vindas entre a superfície da política atual e as camadas mais profundas de uma antigüidade quase esquecida. Tão vasta era a área das implicações, que arriscaria perder de vista a forma do seu conjunto quem se aventurasse a percorrê-la aos poucos, alguns metros por dia. Para fazer face à influência difusa e embriagante que as palavras de Pessanha espalhavam no ar como um spray, era preciso um sobre-esforço de compactação, que espremesse numa área limitada e visível a multidão variada de fantasmas evanescentes. Não creio que isto se pudesse fazer senão tudo de uma vez, num lance súbito de espadachim ou de pintor zen, para conservar, na multiplicidade dos temas e dos planos de abordagem, a unidade de uma intuição simultânea 9.
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É também esta multiplicidade de temas e planos que explica a trama compósita deste livro, misto de memórias e ensaio filosófico, reportagem e panfleto, política e metafísica, esoterismo e fait divers, religião comparada e sei lá quê mais — coisa em suma incatalogável, que não se esperaria ver assinada

mas da qual só tomei conhecimento muito depois. de desenterrar velhas mentiras esquecidas. lúcido e informado. ele atacou novamente. na verdade. foi justamente para poder. E. Crébillon e similares. A objeção não seria de todo despropositada. como diria Paulo Francis. quando nele se cruzam de maneira identificável as forças que se agitam à superfície do dia e aquelas que vêm. se este livro tomasse a conferência de Pessanha por seu objeto. da qual fugi o quanto pude. não alterou em nada minha disposição de publicar este livro. 1993 ). A segunda é que a morte de um filósofo não torna verdadeiras as idéias falsas que tenha defendido. Mas. emitidos com a inocência de uma equivocada busca da verdade. amputado da escuridão que o alimentava e protegia. na parte que a ele mais de perto se refere. melhor misturá-los. mas não consigo esconder a repugnância que sinto ao lidar com esse gênero de materiais. A terceira é que aquilo que possa ter havido de maligno na influência de Pessanha sobre o público não veio dele enquanto indivíduo. mediante a exibição dos chumaços de cabelos e dos retalhos de roupas da vítima. A primeira é que. e não por simples ocasião e sinal para mostrar. Esqueceu-se de dizer que o núcleo do enredo d’A Montanha Mágica de Thomas Mann. E um feitiço não se discute no plano teórico: um feitiço desfaz-se. para defesa e esclarecimento dos vivos. como o testemunha o atraso deste livro em relação aos fatos que o motivam. portanto. grupo este que continua vivo e passa bem 10. Essas condições é que são o tema do livro. que emprego no texto. IAL & Stella Caymmi Editora. Trata-se. reconheço. num esgueirar soturno. não há o que não caiba na minha definição de “ensaio”. para simbolizar o cúmulo da insignificância. Olavo de Carvalho. com o título mudado para “Arte de Viver”. como em psicanálise. em debates letrados. o deste livro é às vezes de uma franqueza que destoa. de revelar o mal para que pereça exposto à luz. nem exime do dever de contestá-las. apesar da veemência com que contesto aqui as idéias de Pessanha. ocorrida no início de 1993. enobrecido e como que santificado pela morte de seu revendedor local. Rio. Eis como a morte do pensador dá mais força de difusão às idéias que ele defendeu em vida. não são imagens da realidade: são poções mágicas. a altercação de dois velhinhos num asilo. escondeu entre restos de cadáveres. Conservado e industrializado pela técnica. de desocultar intenções que chegam a ter algo de sinistro. o mesmo grupo realizou o congresso Libertinos/Libertários. Seus Fundamentos Metafísicos. livro que condensa todo o drama das idéias do século XX. se fixei com tal apuro as distinções entre os gêneros. com um ciclo denominado Artepensamento. Um evento de porte bem modesto pode tornar-se assim elucidativo do movimento maior da História. Alguns leitores talvez digam que dei uma importância desmesurada a um acontecimento superficial e passageiro: a refutação de uma simples conferência não requer todo um livro. e das quais ela extrai toda a significação que possa ter para além das miudezas políticas que constituem sua motivação imediata. sob a direção do mesmíssimo Adauto Novaes que organizou o evento de 1990. num giro por dois milênios de história das idéias. desde o fundo dos séculos. em furtiva incursão. ele não se prestaria a colaborar de maneira alguma. Não faço este trabalho com prazer. nem poderia fazê-lo se quisesse. Sustentam essa minha decisão três razões. numa programação que reproduzia resumidamente o ciclo de Ética do MASP. de confrontar na serenidade de uma comum devoção à ciência várias imagens da realidade. de que se servem pelo mesmo autor de uma rigidíssima teoria dos gêneros ( v. o círculo inteiro das condições remotas que a possibilitaram. editar em papel-bíblia as obras completas de Julius Streicher. desde 1990. Faço-o com resignada boa vontade. espero que me sejam perdoadas como naturais desabafos de um homem que tem de falar sobre o que preferiria esquecer. já pronto. gravada em vídeo. que o feiticeiro. Os Gêneros Literários. Quanto ao tom. Não se trata. que incluiu comemorações — pagas com dinheiro público — do bicentenário do marquês de Sade. pelo menos na media luz da hipocrisia que se tornou o padrão oficial da linguagem educada nacional. para enfeitiçar o público e colocá-lo a serviço de fins com que. — Em junho de 1995. . — Em 26 de setembro de 1994. Só falta. Faço-o por uma obrigação interior. e muitas palavras de louvor a Laclos. quem não tenha podido fazê-lo em vida dele. em caso de necessidade. Mas não se trata aqui de discutir idéias. foi transmitida pela TV Educativa do Rio. Algumas expressões mais fortes.26 OLAVO DE CARVALHO A notícia da morte de José Américo Motta Pessanha. 10 Pouco depois dos acontecimentos narrados nesta “Introdução”. o veneno epicúreo pode agora ser distribuído em massa. mas enquanto membro atuante de um grupo. para encontrar a melhor. de refutar argumentos errôneos. nada digo contra sua pessoa. para certas pessoas. a palestra de Pessanha sobre Epicuro. As idéias. por ignorar tudo a respeito. Um escritor cujo nome não me ocorre sugeriu.

O episódio está documentado em Aristóteles em Nova Perspectiva ( Rio. até agora.. Mas. nada se parece mais a um adorno exterior. De outro lado. enquanto as idéias amadurecem e se revestem de uma forma verbal melhor 12. positivamente. Que o tom deste livro. a um inócuo passatempo botânico de nefelibatas. ginástica sueca e chibatadas. sob a forma de apostilas de meus cursos privados. No entender do superficialismo brasileiro. por olhos doidos ou sãos. 11 As anteriores foram A Nova Era e a Revolução Cultural. 12 Minha única iniciativa. “Uma lei constitutiva da mente humana — disse esse autor em A Nova Era e a Revolução Cultural — concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação.. mas não vou fazê-lo na Introdução porque o faço no restante do livro. 1994 ) — deu mais encrenca do que todas os meus escritos de polêmica. locais e momentâneos. permito-me citar o único autor do qual posso me gabar de ter lido tudo quanto escreveu. mesmo difundindo-se apenas num estreito círculo de intelectuais. por agora. podem desencadear sobre a vida de milhões de pessoas que nunca ouviram falar delas e que. . do que uma conferência sobre o Jardim de Epicuro no estilo floreado de Motta Pessanha.” Ademais. mas aponta. trato-as a pão e água. e sobretudo o fato de ser esta já a minha terceira obra de combate 11. Meu propósito não é mudar o rumo da História. sujeito pacífico e tolerante até o limite da paspalhice. reservando as partes mais altas e serenas para melhor ocasião. Ainda um pedido. mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a História mudava de rumo. e não pela importância muita ou pouca dos fatos. sucedâneos do afeto humano. Há aqui os esboços de uma interpretação global da história cultural do Ocidente moderno. que seria talvez melhor apresentada se em forma sistemática e fora de qualquer contexto polêmico. no fim os velhinhos fazem as pazes. o hábito brasileiro de olhar as manifestações culturais como um adorno supérfluo impede de enxergar as tremendas conseqüências práticas que as idéias filosóficas. o que vi estava lá. e deixando-as mostrar-se apenas. Para liquidar de vez com a objeção. Nem mesmo pretendo mudar a opinião de quem goste da sua. não levem ninguém a conclusões precipitadas sobre o temperamento do autor. ao reencontrar-se num asilo. é a mais baixa faculdade da inteligência. aquilo que pouco significa por si mesmo pode significar muito pelas causas que revela. Como se vê pelo exemplo dessas belicosidades geriátricas. mas simplesmente em esclarecer um pequeno círculo de amigos e leitores que desejam ser esclarecidos e me julgam capaz de ajudá-los nisso. se ouvissem. que deram ocasião e pretexto ao seu aparecimento. só mesmo a um doido varrido como eu ocorreria ver ali algo de mortalmente sério e perigoso. É que a crítica. como o leitor verá sobretudo nas últimas páginas. Essas idéias são a origem primeira e a meta do trabalho. que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado. Hoje em dia as pessoas criam opiniões como animais de estimação. este livro não se limita a desfazer um ou vários erros. Não escrevi este livro pensando em seus efeitos políticos possíveis. 1996 ). e na ordem de publicação dos meus escritos preferi começar de baixo. IAL/Stella Caymmi. Meus alunos podem atestar que a polêmica está longe de constituir o centro dos meus interesses. segundo dizia John Stuart Mill. na periferia da História. No fim deste livro o leitor verá como o personagem dos primeiros parágrafos terá se tornado pequeno — o eco débil e longínquo que repete às tontas. E Perez de Ayala fez dos bate-bocas entre dois velhinhos de miolo mole — Belarmino y Apolonio — o resumo da universal altercação. Também declaro peremptoriamente que não tenho a menor ilusão de influenciar no que quer que seja o curso das coisas. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos ( Rio.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 27 não passa da altercação entre dois velhinhos — Naphta e Settembrini — no asilo de tuberculosos em Davos. a cantiga milenar do engano. a direção onde devem ser buscadas as verdades que eles renegam e renegando encobrem. Ora. escondidinho e letal sob as flores. Topbooks. que vai para onde bem entende e jamais me consulta (no que aliás faz muito bem). não as compreenderiam. Quanto às minhas. da ruidosa atualidade. de divulgar essa parte mais interior do meu trabalho — com a publicação do livro Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. e pelo qual nutro uma certa estima mista de melancolia e decepção: eu mesmo. Posso provar isto. Fritjof Capra e Antônio Gramsci e O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras.

Status quæstionis — termo da retórica antiga — é o retrospecto das discussões até o presente. O intuito declarado dos organizadores do curso era triplo: dar um esboço cronológico das principais doutrinas éticas. § 2. ou. Discursando do alto de um caixote de beterrabas. Fichte. desorientado e perplexo. mas desconheço outro que possa nos colocar na pista da verdade. do alto de um caixote de beterrabas. das teses consensualmente admitidas e das que continuam em litígio. grifado ou entre aspas. A seleção dos temas e o conteúdo das conferências terminaram por desmentir os dois primeiros objetivos e anular o terceiro. No caso brasileiro. como disse Goethe. autora de um premiado Convite à Filosofia. E se aqui submeto idéias alheias a esse tratamento impiedoso. que. a outras estrangulando no berço ou esmagando-as a golpes de fatos que as desmentem: fico com as que sobrevivem. como fundamento primeiro da argumentação. como por exemplo a de que na lógica de Aristóteles “o acidente é um tipo de propriedade” ⎯ mais ou menos o equivalente a dizer que na geometria de Euclides o quadrado é um tipo de círculo. supondo-se que a desejemos. Não posso recomendar esse regime às almas sensíveis. a incumbência de figurar no papel de consciência filosófica nacional foi atribuída ao grupo de professores universitários que orbita em torno de Marilena Chauí. As conferências do MASP Na gritaria geral contra a falta de ética. last not least. Quem fale aos leigos sobre um assunto da sua especialidade está implicitamente obrigado. pôde fazer para reconduzir aos bons caminhos da ética uma nação perdida. mesmo que dele divirjam e sobretudo quando divergem. contra nada somos mais severos do que contra os erros que abandonamos. ambos podem fazer igual efeito. em terminologia mais moderna. não havendo nenhum à mão. porque toda divergência diverge de alguma coisa e só no confronto com . as nações nomeiam filósofos honorários. a oferecer-lhes. biônicos. Em todo debate científico ou filosófico. onde são servidas aos convidados algumas lições preciosas.28 OLAVO DE CARVALHO levando muitas delas à morte por definhamento. novas ou divergentes que o orador acaso tenha a apresentar só poderão ser compreendidas e discutidas com proveito se forem vistas no quadro desse consenso. lançar luz sobre a questão da falta de ética no país e popularizar o debate a respeito. titular da Secretaria Municipal de Cultura. que. abrindo-o para um público de quinhentos e tantos leigos. A diferença é simples: um filósofo busca a explicação do real segundo a sua própria exigência de veracidade e segundo o nível alcançado por seus antecessores. Voltaire é filósofo tanto quanto Leibniz ou Aristóteles. quando ele. um philosophe busca explicações na estrita medida do mínimo que o mundo exige daqueles a quem segue. um sumário do estado da questão no consenso dos estudiosos. Vejamos o que a consciência filosófica nacional. Não é de hoje que a filosofia assume o encargo de guiar o mundo. a compreensão de uma nova tese depende do conhecimento do estado da questão. Para este. chocado com a guerra entre cristãos. é porque algumas delas já foram minhas — e. ergueu-se finalmente a voz da filosofia para clarear as idéias do povo e indicar à nação o caminho do bem. É da tradição os filósofos abandonarem o silêncio da meditação para ir discursar às gentes. pela ética da vida intelectual quando tem. Leibniz. com a criteriosa discriminação dos tópicos abrangidos e por abranger. Foi assim que surgiu o termo philosophes. assim representada. clamava pela união das igrejas. organizadora do ciclo de Ética do MASP e. já não consegue se guiar por si mesmo. convocava os alemães à defesa da honra nacional pisoteada pelo invasor. pois a diferença está num plano acima do que o público enxerga. Sócrates ia pelas praças cobrando os direitos da consciência. aviltada pelos abusos da retórica. nas horas de escândalo e ruína. designa os ideólogos da Revolução Francesa. Tão necessários são os filósofos nessas horas. Opiniões próprias.

Não deveria ser preciso fazer tais recomendações a pessoas tão cheias de consciência ética que. em sentido corrente. ao abrigo de todo olhar de censura. Aí.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 29 ela adquire sentido. por sua vez. com seletividade feroz. sem os nexos que a ligam positivamente ou negativamente ao consenso e à tradição. digamos — que tem todo o direito de ser defendida contra o consenso. o professor. recebe o nome de cara-de-pau. Apenas se pede. não é propriamente um filósofo menor. o pensamento ético grego ficou ali reduzido ao filete escasso e marginal do epicurismo e a um vago e misterioso “sentimento” coletivo escoado entre os versos de Sófocles. na ética popular. recortada e contrastada sobre o pano de fundo do consenso que ela confirma ou desmente. incapaz de atinar com a extravagância do seu procedimento. Nicole Loraux (aliás excelente). como obra de arte. carregada ademais de obscuros simbolismos arcaicos. alterando a hierarquia dos fatos e as proporções dos valores. mas alguma coisa menor do que um filósofo. Por exemplo. Rolando. isolada. Aristóteles ou o estoicismo: sobre os três sistemas completos que constituíram o essencial da herança moral grega às civilizações européia e islâmica. quando apresentada a um público leigo. É uma versão peculiar — alternativa. creio eu. a fineza de declarar de antemão seu propósito de apresentar uma versão nova e heterodoxa da História. Nunca deve ser exibida sozinha. Epicuro. por um único e privilegiado aspecto. o público leigo fatalmente a tomará como se fosse ela mesma a expressão desse consenso. que é válido também em filosofia. Nem mesmo o de desfigurá-la em nome de uma teoria qualquer. Ninguém nega aos organizadores do ciclo o direito de reinterpretarem a História o quanto queiram. Dessa norma. sentiram o urgente impulso de derramá-la sobre toda a nação. rolando. e a da convidada francesa. ou pelo menos sobre quinhentas cabeças. E a tragédia grega. Nem uma palavra sobre Platão. mas não tem o direito de posar em lugar dele perante um público que o desconhece. Mas cometer extravagâncias com o ar inocente de quem procede segundo a praxe mais rotineira é aquilo que. e não estas contra aquelas. Se porém o especialista. não conseguindo mais contê-la em si. Mas a versão que o ciclo apresentou da história das idéias éticas é bem diferente daquela a que o público teria acesso caso se dirigisse a qualquer das histórias da filosofia que circulam em formato de livro. o capítulo referente à filosofia grega resumiu-se a duas conferências: a de José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro. a quem assim proceda. flui a obrigação de ética pedagógica a que me referi: toda teoria nova. no mínimo. deve ser mostrada como tal. Veremos adiante. no consenso quase universal. decorre uma norma prática: as novas teorias é que devem apresentar suas razões contra as velhas. removendo para um canto os nexos principais articuladores do conjunto e puxando para o centro um detalhe qualquer de sua preferência. Como num duelo. a última a negá-lo). e não “a” História. No fim das contas. É um meio de evitar a proliferação de teorias inúteis. Desse preceito. o cabotinismo elevado a princípio historiográfico foi cair num descalabro ainda pior ao tratar da filosofia medieval: espremeu-a toda. É também um preceito elementar do método científico não apresentar uma teoria nova sem provar primeiro que as anteriores não bastam para explicar os fenômenos de que trata. Quem assim a empregue estará se aproveitando da ignorância alheia para fazer-se de autoridade. e dará às palavras de um só indivíduo — ou do grupo que ele representa — o valor e o peso de uma verdade universalmente admitida pelos homens cultos. cabe ao desafiado a primazia na escolha das armas. E nada mais confortável para um cara-de-pau do que poder contar com a sonsa aprovação de uma platéia novata. numa só conferência. que em detalhe co- mento mais adiante. sobre os sentimentos éticos na tragédia grega. o rótulo de extravagante. tomado . Uma história da ética grega que eleve Epicuro ao primeiro plano em lugar de Platão e Aristóteles não tem como evitar. por insignificante e banal que seja. Benedetto Croce dizia que só se compreende um filósofo quando se sabe “contra quem ele se levantou polemicamente”. admite muitas outras interpretações éticas que não somente aquelas destacadas por Nicole Loraux (que seria. com seus quase mil anos de História. Ésquilo e Eurípides. e mesmo aí só a abordou. ocupando todo o espaço e fazendo as vezes do consenso. ele se espalha: deita e rola. o homem investido de autoridade acadêmica apresenta sua opinião solta.

La Cosmologie de Giordano Bruno. gramática e retórica ⎯ o trivium. z A Inquisição instituiu a tortura generalizada. pela massa crédula dos ouvintes. nenhum desses filósofos exerceu qualquer cargo no Santo Ofício nem teve com esta entidade contatos senão episódicos. John Bossy. por G. entendemos que ela foi um mal menor: a única alternativa era o massacre ( v. 25. de modo geral. Rio. ). mas se em vez de julgá-la por um padrão moral abstrato e utópico a comparamos com as alternativas reais existentes na época. ao fim do ciclo de produção e publicação das principais obras filosóficas medievais. Alexandre de Hales. Nenhum desses tópicos nem dos muitos outros em que se subdivide a ética medieval nos livros de História da Filosofia foi considerado significativo o bastante para representar. Hermann. Que aspecto foi esse. Nem sequer estudou as ciências modernas. a Inquisição controlou e enfim extinguiu as matanças. Testas. trad. Elas constituem uma capítulo importante do fabulário popular — do “senso comum”. proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas. sobre a realidade das mortes por enfeitiçamento. cit. como a quintessência do assunto. p. z A Inquisição instituiu a perseguição aos judeus. Kepler. sendo reintroduzida na justiça civil graças à redescoberta — tipicamente renascentista — dos textos das antigas leis romanas. É verdade que a Inquisição se mostrou preconceituosa contra os judeus. Anselmo (1070) até as Reportata Parisiensia de Duns Scot (1300). Ediouro. Newton. A 13 V. op. As fogueiras da Inquisição continuaram depois a arder pela Idade Moderna a dentro. provavelmente não era. Ele não foi condenado por defender teorias científicas. Tomás de Aquino e S. o XIII. o tribunal da Santa Inquisição! Historicamente. Vítor. que não coincide. já é apenas o finzinho da Idade Média: é o princípio da sua dissolução. Bertrand. O tema ali encarregado de figurar como amostra suprema do pensamento medieval foi. que a revestiu da imagem sangrenta que tem para nós hoje. trad. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal. nenhuma observação. Não sei se a acusação era procedente. Eis algumas: z A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico. Descartes. física..30 OLAVO DE CARVALHO assim. a essência da Idade Média. de modo a tirar qualquer pretexto que legitimasse as atrocidades dos “justiceiros populares”. causa imediata da abertura do Santo Ofício. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires. 1975 ). Alberto Magno. 1975. com a eclosão das primeiras manifestações de autonomia nacional. caiu em desuso. I. Para completar. repito. . ). O que a Inquisição fez foi seguir o uso então vigente na justiça civil. Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada. Paul-Henri Michel. Eduardo Francisco Alves. Harvey e tutti quanti. ). Sto. biologia ou matemática. que não marcaram significativamente o conteúdo de suas obras 14. Instaurada oficialmente em 1229. de Galileu a Descartes. Rio. das quais a própria disseminação das heresias.. Alexandre Herculano. “essa instituição — como frisou Alexandre Herculano — nasceu débil e desenvolveuse gradual e lentamente” 13. Bacon. passando pelos livros de Pedro Lombardo. Bibliografia no fim deste volume. de dois séculos. é um dos principais sintomas. ⎯ As matanças de judeus. diria Gramsci — que sustenta a crença na superioridade do mundo moderno e de seus intelectuais. Vítor? O indeterminismo moral de Duns Scot? Nada disso. qualquer caráter criminoso. só começa a partir de 1400: em pleno Renascimento. ) z Giordano Bruno foi um mártir da ciência. Boaventura. mas limitando-o severamente. Testas e J. Ele desprezava a nova mentalidade matemática. “O Feiticeiro e sua Magia” ( em Antropologia Estrutural. Instituindo os processos regulares. A Inquisição examinava apenas livros de interesse teológico direto. nenhum experimento científico. ⎯ Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para verificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico. s/d. leia-se A Inquisição. alcançando um máximo de furor nos séculos XVI e XVII. Isto é tão medieval quanto a física de Newton. é um quid pro quo. Testas ⎯ v. que vai do Proslogion de Sto. Não conseguindo reprimir a ralé enfurecida. o período de atividade inquisitorial mais significativa já é posterior. não permitindo que o acusado fosse torturado mais de uma vez e proibindo ferimentos sangrentos ( v. 14 O número de balelas que circulam a respeito da Inquisição é assombroso. o que deveria ser considerado um marco na história dos direitos humanos. astronomia. e todos os cientistas matematizantes. 1993). Seu período de atuação mais intensa. que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciência moderna. a pesquisa histórica mais recente revelou que Bruno esteve muito provavelmente envolvido em atividades de espionagem contra a Igreja Católica (v. o Rei de Portugal pediu que o Santo Ofício se incumbisse dos processos por usura. Galileu. que na época era crime. Tempo Brasileiro. As disciplinas que lecionava eram tipicamente medievais: lógica. promovidas por devedores espertos ou por monges fanáticos. no MASP. ⎯ A tortura era considerada um procedimento legítimo e praticada em toda parte desde a Grécia antiga. eram um hábito consagrado na Península Ibérica. Durante quase toda a Idade Média. t. Guilherme de Conches. Lisboa. Hugo e Ricardo de S. Pedro Abelardo. ( Em caso de dúvida. com o da sua atuação efetiva. condenado pela Inquisição por defender teorias científicas. ⎯ Giordano Bruno não fez nenhuma descoberta. cit. Mesmo o século do estabelecimento oficial da Inquisição. Paris. op. Alexandre Herculano. recomendo a leitura do ensaio de Claude Lévi-Strauss. mostraram a maior indiferença pela sua obra. Deve-se portanto à Inquisição o primeiro passo efetivo que se deu contra o uso da tortura. Em terceiro lugar. — Para completar. mas por prática de feitiçaria. tão especial? A moral agostiniana da autoconsciência? A ética tomista da escolha razoável? A pedagogia moral de Hugo de S. mas aos que julguem um absurdo preconceito de eras pretéritas imputar à feitiçaria. Sto. cujo maior mérito é justamente o de ter antecipado muito do que hoje podemos dizer contra a ciência moderna ( v.

sem ter sido contestada diretamente ou mesmo discutida. para quê desmenti-la? Por que não tirar proveito dela? O proveito que se tirou. Os philosophes do MASP conhecem tão bem ou melhor do que eu todas essas datas. a História oferece muitos exemplos de ‘censura transferida’. explicar-me as razões de escolhas tão bizarras. 1961. O mais significativo da filosofia escolástica — Sto. ao antropólogo Bronislaw Malinovski e até mesmo a Voltaire. Neil R. no caso. com alguns anos de antecedência.. A prova de que a velha aparelhagem cênica do “romance gótico” ainda funciona é o sucesso de O Nome da Rosa.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 31 Associar. como Friedrich Hayek e Ludwig von Mises? A resposta só pode ser uma: do ponto de vista uspiano um economista marxista é mais filósofo que qualquer filósofo liberal. em José Américo Motta Pessanha. assim. já que o público acredita na lenda. Essa impressão sobre a Idade Média é parcialmente um produto dos ‘Romances Góticos’ do século dezoito. Júlia Mainardi. que a sua fama inquisitorial obedece à definição stendhaliana da fama: conjunto dos equívocos que a posteridade tece em torno de um nome. trad. Tomás. de figurar entre os filósofos. e não podem tê-las trocado por engano. ficou assim rodeada de uma auréola sangrenta. com a vantagem adicional de que essa filosofia. Pessanha e o pensamento Ocidental Uma pista podia ser encontrada. mais vistoso. Whitehead. desviando as atenções para um assunto mais truculento. E. João VI. o processo foi uma pizza. um economista que não é citado em nenhuma História da 16 Filosofia . teias de aranha. como filósofo. 23 ). Pietro Redondi. Mas fica a pergunta: Para quê? Com que finalidade um grupo de intelectuais declaradamente empenhados na salvação moral do país se envolve num empreendimento tão comprometedor como esse de contar ao povo uma História da Ética que falta com a ética para poder falsificar a História? § 3. Mas também sabem que essa fama está profundamente arraigada na crendice popular. com seus quadros sombrios de câmaras de tortura. p. Belo Horizonte. Eles sabem perfeitamente bem que a Idade Média é um bode expiatório das culpas de períodos históricos posteriores. Ockam — fora ali todo espremido num só volume. talvez. de O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Pöe até O Nome da Rosa de Umberto Eco 15. e sobretudo filosofia medieval com Inquisição. 15 Na verdade a lenda surgiu um pouco antes: “A Idade Média foi denegrida. mas sim a 16 Por que essa honra concedida a um único economista. Por automática extensão. Ortega. onde a plantou uma sucessão de obras de ficção de grande sucesso. foi um tour de force admirável: enlamear a reputação do adversário. não pode ser levado a sério. .. logo. da Silva. ao mesmo tempo que omitia Dilthey. Duns Scot. na Rússia. se ele jamais publicou um único trabalho de alcance filosófico e se entre seus colegas de ofício houve muitos que foram filósofos de pleno direito. conjeturei que Pessanha talvez não tivesse desejado ilustrar a História da Filosofia. 1991 ). mas falar delas não é bom para a sua saúde e suscitaria desconforto na platéia. trad. grande retórico e jornalista que. foi o de evitar qualquer exame da filosofia medieval. A Cultura das Cidades. é um descalabro cronológico equivalente ao de apontar Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda de D. Jaspers. Idade Média com Inquisição. Hartmann e Scheler. já se manifestara. mistério e desvario” ( Lewis Mumford. no início da Renascença. ⎯ Bem ao contrário. As distorções não paravam aí: Pessanha achara indispensável dar todo um volume a Kalecki. Galileu Herético. após a qual ele pôde continuar divulgando suas idéias sem que ninguém voltasse a incomodá-lo ( v. Em matétortura ilimitada foi depois reintroduzida pelos comunistas. Na escolha das obras que compõem a série Os Pensadores da Editora Abril. a auréola terminou por rodear também o Catolicismo de modo geral. z O processo de Galileu foi um caso de perseguição inquisitorial. a mesma seletividade deformante que agora inspirava o programa da Ética. Companhia das Letras. Lavelle. Os philosophes de modo geral não ignoram essas coisas. na ocasião da edição. ria de retórica — a arte de alcançar o máximo de persuasão com o mínimo de argumentos —. Procurando. um dos mais destacados membros do grupo. de que Pessanha fora organizador e editor. uma farsa concebida pelo Papa ⎯ padrinho de Galileu ⎯ para que seu protegido se livrasse de um grupo de inquisidores fanáticos mediante uma simples declaração oral sem efeitos práticos. São Paulo. Croce. por vícios que realmente pertenciam aos seus detratores. Itatiaia. sem ter precisado sequer mencionar o seu nome. Cassirer. a que aquela filosofia se associa intimamente. sendo seu exemplo imitado em seguida pelos nazistas e fascistas. Lukács. mais ou menos do mesmo tamanho daqueles concedidos individualmente ao economista John Maynard Keynes.

como Condillac. Helvétius e Dégerando. mas projetava sobre ele o sentido de uma paixão. por exemplo — . O mesmo espírito parecia ter orientado a seleção dos temas para o curso de Ética. em outra escala. que se deu nesses círculos filosóficos às idéias de Richard Rorty. filósofo pragmatista segundo o qual a linguagem não pode dar uma imagem do real mas somente uma expressão dos nossos desejos. onde impera o grupo de Pessanha). valham elas o que valham. a obra de deformação que Pessanha já havia iniciado por conta própria. se formasse por esta só coleção sua imagem da história do pensamento. O círculo de Pessanha não era uma comunidade científica empenhada em descobrir o real. um item indispensável da bibliografia filosófica nacional. malgrado suas distorções. Aí se explicaria o título da série (“pensador” é um termo mais vago e abrangente do que “filósofo”) e também a inclusão de autores menores. Mas Perelman distinguia. sem contar Fielkenkraut. Fukuyama e todos os outros filósofos de alta rotatividade. Ele não quisera refletir a História das Idéias na imagem dos textos. Maurras. mas moldar o futuro. muito Antonio Gramsci. entre o retor e o retórico: entre o orador persuasivo e o estudioso da Daí a receptividade. Não escolhera os livros nem pelo seu valor. muito Foucault. Aldous Huxley diz de uma personagem que. ou as de Spencer e Thomas Huxley. Até hoje não temos Aristóteles completo em português. Nessa operação. de Leibniz. a filosofia deve “fabricá-los” mediante a propaganda e a ação política. não podendo encontrar “universais” na realidade. na falta de concorrentes. salvo engano. não só como editor d’Os Pensadores. Também nos faltam as obras principais de Hegel ( só temos a Fenomenologia e textos menores ). Nesta disciplina. que injetaram o evolucionismo nas veias espirituais do mundo. um grande conhecedor da Retórica. Mas temos Simone de Beauvoir quase completa. mas produzi-la no campo dos fatos. mas sim de estratégia e mercadologia. 18 Na verdade publicam-se muitos.32 OLAVO DE CARVALHO História das Idéias. É por isto que. de Lênin ou Gurdjieff. Enfim. que arrombaram as portas do Ocidente para a invasão das idéias orientais. mas a decisão de uma práxis. é claro. mas um grupo militante decidido a fabricá-lo 19. alguns de primeira ordem pela qualidade literária e pela influência política de seus escritos — De Maistre. Fichte. um tanto envergonhada. típicos philosophes 17. como as de Jung e René Guénon. acabaria por concebê-la bem diversa daquela que poderia obter em qualquer livro ou curso da matéria (exceto. A escolha não refletia um critério teórico. de Kant. mas foram omitidos. Enfim. e o Platão de Carlos Alberto Nunes. a inspiração talvez inconsciente de todos os títulos da série de eventos promovidos pela Secretaria de Cultura: o olhar que aquela gente lançava sobre o mundo não refletia a imagem de um objeto. Husserl. retrospectivamente. que se crê muito letrado porque encontra nas livrarias as últimas modas filosóficas nacionais ( leia-se: estrangeiras ). mas não os de primeira necessidade. se lhe dessem o supérfluo. o programa da Ética não fizera senão prosseguir. Pessanha desempenhava uma função estratégica. o grande renovador dos estudos retóricos no século XX. 1995 ). cujos trabalhos ele foi. mas também por ser. Mas ainda sobrava a pergunta: qual o sentido do empreendimento? Foi só quando ouvi a conferência de Pessanha que pude compreender. discípulo que era de Chaim Perelman. e por ele pude captar também. V. Parece ser isso que os editores brasileiros pensam do leitor. Mas logo tive de abandonar essa hipótese. por seus efeitos político-sociais. ela dispensaria o essencial. a imagem do pensamento universal. nem pela sua importância histórica. Sem falar. seguindo a tradição. o curso da USP. retroativamente. mas pela repercussão que ele mesmo pretendia lhes dar. e segundo o qual. mas pela sua repercussão pública. as teorias não se tornam dignas de atenção pelo seu valor intrínseco. o primeiro a divulgar no Brasil. o leitor d’Os Pensadores. Donoso Cortés. a série Os Pensadores se tornou. Hartmann e não sei mais quantos. o princípio a que obedecera a seleção dos livros: Pessanha não havia procurado mostrar o passado. representando. jamais chegou ao Sul-Maravilha. Dilthey. aos olhos do público. acabou por adquirir uma autoridade compará- A direita também tem seus philosophes. Faculdade da Cidade Editora. Para complicar mais ainda o imbroglio. 17 vel à da Bibliothèque de la Pléiade ou dos Oxford Classics. é claro. 19 . num país onde se publicam poucos livros de filosofia 18 e onde as edições estrangeiras só são acessíveis a uns happy few. editado pela Universidade do Pará. visto que a coleção incluía obras que só exerceram influência em círculos bem delimitados. na teoria e na prática. Schelling. Em Contraponto. e omitia outras que produziram verdadeiras revoluções. a série Os Pensadores. a propósito os capítulos “Armadilha relativista” e “Rorty e os animais” no meu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras ( Rio. como por exemplo as de Wittgenstein e Adorno. Não se tratava de História.

Pessanha. como um orador e homem de marketing. Pois. E quanto mais eu remexia o assunto. Isto ainda não nos dá uma resposta quanto aos motivos últimos da seleção dos temas no curso de Ética. mas já nos coloca numa pista importante: se ali a verdade sofreu graves distorções. Era preciso nada menos que interrogar Epicuro. por seu lado. como um mestre da persuasão. tudo em nome de objetivos morais que seriam alcançados bem mais rápida e facilmente pela velha e boa linha reta. senão uma sondagem em profundidade. prostituir a ciência e conduzir o povo por um caminho enganoso.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 33 ciência retórica. Os Sentidos da Paixão e Ética — sem contar a militância pedagógica nas cátedras da USP — formam o mais vasto empreendimento de persuasão retórica já realizado neste país por um grupo de intelectuais ativistas imbuídos de objetivos políticos bem determinados. o que foi constatado até agora já nos adverte que a estranha conjuntura referida no § 1 deste livro era ainda mais estranha do que parecera à primeira vista. tão ávida de falsificar a História. Perelman era essencialmente um retórico. elevada à liderança intelectual de uma reforma ética de escala nacional. Mas antes mesmo de entrarmos em mais detalhes. não foi por casualidade. mais inexplicável a coisa toda me parecia. se mostrasse tão ignorante das regras mais elementares da ética intelectual. e dispostos a sedimentar. E não lhe faltaram ocasiões para manifestar o seu talento (que antes de empregar na persuasão política ele testara numa série de fascículos de culinária. as bases para a conquista desses objetivos. . mas para dar seguimento coerente a uma ação iniciada muito antes. a série Os Pensadores e os três eventos O Olhar. Não havia remédio. é o que teremos de descobrir numa análise microscópica da conferência de Pessanha. Que intenção está aí subentendida e quais os valores que nela se incorporam. qualificou-se sobretudo como retor. portanto. mais esquisito ainda era que uma elite universitária. na mesma editora). um investigador e codificador dos princípios da argumentação retórica. no plano da luta cultural. que remontasse às raízes intelectuais primeiras em que se inspirara aquela nova e singular concepção da ética. Juntos. se já havia uma inusitada desproporção no volume de recursos culturais mobilizados para a consecução de um alvo tão pequeno quanto a simples destituição de um mandatário corrupto.

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EPICURO - .LIVRO II .

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mas sim perguntar por que. para manter-se de pé. a alma também é material. 21 Lucrécio. A questão não é portanto saber se Pessanha se saiu melhor ou pior do que Agostinho no seu devoto empenho. Logo — pelas leis da silogística epicúrea —. a diferença de maior para menor densidade da dita “matéria” 21. V. Mas opiniões esquisitas não são mesmo de estranhar em quem se declare seguidor de Epicuro. Pessanha não recuou diante das maiores temeridades na apologia do seu guru. e até os deuses são materiais — havendo apenas. por esta mesma razão. pronunciada por José Américo Motta Pessanha. entre estes três níveis de seres. pois os traços do mestre devem se reencontrar no discípulo — e Epicuro produziu algumas dúzias de opiniões que. Segundo Epicuro. será preciso remontar ao próprio Epicuro e. já que alguém antes de nós desenterrou a múmia. cuja solução trará consigo a de todos os outros anteriormente mencionados. alguém se deu o trabalho de ir retirar o pó milenar que encobria uma múmia filosófica. De natura rerum. — A matéria segundo Epicuro “As Delícias do Jardim”. Epicuro ensinava que o filósofo deve abandonar todo empenho de reformar a sociedade. O epicurismo foi ali pintado como uma das maiores filosofias de todos os tempos. existência material. tão diferente daquela grossa metafísica de caixeiro de loja que costumamos conhecer por esse nome. no campo da absurdidade. tudo o que chega ao nosso conhecimento tem. procurava conciliar a bondade de Deus com a existência do mal no mundo. e dela aparentado tão-somente na distância que ambos guardam de toda verdadeira filosofia. 20 . portadora da solução para todos os males humanos (sic) e da inspiração que o Brasil precisa para sair do atoleiro moral. não foi uma simples exposição da filosofia de Epicuro: foi uma rasgada profissão-de-fé epicurista e uma declaração de guerra a todos os críticos de Epicuro. Têm-na inclusive os objetos de nossos soVeremos. fazendo de seu autor um clássico do besteirol. mas uma forma superior de luta política. se tornaram modelos insuperáveis. só para depois ter de varrê-lo para baixo do tapete.CAPÍTULO II. só o que é material chega ao nosso conhecimento. retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo. Agostinho. requer uma lógica não menos circense: a opinião de que a fuga dos intelectuais para o jardim de Epicuro não é alienação nem covardia. COSMOLOGIA DE EPICURO § 4. segunda conferência do ciclo de Ética. que essa opinião não é totalmente destituída de sentido. 146 ss. Um aspecto particularmente biruta da filosofia de Epicuro é o seu alegado materialismo. notório adversário do epicurismo. mostrar o avançado estado de decomposição em que se encontra. Se de um lado não poupou o sarcasmo ao ridicularizar as acrobacias dialéticas com que Sto. de outro não hesitou em defender uma opinião que. mas que o seu sentido é o de um engodo proposital. Propor isto como um remédio eficaz para a corrupção rei- nante é o mesmo que recomendar a fuga para longe dos credores como um método eficaz de saldar as dívidas 20. o corpo é material. Para sondar as razões desse mistério. Levado por aquele entusiasmo belicoso que sempre anima os porta-vozes de uma doutrina salvadora. num ciclo nominalmente votado ao esclarecimento de questões atuais e urgentes. Como tudo é material. no fim. Uma profissão-de-fé epicurista.

Sabe-se lá sobre que eles conversam. Mas nem toda a dialética de Agostinho. podem viver sem um ambiente material em torno. por que teria de ser menos densa justamente nos seres mais duráveis e não nos mais efêmeros? É como dizer que uma superfície pintada é tanto mais azul quanto mais diluída esteja a tinta azul. segundo Epicuro. como todo e qualquer mundo existente é sempre material como o nosso. não é porque não querem e também não é porque nem querem nem podem. podendo ajudar os necessitados. Afinal. Sendo filósofos. que o objeto da admiração não traga nenhum benefício à alma que o admira e não lhe dê nem mesmo um pouco de prazer. não deve ser menos desprovido de assunto. Mas. X. 22 Diógenes Laércio. e por isto são mais duráveis. Epicuro acha-os o supra-sumo da perfeição. longe da miserável agitação dos mundos e sem interferir em nada na ordem ou desordem das coisas. mas o que Epicuro garante é que certamente eles o fazem em idioma grego. ao mesmo tempo. só lhes resta alojar seus corpinhos de matéria sutil num intermundo. estaria procedendo de maneira indigna de sua condição divina. Se sonhamos com deuses. prossigamos com a investigação. Mas nós. Assim Epicuro cai nas malhas do seu próprio argumento. Para começar. mas não é porque não podem. Para saber se uma coisa exerce ou não influência sobre outra. ou intervalo entre os mundos. Não é de bom tom. pelo bem da paz no intermundo. como não podemos encontrálos em parte alguma deste baixo mundo. destituído de coisas. os deuses não ficam atrás. que eles existem materialmente. não é porque não podem. seguro de que não entendem uma só palavra do que estou dizendo). perguntar como é que seres materiais. o mais velho e eficaz procedimento consiste em suprimir (de fato ou imaginativamente) a . de outro lado. eles devem estar em algum outro mundo. motivo pelo qual devemos admirá-los. e não em língua de bárbaros (motivo pelo qual posso aqui falar mal deles à vontade. se eles não nos ajudam. ou pode e não quer. isto já prova. Só que. devem ser criteriosamente evitadas. só para depois terem de pedir a Agostinho que as limpasse. somada à retórica de Perelman. Porém. eis aí questões que. em que se agitam há milênios os debates no intermundo: se eles não interferem. mesmo de matéria sutil. o que cria o seguinte problema: se a matéria é eterna. Mas. e sim porque não querem. Mas um conceito de matéria tão elástico como o de Epicuro só podia mesmo dar nisso. ainda segundo Epicuro. Só que Epicuro. Como é possível que o modelo supremo do bem não nos cause nenhum bem. ou nem quer nem pode. em nada ligando para as nossas preces nem mesmo quando proferidas no seu celestial idioma. devemos concluir que. § 32. pois aquilo que não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos 22. por que raios é então? Se a matéria de Epicuro é esquisita. os deuses são compostos de matéria sutil. Embora materiais como nós. rarefeita. Epicuro diz que nada devemos temer nem esperar dos deuses. um deus que. mas declarou que ele se aplica perfeitamente ao Deus cristão. num ambiente que. afirma a eternidade da matéria. que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações. se recusasse a fazê-lo.38 OLAVO DE CARVALHO nhos e visões imaginativas. diz Epicuro. poderia tirar os deuses epicúreos desta aporia congênita. E como Epicuro também diz que um deus não poderia ser impotente. que já estamos metidos na densa porcaria terrestre. eles não iriam querer sujar suas mãozinhas de matéria sutil na porqueira da matéria mais densa. já que eles permanecem no puro ócio contemplativo e não nos causam males nem bens. com que julgava fulminar a religião grega e toda religião possível: “Ou Deus quer ajudar e não pode. Embora eles nos sejam indiferentes e portanto inúteis. ele diz também que o prazer é o supremo bem. pela ética epicúrea. a única ocupação deles consiste em conversar. e vestidos somente de intervalo. que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o modelo mais perfeito do ócio contemplativo.” Pessanha não só achou engenhoso este argumento. eles ficam trocando idéias nas longas noitadas do intermundo.

de um lado. e. e eles não. Logo. personificado nos deuses. mas para todos os seres e coisas. seus deuses não difeririam muito do Deus bíblico. são bons para o . É claro que isto eles não podem ser. deve ser um bocado de trabalho. neste caso. um dos atributos essenciais da divindade em todas as religiões. não exercem influxo nenhum e então a prática do epicurismo está destinada ao fracasso. A única diferença que restaria entre Yaveh e os deuses epicúreos é que Ele criou o mundo. Para seres ociosos como eles. quando saem à cata de prazeres grosseiros. como se denomina aliás tecnicamente. Ou Epicuro está certo na teoria e errado na prática. na hipótese contrária. Tal é justamente.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 39 primeira. então temos de admitir que os deuses epicúreos. a distância é grande. acabaria por se perder em prazeres menores — que Epicuro despreza — e. que seria do epicurismo? A busca do prazer. por sua estática e autobenéfica perfeição intrínseca. isto é. ainda que por sua simples presença 23. como modelos e causas formais do bem. a imagem do ideal espiritual que norteia os esforços do asceta epicurista. Mas entre dizer que eles não criaram o mundo e concluir que eles não fizeram coisa nenhuma desde que o mundo foi criado. a capacidade para a “ação de presença”. o modelo do bem. mas o são duplamente: em linguagem aristotélica. para o filósofo. eles de fato não são nem causa material nem causa eficiente. animais e plantas e pedras e átomos e galáxias. Se Epicuro tivesse se limitado a dizer isto. grosseiros até o supremo ideal do ócio contemplativo. e então não são inócuos como os diz Epicuro. nem são o gatilho que dispara o movimento da criação. Mas Epicuro afirma ainda que. para ver como fica a segunda. resultaria em aumento da dor. e nem só para os homens em geral. mas são bons para nós. os deuses não somente são a causa das ações do filósofo. de outro. se tornou consciente e assumido: o ócio contemplativo. e a imobilidade agente é. Tirar o corpo fora de toda responsabilidade sob a alegação de não ter criado o mundo não é lá também um comportamento muito digno de um ser divino. O máximo que se pode conceder à tese da inocuidade dos deuses é que. segundo Epicuro. nos mostram pelo exemplo da sua perfeição o caminho do bem. tudo girando numa espiral ascendente desde os prazeres imediatos e 23 E não haveria nada de estranho em que uma escola de ascetismo atribuísse a seus deuses a capacidade de produzir efeitos pela sua simples presença. são causa formal do bem e causa final da vida ascética. os deuses são indiferentes ao bem e ao mal. ou. mas todos os seres e coisas. Epicuro diz que os deuses são inócuos e indiferentes. Veremos isto mais adiante. na medida em que. Nas tradições espirituais em geral. E como ademais o desejo de prazer não move somente os homens. na medida em que este bem não é só para os filósofos. além de ociosos. ou está certo na prática e errado na teoria — a não ser que esteja errado em ambas as coisas. Epicuro é taxativo: o mundo se compõe de átomos e a causa do movimento é o desejo. então eles não apenas são causa de alguma coisa. no sentido aristotélico. ficando desprovida de um modelo ou meta final por que orientar-se. eles produzem um efeito bom e logo são bons sob algum aspecto. ativa e transitivamente. Os deuses são apenas a imagem do bem. por definição. a bússola por que se orienta o desejo. Por enquanto. o qual também não é nem estofo material do mundo nem causa imediata dos atos humanos ou dos fenômenos naturais. a busca do prazer filosófico é só um tipo especial de busca do prazer. Neste ponto. Mas. que eles nem constituem o substrato material de que é feito o mundo. é atribuída mesmo a santos e gurus. estaria sendo nada mais que coerente com seus próprios pressupostos. das duas uma: ou os deuses exercem um influxo benéfico. pois. sem eles. E não somente são bons em si mesmos. sem conhecimento da meta suprema personificada na imagem dos deuses. Porém. E. tentemos tirar as conseqüências lógicas da teoria. Pois estes — diz Epicuro —. Mas. então só resta concluir que os deuses epicúreos. não fazem senão buscar de maneira obscura e inconsciente aquele mesmo objetivo supremo que. meta e motor geral da vida humana. por mais que o filósofo procure isentá-los de toda responsabilidade. não alcançando jamais o benefício do ócio contemplativo. afinal. são enfim a causa formal e final de tudo quanto acontece no universo. mas das de todos os seres humanos. o resultado a que chegam aqueles que buscam o prazer no terrestre e no imediato. sendo causa formal e final. sem necessidade de uma ação externa. Se os deuses são. Então. aparecendo em nossos sonhos. a não ser que os membros da Comissão de Orçamento do Congresso sejam deuses.

para captar. então por que diabos não interferem logo de vez para acabar com o mal no mundo? Neste ponto. ou por esse pretexto. à desculpa esfarrapada de que a cosmologia epicúrea não deve ser tomada ao pé da letra.. lhe revelaria o indizível segredo do universo como realmente é. a não ser que a conexão desse método com a doutrina já esteja provada de antemão na doutrina mesma. por intuição direta. ou pseudo-religiosas. Esta constatação fecha o caminho a um piedoso subterfúgio com que o discípulo beato poderia ainda tentar salvar alguma coisa do epicurismo. a aceitação preliminar de uma doutrina intrinsecamente absurda. e. 24 ticamente. uma psicagogia: um guiamento da alma. ou melhor. desculpa que nasce do desejo de enxergar profundidades insondáveis onde há apenas a banalidade de um pensamento confuso. em nome de quaisquer benefícios futuros a serem alcançados pela prática do método.. Epicuro nos teria dado uma verdadeira pedagogia. Se não fosse assim. a verdade viva incomunicável em palavras. Segundo essa hipótese. porque toda religião que se preze distingue claramente entre doutrina e método. levaria o discípulo a uma “visão interior” que. quem se agarre ao epicurismo como a uma última tábua está naturalmente livre para crer que assim seja. o qual. é sempre de ordem intelectual e lógica. Neste caso. para uso dos novatos — um véu de fantasia na entrada do templo da verdade. e vice-versa 24: se o mundo é como Epicuro o descreve. interrompe os trabalhos e manda solicitar o parecer técnico de Sto. uma vez trilhado. § 5. mas os resultados práticos do método não servem nunca para validar retroativamente uma doutrina. a referida cosmologia não deveria ser julgada criObjeção exatamente igual à que Pessanha. que confunde a inteligência e a torna inapta para seguir qualquer método que seja. o presidente do colóquio filosófico intermundano. mas interpretada simbolicamente. mas apenas uma imagem sugestiva que. sem notar que ela se aplica também a Epicuro. se são tão formidavelmente bons assim. Um piedoso subterfúgio A cosmologia de Epicuro desmente portanto a sua ética. como preço do ingresso na via da salvação. o Guru Maharaji e o Rev. qualquer bom resultado obtido na prática de um método poderia ser alegado como prova de qualquer doutrina. filosófica ou científica ou religiosa. e sim para ser aceita e “revivida interiormente”. À cosmologia propriamente dita só teriam acesso os iniciados. que ao atingirem os graus mais elevados da ascese epicúrea poderiam então jogar fora o véu de símbolos. nele não se pode ser epicurista com sucesso. Só que: 1º A aceitação dessa hipótese excluiria o epicurismo do campo da filosofia. deve ter resolvido perseverar na prática dos seus ensinamentos movida por essa esperança. lançou contra a filosofia de Demócrito. vendo o debate acalorar-se acima do compatível com o decoro que deve imperar nessas regiões excelsas. e não impõe jamais. Mas. Muita gente. Moon já não teriam um discípulo sequer. Mais ainda: a doutrina expressa que conhecemos como cosmologia de Epicuro não seria a verdadeira cosmologia de Epicuro. nestes tempos de naufrágio. Sob a aparência de uma falsa cosmologia. mas aceita em confiança. A prova de uma doutrina. amém. como na repetição ritual de um mito. 2º Não podemos admiti-lo nem mesmo como crença religiosa. libertando-a do temor dos deuses e predispondo-a a ingressar no caminho epicurista. valesse como um artifício para apaziguar a alma humana. e se a prática do epicurismo é possível. isto é. embora falsa em si mesma. Agostinho. então o mundo não é como Epicuro o descreve. a cosmologia de Epicuro não pretenderia oferecer uma descrição literal do mundo como realmente é. no fim de tudo. É até possível que seja assim. indiferentemente: a santi- . sem o qual Rajneesh.40 OLAVO DE CARVALHO universo inteiro. para inscrevê-lo no das crenças religiosas. de fato. mas apenas o seu pórtico fictício. A letra da doutrina epicúrea então não estaria aí para ser compreendida ou discutida filosoficamente. como veremos mais adiante. e o valor de um método se mostra por seus resultados práticos. nada conseguindo entender da doutrina do mestre.

movido pelo temor reverencial que lhe inspira a pessoa do mestre ou pela chantagem emocional da massa de seus condiscípulos. § 6. então vale somente como miragem para atrair os discípulos a essa prática. A coisa torna-se ainda mais catastrófica pelo fato de que. e a cosmologia de Epicuro é apenas uma história mal contada. sinal seguro de que algo ali está errado. ipso facto. de modo que mesmo resultados práticos fabulosos não serviriam em nada como provas da teoria. Estando as coisas nesse pé. a dieta de Beverly Hills atestaria a veracidade do marxismo e os sucessos do sistema de franchising seriam um argumento em favor da física quântica. segundo Epicuro. que se apresentasse como simples preparação imaginativa para uma ascese. e como tudo o que aparece na memória e na imaginação tem. A imaginação dos deuses. têm memória e imaginação. Nada mais lisonjeiro. segue-se que as coisas que os deuses recordam e imaginam existem materialmente nesse mesmo instante. para um público intelectualmente incapaz. para o argumento de que essa teoria. que talvez sirva para adormecer crianças ou velhinhas. — A eviternidade. por exemplo. Mas não pensem que termina aí o rol de problemas filosóficos que mantêm atarefadíssimos os ociosos deuses de Epicuro. fazendo a apologia do mongolismo. teria de atender a um requisito óbvio: teria de ser sensata ou verossímil — pelo menos esteticamente verossímil — o bastante para poder acalmar provisoriamente a demanda de explicações de um homem adulto. Se a coisa fosse extrapolada para domínios extra-religiosos. Se. . é porque pensam. o que vimos no epicurismo foi justamente que nele não há conexão entre teoria e prática. no mundo da pseudo-espiritualidade ou antiespiritualidade contemporânea. mas que. quem interprete assim as expressões da Bíblia acerca dos “pobres de espírito”. Se pensam. pratique o método. diante deste sinal. Vale o mesmo que um anúncio do Silva Mind Control. o candidato a discípulo. em última instância. porém. sem discuti-la. no homem capaz de julgar. mais rarefeitas do que os corpos dos deuses que as imaginam. pen- 25 Não falta. É a elas que se dirige o apelo de Epicuro e de José Américo Motta Pessanha. Um deus pode. nada mais resta dizer. Sua eficácia depende de que o discípulo tenha abdicado de toda demanda da veracidade e esteja somente em busca de um alívio factício para angústias banais. 4º Se a cosmologia de Epicuro não vale nem mesmo como prefácio simbólico a uma prática ascética. e os milagres de Cristo seriam provas do vegetarianismo. demasiado profunda para que a alcance a mera inteligência lógica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 41 dade do Buda demonstraria a validade da doutrina da livre empresa. Nossas cidades estão cheias de pessoas assim. Neste caso. a perfeita imbecilidade se tornaria a mais alta prova de qualificação de um discípulo para a via espiritual 25. exceto o número do telefone do hospital psiquiátrico mais próximo. estes miseráveis mortais ficariam. 3º Mesmo uma cosmologia simbólica. do que sugerir-lhe que sua estupidez é uma forma superior de aptidão espiritual. Se os deuses falam. que não atinam com as temíveis conseqüências psicológicas a que podem chegar por esse caminho fácil. então. reprime a exigência interior de explicações e se atira junto com eles no abismo. Há um pior ainda. pelo menos alguns são também pensantes. existência material (só que mais rarefeita que a do corpo). a equação epicúrea de que rarefação = durabilidade obriga-nos a admitir que elas são mais duráveis do que os deuses mesmos. E se por acaso ocorresse a um deus a idéia desastrosa de pensar num gato ou numa lagartixa. Ora. uma vertigem abissal. entre os seres e coisas recordados pelos deuses. somente um perfeito charlatão iria apelar. Sendo essas coisas. e dotados portanto de memória e imaginação. pois isto seria um convite a que cada qual se entregasse com tanto mais fervor à prática quanto menos estivesse em condições de compreender a teoria. evidentemente. desperta apenas um sentimento de incongruência. da “inocência” e dos “pequeninos”. só pode ser compreendida por quem primeiro. dotados de uma durabilidade maior que a dos deuses.

os lugares mais altos e duráveis são ocupados pelos seres mais rarefeitos. Mas o filósofo do jardim não ignorava a necessidade dela. ele geralmente chegava a conclusões tão ou mais estapafúrdias do que aquelas que refutava. numa linguagem alucinante onde é impossível distinguir o que é dito em sentido direto do que é dito em sentido oblíquo. e como cada um desses seres também teria suas recordações pessoais. Gurdjieff não era evidentemente um charlatão. logo em seguida argumenta. mas. diz Epicuro. e os lugares mais baixos pelos seres mais densos. Gurdjieff tinha um prazer diabólico em humilhar os intelectuais ocidentais. ou de qualquer outra. Sendo assim. tal como as defesas de um neurótico contra a terapia o tornam ainda inerme ante a neurose. se 26 O temível gozador metafísico Georges Gurdjieff reeditaria no século XX essa teoria. Se os deuses se refazem após cada existência. constituídas por sua vez de seres ainda mais duráveis. tanto que a cobrava dos adversários. a coisa toda se complicaria formidavelmente. uma vez mortos.42 OLAVO DE CARVALHO sar num homem que está pensando num gato que está pensando numa lagartixa. mas aí o leitor de alma oblíqua já está zonzo demais para perceber a piada. e por isto os átomos. Ele denomina-a “Lei de Queda” e a expõe no início do livro Relatos de Belzebu a seu Neto. a mais funda incapacidade de perceber a fraude espiritual. O universo de Demócrito é um vasto escorregador. Ele sabia do ponto vulnerável que há na alma de todo materialista durão. para dizer o português claro. no ato. § 7. fatos acontecidos antes de seu nascimento. não é que ele não acredite em mais nada: ele acredita em tudo. acreditando que precauções contra este bastam para resguardá-lo daquela. só para desmascarar-se em seguida e desmascarar. não são eternos. Um exemplo contundente encontra-se no livro de . e isto inexoravelmente formaria uma hierarquia de durabilidade crescente que partiria de um deus provisório e culminaria numa lagartixa eterna. Epicuro responde que. com igual cara-de-pau. seria nada menos que eterna. levando-os a acreditar nos absurdos mais patentes. Assim poderiam até mesmo tornar-se mais duráveis do que as lagartixas. de fato. caso a lagartixa por sua vez não pensasse em mosquitos. Uma possível saída para o dilema seria o conceito de eviternidade. ou perenidade. é que. O moderno intelectual ocidental tem. mais baixo ele está na escala ontológica e mais próximo da irrealidade pura e simples. caem e acabam por se chocar uns com os outros. até esmagar o cérebro do infeliz. Demócrito proclamava que no mundo só existe o vazio e. tomando-o como mestre espiritual. nem a desprezava. Os deuses. dentro dele. de uma vida para outra. se refazem integralmente tais e quais. além de recairmos no pecado mortal de idealismo.” Gurdjieff provou isto em toda a linha. onde o principal que acontece é tudo vir abaixo 26. para poderem retornar à memória dos deuses a cada nova existência destes. polemizando na base do façao-que-eu-digo-mas-não-faça-o-que-eu-faço. mostrou que as defesas pretensamente racionais do intelectual moderno contra a ilusão religiosa o tornam indefeso contra a fraude espiritual. e batia nesse ponto sem dó. Resta ainda um pormenor intrigante. São mortais. o vazio. mas alguém dotado de poderes reais. Bastaria que apelassem às memórias de uma vida anterior ou futura. “Quando um homem já não crê em Deus — dizia Chesterton ⎯. os átomos. e bastava um ocidental ter verificado isto para submeterse a ele com reverência e temor. Ou seja: que quanto mais matéria existe num ser. existe continuidade de essência entre as várias existências. Só que. nessa hierarquia dos seres recordantes. não oferece resistência. do tempo e da morte. com um ar de seriedade à Buster Keaton que bastou para impressionar uma multidão de intelectuais. Epicuro crítico de Demócrito O leitor já deve ter percebido que a coerência lógica não é o forte de Epicuro. como coisa vivida. em vez de resolvê-lo. impelidos por um inexplicável empurrão inicial. Não estando presos aos limites de uma existência determinada. pela viabilidade do moto contínuo. endossada por Karl Marx e por José Américo Motta Pessanha. Mas isso seria multiplicar o problema. Se a idéia em si já é bastante desconfortável. precisariam ser eviternos eles mesmos. que ele confunde com o mero charlatanismo. ficaria totalmente revo- gada a mais importante diferença entre os deuses de Epicuro e os da religião grega. Com isto. como que a desmascarar a fraude anterior. para um materialista roxo como Epicuro ou Pessanha ela deve assumir uma feição sinistra e diabólica uma vez constatado que. e uma essência que permanecesse inalteravelmente a mesma por cima da mudança. permanecem fundamentalmente idênticos a si mesmos. Um exemplo é a sua crítica de Demócrito. a vacuidade mental do seu público. pois os seres recordados. E isto. não sendo material. é autêntico idealismo. talvez até pudessem realizar o prodígio de recordar. de vez que estas não têm uma memória tão rica. ou sucedidos após sua morte.

precisamente. A Miséria da Ciência Social. Mas é também falso o que alega Epicuro: que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 43 fosse de fato assim. se prosternasse ante esses fenômenos como ante sinais do Espírito. sobra lugar para o imprevisto e o livre-arbítrio. os átomos devem ter também um princípio de movimento livre e indeterminado. 27 O que pressupõe que os átomos tenham peso ⎯ uma premissa epicúrea da qual Demócrito não compartilha pelo menos explicitamente. uma vez admitido. para isso. e. Madrid. Rocco. Pois essas são. ou completar um silogismo da primeira figura. Pessanha enxergou conservadorismo na física de Demócrito pela razão de que a lei de queda impõe um determinismo integral. Epicuro conclui que a impulsão inicial da queda não é tudo. Harper & Row. Os siddhis podem ser adquiridos por treinamento. não obstante. Encounters and Conversations. um novo princípio. Este se opõe — logicamente. que ele denomina clinamen (“inclinação”. Comprovar a autenticidade dos fenômenos produzidos pelo taumaturgo mineiro Thomas Green Morton foi o bastante para que Sodré. 28 V. Pressupõem balizas. e não a um “vazio” que tornaria o indeterminismo perfeitamente redundante. usando e abusando do seu direito ao clinamen. torna o clinamen perfeitamente desnecessário 30. americana. as considerações de Nicolau de Cusa quanto a este ponto. uma escala. não deixando para os pobres átomos outra saída senão a obediência servil a uma necessidade tirânica. Diálogos sobre la Física Atómica. um espaço finito referido a um centro ou pelo menos a limitação a um campo determinado. O vazio. acabam por se aglomerar em massas compostas. subtraindo-se ao menos em parte à lei de queda. o indeterminismo epicúreo com o de Planck e Heisenberg. mas simplesmente porque não haveria nada que determinasse a direção do movimento. para a mentalidade de hoje. Madrid. ao passo que. 1985. e não representam. Epicuro. § 20. Que ninguém confunda. Acontece que Demócrito. existem 28. e. para o homem espiritual. que independentemente dela. Mas Epicuro já conhecia a obra de Aristóteles. no vazio. não podendo portanto juntar-se para formar os seres e coisas que. Physics and Beyond. No indeterminado. 1975 ( ed. senão uma enganosa periferia do Espírito. não podia ser mesmo muito bom em lógica. levado pela coincidência vocabular. Tudo isso é de uma ingenuidade atroz. todos os movimentos seriam indeterminados. Carlos García Gual. sem a necessidade de introduzir. porque aí os átomos. Demócrito não se deu conta de uma coisa que hoje até um garoto de escola perceberia num relance: que. leiam Werner Heisenberg. pp. pois a indeterminação exclui. trad. na física de Epicuro. em sânscrito ). ou dialeticamente. 110 ss. A física de Demócrito e sua refutação por Epicuro são ambas igualmente falazes. mas Pessanha condenou a primeira e endossou a segunda sob a alegação de que aquela favorece uma ética “conservadora” e esta uma ética “progressista” — argumento que é propriamente aquilo a que se dá a denominação científica de o fim da picada. que é o determinismo mecanicista. toda regularidade obrigatória. Comentarei este caso com mais detalhe no meu livreto O Antropólogo Antropófago. BAC. no vazio infinito em todas as direções. e por isto é mais fácil perdoar a ingenuidade da cosmologia de Demócrito do que a inconsistência da sua refutação. Jogos Extremos do Espírito ( Rio. 1990 ). contemporâneo de Platão. típico cientista social brasileiro de formação marxista. sem perceber que ali havia apenas uma demonstração de siddhis ( “poderes”. expressões como “cai” e “sobe” não fazem o menor sentido 29. 1971 ). e muito menos um princípio tão extravagante como o clinamen. Os siddhis são a pirita espiritual. formas da determinação. Volto a este assunto mais adiante. adiante. Muniz Sodré. Perguntamo-nos se essa gente conseguia distinguir um ovo de um tomate. uma zona nebulosa onde meras forças sutis da natureza podem ser tomadas pelos tolos como mistérios transcendentais. jamais chegariam a tocar uns nos outros como o pretende Demócrito. os átomos se moveriam indeterminadamente em todas as direções. aliás um dos mais belos livros do século. formando os seres e os mundos. no vazio indeterminado. os átomos se movem randomicamente em todas as direções. acoplam-se e desligam-se à vontade na mais obscena gan29 30 V. . por definição. Alianza Editorial. entrando em contato fortuito uns com os outros. Deste apelo à razão. Aliás sobra até demais. New York. Wolfgang Strobl y Luís Pelayo. que não fora ainda codificada por Aristóteles e se exercia de maneira empírica e amadorística. “tendência”) e define como o impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor. ou complementarmente. os átomos cairiam todos em linha reta e paralelamente 27. e contra ela. como queiram — a um princípio real e concreto. Em caso de dúvida. não porque quisessem fazê-lo movidos por tais ou quais intenções epicúreas. todos os movimentos teriam de ser paralelos e uniformes. Pelo clinamen.

Freud. com iguais resultados: no reino da retórica política. coisas ou deuses. podemos levá-lo para onde o quisermos. O filósofo Alain. esse argumento está no livro Le Citoyen contre les Pouvoirs. Aristóteles o confirma. enquanto nós. mediante a distinção. por meio dos quais um animal ou um homem pode ser governado desde fora. Eis aí no que dá citar sem ler. com o seu “princípio de realidade” que transcende o princípio do prazer. Mas não é preciso tanta ciência para nos informar aquilo que um carroceiro sabe perfeitamente: que. levados pelas sensações. O cidadão consciente. Bismarck dizia que a ciência do governo consiste em pauladas e guloseimas. reagindo contra o ardil. a coisa é das mais óbvias. Tudo isso é. a lei de queda ou o clinamen. porém mais inexplicável ainda é que os átomos devam ter o direito a estar livres da lei de queda. em cujo título os organizadores do ciclo de Ética se inspiraram para nomear uma das divisões do evento: “O cidadão contra os poderes”. Aqui é o determinismo que se torna “progressista”. e o clinamen um instrumento da tirania. sem que ele tenha a menor idéia de estar sendo conduzido de fora nem deixe de estar persuadido de que exerce livremente o seu clinamen. então. sem podermos dar um pio contra o seu maldito clinamen e só nos restando. Não há saída: se os átomos seguem o clinamen. Mas ainda há um outro senão. entre a vontade livre e a obediência ao instinto. ficamos inapelavelmente submetidos à arbitrariedade dos átomos. tornou célebre a condenação do clinamen em nome da liberdade. e vão gerando e destruindo mundos e mais mundos sem dar a mínima satisfação a seres. O budismo diz a mesma coisa: que só alcança a liberdade quem se coloca para além da dor e do prazer. no sentido mais baixo da expressão. seres viventes. . uma visão determinística da queda inevitável do capitalismo não parecia aos comunistas ser mais progressista do que a crença liberal na imprevisibilidade da História? Os teóricos do liberal-capitalismo não atacaram no marxismo justamente o seu calcanhar de Aquiles determinista? O uso de imagens tiradas da ciência física em apoio desta ou daquela ideologia política só tem valor retórico. ardilosamente encenadas pelo tirano (lembram-se do futebol no tempo do general Médici?). que se tornou clássica e foi endossada pelo cristianismo. A associação que Pessanha fez entre cosmologia e política é pura figura de estilo. Quem disse que buscar o prazer e evitar a dor nos liberta do determinismo? Pavlov dizia exatamente o contrário: o binômio dor-prazer é o comutador que aciona os reflexos condicionados. que não mente. em face dele. justamente porque buscam o prazer e fogem da dor. Aceitar a física de Epicuro por ser progressista é o mesmo que rejeitar a de Einstein por ser judaica.44 OLAVO DE CARVALHO daia cósmica. abstrai-se das impressões de prazer e dor e decide segundo a lógica implacável da ordem física. não são livres: obedecem ao determinismo do instinto. caem no engodo das aparências. fazendo um asno perseguir a prazerosa cenoura e esquivar-se do doloroso porrete. argumentava ele. a alternativa de relax and enjoy que nos é oferecida pelo epicurismo. de fato. Metaforicamente. Mas é só uma aparência. a festança dos átomos no liberou geral da cosmologia epicúrea pode parecer mais progressista ou democrática do que a submissão implacável à lei de queda. teórico do Partido Radical francês. reação e progressismo. E também pelo Dr. Por uma coincidência irônica. Politicamente. Os homens são dóceis e manipuláveis. Feitas as contas. Algumas décadas atrás. ditadura e democracia podem indiferentemente chamar em seu apoio Demócrito ou Epicuro. todos os argumentos são de borracha. uma concepção muito singular acerca da liberdade. O devotado interesse de um filósofo pelos direitos políticos dos átomos pode parecer um tanto bizarro. que pode ser interpretada num sentido como no sentido inverso. que é rígido e repetitivo como a lei de queda.

o Treinamento Autógeno de Schulz. A ética de Epicuro divide-se em duas partes: uma geral ou teórica. e como tudo o que se imagina é material. nem menos. a Platão. Não é preciso ser muito esperto para perceber que a proposição decisiva é a terceira — uma exata inversão do timor domini principium sapientiæ. o pobre Tetrafármacon já pode se considerar derrotado pela profusão de concorrentes modernos. num mercado super-saturado de similares como o Pensamento Positivo de Dale Carnegie. que Pessanha apontou como a solução para todos os males da humanidade. não se deve temer a morte. a vida filosófica como um caminho para a felicidade etc. daquilo que Epicuro entende como felicidade. já que amigos. parentes e inimigos se lembrarão de nós. aos estóicos. O Tetrafármacon consiste. como por exemplo a seguinte: se tudo o que imaginamos existe em algum lugar. ensinando o discípulo a não temer os deuses (já que eles estão fora da jogada). e sim apenas uma psicologia prática. uma vez fugido da agitação da polis e bem protegidinho no jardim. que hoje há na praça com o mesmo objetivo. na qual o praticante. e especialmente da humanidade brasileira. a Sofrologia de Caycedo. É com plena inconsistência lógica. não se deve temer a divindade. O culto destes valores é comum a Aristóteles. pois um exame mais cuidadoso faz brotar delas algumas dúvidas inquietantes. só podendo ser válidas se admitirmos a hipótese de uma verdade dupla. etc. ÉTICA DE EPICURO § 8. do que as muitas técnicas. o “quádruplo remédio” que o filósofo propõe a todos os males humanos. A teoria consiste apenas na afirmação de alguns valores gerais que coincidem em gênero. nem a morte (pois quem deixa de existir já não pode sofrer) etc. uma técnica deve ser julgada exclusivamente pelos seus resultados práticos. Contra Epicuro cabe portanto a mesma objeção que Pessanha fez a Demócrito: que sua física e sua ética não tem conexão entre si. Ora. 32 . a Psicocibernética de Maxwell Maltz. e não tem nenhum vínculo de implicação recíproca com a cosmologia — ou física — de Epicuro: pode ser aceito dentro ou fora dela indiferentemente. O remédio de todos os males A parte ética da doutrina epicúrea. então teremos de continuar a existir depois da morte. sumariamente. norte-americanas na maioria. 4ª. Veremos logo adiante o parentesco entre o Tetrafármacon e a Programação Neurolinguística. número e grau com aqueles que eram subscritos por todos os filósofos da época: a superioridade da contemplação sobre a ação. provém de que o objetivo máximo dessa técnica é inculcar no praticante quatro convicções básicas: 1ª. Palavras que consolam. Não vale mais. Mas consolam só quando não lhes prestamos muita atenção. Mas o que recebe costumeiramente o nome de “ética de Epicuro” é a parte prática. os falecidos devem estar todos materialmente instalados em algum materialíssimo mundo. 3ª. vai aos poucos substituindo as sensações dolorosas da vida presente pelas recordações agradáveis do passado até fazer com que o passado se torne presente e o presente desapareça sob a imagem do passado. Mas o Tetrafármacon não é de maneira alguma uma ética. ou melhor. é fácil suportar o mal. 31 O nome Tetrafármacon. numa disciplina. é fácil alcançar o bem. 2ª. Dentre as recordações agradáveis. ou Tetrafármacon. não é nem um pouco menos encrencada do que a sua cosmologia. e. parentesco que Pessanha — sem dar nome aos bois — mencionou de passagem. uma técnica para a conquista da felicidade. e no qual Pessanha sugeriu que o povo brasileiro fosse buscar inspiração para sair da miséria moral 31. supramundo ou submundo. destacam-se as da conversação filosófica com os amigos na paz do jardim: o conteúdo da conversação exerce efeito calmante. outra especial ou prática. sem contar a lista interminável de exercícios orientais e pseudo-orientais que o movimento da New Age espalhou da Califórnia para o mundo. a Programação Neurolingüística de Bandler e Grinder 32. numa ginástica interior. intermundo. aos socráticos menores.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 45 CAPÍTULO III. que indesculpavelmente me omiti de explicar na primeira edição deste livro. o Silva Mind Control.

por trás de tanta absurdidade. sem escapatória. A pergunta é: como pôde essa filosofia necrófila. onde galáxias e amebas. esta meditação leva-o à conclusão inelutável de que o único alívio possível é a morte.46 OLAVO DE CARVALHO portanto. e estas ingressarão na vida presente como um objeto que. É um caos. o homem encontra o caminho da meditação filosófica que deve libertá-lo. A cosmologia de Epicuro é. uma segunda intenção? Haveria nessa loucura um método? Não se esconderia por trás do besteirol epicúreo um segredo temível? Essas perguntas não têm resposta nas teorias do epicurismo. não há possibilidade de realizar planos. fugindo da dor. não poderia deixar de perceber sua inconsistência. § 9. O mesmo aplica-se às recordações: se produzidas com intensidade suficiente. atual e materialmente. no fundo. buscando o prazer. A hipótese de que Epicuro fosse apenas um incompetente. trarão de volta as coisas passadas. abdicando da busca insensata de prazeres que causam mais dores. bastará abrir um buraco no oco. partindo dos movimentos cegos dos átomos no vazio sem sentido. mais ficará persuadido de que aquilo que imaginou existe ou está entrando na existência nesse mesmo momento e é até mesmo “mais real” do que os objetos sensíveis presentes. Daí que. teremos de admitir que esses efeitos não ficarão mesmo confinados no corpo do indivíduo imaginante. condenada ao fracasso. ante o olhar indiferente dos deuses. em algum lugar do cosmos. mas o exercício desta liberdade choca-se contra o fatalismo da dor. O mundo da vida. na forma de corpos sutis. alcança sua finalidade na completa e definitiva aniquilação do homem. mas se expandirão pelo mundo em torno. o seguinte problema: se os objetos que aparecem na imaginação sempre existem tais e quais. que não escapa ao exame atento de um adulto letrado de inteligência mediana. Nesse mundo destituído de qualquer regularidade previsível. um tal amálgama de contradições. Mas há duas outras questões ainda mais perturbadoras: 1. e pelos buracos o meditante poderá saltar para o passado ou para o futuro com a maior facilidade e sem precisar de nenhuma máquina do tempo. Talvez a encontrem na sua prática. e toda ação está. O cosmos de Epicuro não é um cosmos. um tipo de fatalidade. essa afirmação contraria os princípios fundamentais da sua cosmologia. e. não alcancem um resultado melhor. Fecha-se assim o círculo da fatalidade. num universo absolutamente trágico onde átomos e homens vagam a esmo de erro em erro e de sofrimento em sofrimento. então o esforço de enxergá-los cada vez mais nítidos com os olhos da fantasia até que se superponham às impressões do presente deve necessariamente produzir efeitos físicos. um sonso. denso e contínuo. que. jogado num tanque. quanto mais avance na prática da meditação epicúrea. átomos e homens só encontrem cada vez mais dor. ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos. abre espaço empurrando a água para os lados. Teria ele. essa macabra celebração do nada. desde logo. para que a coisa esquecida não apenas volte à memória. Para sermos coerentes com a física de Epicuro. mundos e homens formam-se e desaparecem por acaso. ou um oco no buraco. o clinamen é. passar por uma mensagem de consolação e atrair para o jardim de Epicuro milhares de infelizes em busca de alívio? Que consolo podiam encontrar no jardim sabendo que ele é a entrada do cemitério e que depois do cemitério há somente o cemitério maior do esquecimento cósmico? Que atrativo enxergavam nessa promessa digna de Jim Jones? 2. conhecedor aliás da lógica de Aristóteles. seguida de total e eterno esquecimento. Assim. que para o comum dos mortais é uno. como se viu. se tornará para o meditante epicúreo uma superfície esburacada. o discípulo. O clinamen é apresentado como um movimento livre. que Epicuro afirma a completa extinção do ser humano após a morte física. que um filósofo de ofício. fazendo brotar seres e coisas que se materializarão. E quando. E quando ele eventualmente se lembrar de que antes se lembrava de alguma coisa da qual agora não se lembra mais. A abolição da consciência A prática do Tetrafármacon cria. finalmente. um inconsciente. antecipadamente. mas aconteça de novo de manei- . me parece inverossímil.

Neste momento. Se minha percepção está limitada ao lugar do espaço onde me encontro. aquilo que se passará amanhã não pode ser agora percebido como fato. É um wishful thinking potencializado. para Machu-Pichu ou para Winnesburg. Que um sujeito treinado nessa regra possa chegar a admitir como santas verdades os mais patentes absurdos da física epicúrea. A ginástica cronológica de Epicuro. hoje só pode ser produzido desde dentro. verei diante de mim o mesmo teclado e a mesma tela. . em contrapartida. É uma física para hipnotizados. do que quer que consiga imaginar com suficiente nitidez: os futuros contingentes. Do mesmo modo. verá outras coisas e já não estas. vividas como um dom gratuito da realidade aos nossos sentidos. elevado a sistema e regra de vida. O espaço ainda pode ser parcialmente vencido pelo deslocamento do corpo. na língua que o povo gaiato atribuiu ao ex-presidente Jânio Quadros: fi-lo porque qui-lo. ao contrário. é algo que finalmente encontra aqui sua explicação: não é a ética de Epicuro que deriva logicamente da sua física. mas. como conjetura esperançosa ou temerosa. vindo de fora. e assim por diante. enquanto estiver sentado aqui. já não pode desacontecer. para ver que tipo de conduta moral pode resultar dela. mais fortemente ainda está presa a um determinado momento do tempo. corresponde à diferença entre o efetivo e o possível. Ohio. acabará por abolir no discípulo a intuição dessa diferença. por exemplo. que não se dobra imediatamente ao meu arbítrio com a plasticidade do imaginário. O presente. Esta diferença é que me dá a medida do real: admito como efetivo. tantas vezes quantas abra os olhos. Meu olhar está limitado pelo que o mundo me oferece. essa cosmologia de queijo suíço parece O Exterminador do Futuro ou Alice no País do Espelho. Elas poderiam ser outras. bastando que eu quisesse mudar o foco da minha atenção para outro assunto. Se escrevo estas palavras e não outras. EUA. em lógica. Isto mostrará em que consiste realmente a ética de Epicuro. Exposta assim. em suma — de que as coisas venham a se passar de outro modo. As cenas deleitosas de outrora. como giro num instante a tela do pensamento e troco de palavras. como objetivamente existente. se podia ser de outro modo um instante atrás. e não sem algum esforço. Não posso fazer com que meus olhos vejam outra coisa senão o que está na frente deles. tendo acontecido. como queiram. virá sempre acompanhado do temor ou do desejo — da possibilidade. posso assegurar. por um ato de vontade que resolva sair em busca do tempo perdido com o empenho reconstrutivo de um Proust. num espelhismo sem fim de tempos dentro de tempos e de hiatos dentro de hiatos. se praticada com persistência. Existir é resistir. noutro lugar. Mas. ao passo que minha imaginação não conhece outros limites senão os seus próprios. por trás de todo o tecido de alegações beatas que lhe serve de embalagem. que. ou para trás. são então vivenciados como se fossem objetos de experiência concreta. meras possibilidades lógicas só concebíveis a título de construções abstratas. já não o pode agora: está fixado para sempre. agora só podem ser re-vividas como obra nossa. Mas o tempo é invencível. e conforme seja bom ou mau.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 47 ra ainda mais realística do que na primeira vez. atual. a prática da sua ética é que é uma condição prévia para que alguém possa chegar a acreditar na sua física. re-produzido na imaginação. Acontece que a distinção que o cérebro humano faz entre as sensações presentes e as imaginadas é aquela que. que se impõem à minha visão como dados de um mundo que não fiz e que vem pronto ao meu encontro. levando-o a acreditar na realidade efetiva. Não posso girá-los daqui para Porto Alegre. um mundo que me resiste. Vale a pena examinar o lado psicológico dessa inversão. digito no teclado do computador as palavras que me brotam de dentro. O que ontem me sensibilizou a retina. Mas os resultados da brincadeira são graves. dizia Dilthey. um anúncio não terá nunca a presença maciça do fato consumado. Fazemos esta distinção comparando aquilo que pensamos e imaginamos por vontade própria com os dados que nos são impostos pela situação presente. Por mais certo e fatal que se anuncie o futuro. O que chamamos senso do real funda-se na distinção do efetivo e do possível. mas somente concebido e projetado desde dentro.

ativos. nossos atos interiores não têm outra testemunha senão nós mesmos. perceba a falsidade da intenção que alego poderá provar por testemunho direto aquela que oculto. Mas o desejo de assumir a autoria de seus atos interiores — ou mesmo exteriores — não é inato no homem. A autoconsciência não nasce pronta. mas mesmo a verdade conhecida não pode ser obedecida de uma vez para sempre. A objetividade do conhecimento é função da liberdade moral. diferenciando-a das nossas projeções subjetivas. 1973. trad. Pretender que a autoconsciência seja mera introjeção de papéis sociais é retornar à velha lenda lockiana da tábua rasa. entre a autoria e a culpa. 34 . Só eu conheço por testemunho direto meus pensamentos e intenções. como pretendem alguns psicólogos e cientistas sociais. só pode conhecer a verdade quem esteja livre para negá-la. Ortega y Gasset. no outro soberana. portanto. a criança aceita esta limitação por conta da autoridade do pai. e as culpas aos castigos. mas é uma aspiração utópica e autocontraditória: se a percepção da verdade nasce da liberdade. mediante um suicídio preventivo da liberdade. e se assumo a autoria desses atos interiores como assumo a de minhas ações materiais e externas. a criança atribui a responsabilidade de seus feitos a um irmãozinho. É só assim que posso captar a diferença ente o que brota de mim e o que me vem do mundo. em que o homem assume — ou não assume — um compromisso interior com a verdade e a coerência. “Verdade conhecida é verdade obedecida”. O compromisso com a verdade. A possibilidade do conhecimento objetivo depende portanto de uma opção preliminar. Mas só posso fazer esta comparação se me lembro claramente de haver pensado ou imaginado tais ou quais coisas por vontade própria. e não toma consciência de que mente senão pelo olhar severo do pai que a faz descer do céu da imaginação para cravá-la no chão terrestre onde as causas se atam inapelavelmente às conseqüênV. Princípios de Psicologia Topológica. Há sempre muiÉ evidente que isto não significa em hipótese alguma uma redução da autoconsciência ao efeito de uma “introjeção de papéis sociais”. que no adulto seria cinismo. ninguém pode me impedir de fazê-lo: nem mesmo quem. Scheler. podem continuar vagando à margem de toda obrigação de veracidade. No desenvolvimento da autoconsciência. jamais causas produtoras de uma criação ex nihilo.48 OLAVO DE CARVALHO É apreendendo os limites do meu poder — daquilo que Kurt Levin chamava espaço vital 33— que chego a distinguir o real do irreal. criadores de seus atos como de suas intenções. que será a base não somente da conduta moral. Nada pode obrigá-lo a este compromisso. a um colega ou a seres imaginários. que a distinção entre o fato percebido e a possibilidade imaginada se faz por referência à vontade. Os filósofos gostariam que todos os homens fossem dóceis à verdade. Ora. pp. na memória e na responsabilidade. mas é uma fortíssima predisposição. A verdade é aceita assim como um valor moral antes mesmo de se firmar como um critério cognitivo 34. exatamente pelos mesmos meios e na mesma medida em que tomamos consciência de nós mesmos como sujeitos livres. — Não é uma ironia que esse termo técnico inventado por um eminente psicólogo judeu tenha se tornado um slogan nazista? 33 cias. ainda que assumido de coração. por sinais exteriores. A admissão da verdade sobre si mesmo precede a admissão da verdade sobre as coisas. Éric Weil. “A autoconsciência é a terra natal da verdade”. Álvaro Cabral. Tomamos consciência da realidade objetiva. dizia Hegel. Kurt Levin. Cultrix. e é assim que se desenvolve nela a autoconsciência. o efetivo do meramente possível. 29 ss. Se decido mentir sobre o que se passa dentro de mim. portanto. desde dentro. de Platão e Aristóteles até Kant. O senso da diferença entre o imaginado e o percebido repousa. A opção pela verdade deve ser refeita diariamente. O testemunho sincero de si para si é a primeira e indispensável condição do conhecimento objetivo. Com inocente desenvoltura. mas da objetividade no conhecimento. São Paulo. mas depois aprende a estabelecer por si a conexão entre o antes e o depois. como a imaginação ou determinados sentimentos. A facilidade com que os seres humanos se livram dele sempre chocou os filósofos. dizia Platão. jamais obriga o homem todo: continentes inteiros da alma. Inicialmente. que se manifesta inicialmente sob a forma passiva da imitação e da obediência — assim como a capacidade de caminhar por si próprio se exerce de início sob a forma passiva do ser levado para cá e para lá pelas mãos dos adultos. e atendendo apenas aos apetites imediatos. que nos garanta contra as futuras tentações do erro e da mentira. entre a intenção e o ato. Compreendo. que é súdita num caso. entre as hesitações e dúvidas que constituem o preço da dignidade humana. que os circunstantes não podem senão conjeturar por analogia. a imitação e a introjeção são apenas ocasião e instrumento da manifestação de uma capacidade preexistente.

o conceito esvaziado não tem mais função. ele não suportará ser o único a sentir como sente. Nessas horas. é morrer um pouco. Invariavelmente.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 49 tos meios de fugir da verdade. ocultando a mentira inicial sob montanhas de entulhos só para depois alguém ter de pagar a um psicanalista para removê-los. produzindo tantas ficções quantas forem necessárias para conservar o indivíduo num estado de profunda sonolência moral. mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. por sua vez. Como a inteligência humana não opera no vazio. É a coisificação da verdade. até mesmo sem sentir raiva. que dispense a autoconsciência. somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauperamento interior e sair em busca do sentimento perdido. são um tecido de eufemismos que pode servir para amortecer ou desviar o impacto das verdades indesejáveis. foi exposto com mais detalhes no meu curso de Ética ( Casa de Cultura Laura Alvim. logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. que vão desde as “racionalizações” corriqueiras com que na vida diária nos furtamos ao apelo de pequenos deveres. num programa que se automultiplica. No homem sem maiores interesses morais. a imaginação torna-se a serva prestativa do interesse orgânico imediato. o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata. resolve matar dois transeuntes a tiros. O entorpecimento da consciência tem graus e etapas. o conceito dessa coisa. Sua . sem o sacrifício ao menos temporário da harmonia interior em vista de valores que transcendem os interesses imediatos do organismo psicofísico. A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. e pode até continuar a obedecê-las exteriormente por mero hábito. — O conceito acima resumido da autoconsciência como fundamento da moral. Um dia o sujeito caminha pela praia e. apagar as pistas do embuste. A melhor definição de neurose que conheço é do meu falecido amigo e mestre Juan Alfredo César Müller. ele não as vê senão como convenções mecânicas. cujas transcrições corrigidas formarão um volume a ser publicado com o título Sobre os Fundamentos da Moral. Uma vez afrouxadas porém as demandas da autoconsciência. dizia ele. agosto-outubro de 1994 ). Embora conheça perfeitamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos. a responsabilidade e a sinceridade como adornos subjetivos. ao menos no instante decisivo em que uma verdade intolerável se abre diante dele como um abismo. Os sonhos. Mas. uma tábua de regrinhas prontas de aplicação mais ou menos uniforme e mecânica. neurose é esquecer o esquecimento. 35 Temível sinal de derrocada intelectual do homem moderno é que nossa ciência pretenda assentar-se num critério de veracidade e objetividade que seja apenas um código público. Isso quer dizer. O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. Neurose. “Ser objetivo. um gênio da psicologia clínica. Sinceridade e objetividade. Até o fim ele não compreende a revolta e a indignação que seu crime desperta. nem conhecimento objetivo. formam um nexo indissolúvel com a responsabilidade: as três condições que perfazem a autoconsciência moral 35.” Objetividade é sinceridade projetada no exterior. Albert Camus dá em l’Étranger o retrato do tipo cuja mediocridade pacata esconde a mais absoluta insensibilidade moral. que não há consciência moral. sem algum sofrimento psíquico voluntário. até a completa inversão. e continuará assim até que a conjunção da necessidade com a oportunidade o transforme de vez no criminoso que sempre foi. no qual ele não tenha de responder pelos seus atos. dizia Frithjof Schuon. assim como sinceridade é introjeção dos limites objetivos. criará argumentos para demonstrar que aquilo que ele não sente inexiste no mundo objetivo. quando um homem já não sente a realidade de alguma coisa. para dar vida nova ao conceito. ajudando a manter o organismo psicofísico naquele estado de ausência de tensões que os médicos denominam homeostase. por exemplo. Se mentir para si é esquecer a verdade. é natural que. se esse homem for um letrado. é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita. É claro que em grande número de casos esse arranjo oportunista acaba produzindo uma neurose. a mentira transforma-se num sistema. Rio de Janeiro. Na neurose. Mentir alivia porque economiza à psique o esforço de suportar um desequilíbrio temporário. Mas ninguém ficaria neurótico se a opção neurótica não lhe parecesse vantajosa. mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível. sem qualquer motivo. e da moral como fundamento da objetividade cognoscitiva — inclusive nas ciências —. em suma. e será simplesmente esquecido.

é forçoso admitir que algo. agindo sobre essas pessoas. metidos em hábitos de carmelitas e caricaturando da maneira mais aviltante as freiras católicas. não são tão diferentes umas das outras. Completa-se assim a inversão: as paixões mais baixas e vulgares ergueram-se ao estatuto de mandamentos divinos. moldados pela cultura de massas. na escala da humanidade. Quando hoje vemos hordas de intelectuais ativistas lutando para que o aborto se torne um direito inviolável. que. as novas éticas nascidas do embotamento moral não consistirão em outra coisa senão num sistema de racionalizações que transformará esses três desejos em hipóstases de valores morais universais e em fundamentos máximos de toda conduta eticamente válida. que recebem o nome técnico de personalidades psicopáticas ou de sociopatas. A comparação faz ressaltar a . se condensam todos no triângulo áureo sexo-dinheiro-fama. afetadas de taras congênitas. que não consistirá em outra coisa senão na ampliação universalizante dos gostos perversos de um indivíduo. se não existisse esta possibilidade. Excluo. e. ele cairá na tentação de argumentar a favor delas. anuncia o começo da demolição da espécie humana 36. e por isto o filósofo moral improvisado logo terá o grato prazer de descobrir que suas idéias são compartilhadas por milhões de pessoas iguais a ele. quando não à execração pública ou a penalidades legais. para que a interferência dos pais na educação sexual dos jovens se limite à instrução quanto ao uso de camisinhas. Num mesmo dia. Não é possível que o conjunto dos militantes radicais do mundo se componha de uma maioria de personalidades psicopáticas. e a deformidade da sua psique será erigida em padrão de medida moral para toda a humanidade. outras tantas filosofias morais coincidentes. é claro. criará um novo critério de moralidade. 36 37 V. muitas das quais já vinham produzindo. chegou a ser diagnosticada por Konrad Lorenz como uma forma de degenerescência biológica. Não podendo suportar indefinidamente a insegurança de admitir que esses juízos são meras preferências subjetivas. apagando da memória humana registros de valores aprendidos ao longo da evolução animal. com os mesmos fins. não melhores ou piores do que quaisquer outras. Konrad Lorenz. diria Lorenz. O que desejo perguntar é como ele se produz num indivíduo em particular. Mas sondar as causas primeiras desse fenômeno. O embotamento completo da intuição moral. Aí ele encontrará o argumento decisivo a favor do seu sistema: o argumento do número. A linguagem abstrata da filosofia moral terá se tornado uma arma a serviço de fins egoístas.50 OLAVO DE CARVALHO incapacidade para discernir o bem e o mal exceto como convenções vazias será usada como “prova” de que toda lei moral é uma convenção vazia. Mas um homem não vive muito tempo em estado de abstinência moral. Mas como os desejos da multidão. para que a Igreja abençoe a prática da sodomia e castigue quem fale contra. repugnâncias e desejos. destruiu nelas a intuição moral elementar. vi na TV o líder gay Luiz Mott apelando a um determinado comediante do SBT para que deixasse de ridicularizar a classe dos homossexuais com suas paródias grotescas. de um ego inflado que remoldará o mundo à sua imagem e semelhança. As aspirações subjetivas dos indivíduos. porém. não é meu intuito. farão brotar outros tantos correspondentes juízos morais elaborados racionalmente. substituída por uma retórica sofística de um artificialismo alucinante. que. os casos de psicopatia congênita. ele continuará a ter ódios e afeições. alguma interferência externa apagou de seus cérebros os registros da experiência moral acumulada ao longo da evolução biológica 37. de lhes dar uma expressão e fundamento intelectual. que. e logo em seguida um grupo de marmanjos afrescalhados do grupo denominado As Noviças Rebeldes. cuja violação sujeita o homem a padecimentos interiores. A Demolição do Homem. ao fazê-lo. sobretudo na época de cultura de massas que padroniza os desejos da multidão. Após ter solapado as bases de todo critério moral objetivo. O que me intriga é: como um homem de personalidade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idêntico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perversidade moral? Pois é óbvio que. na esfera intelectual. Seu sistema pessoal de racionalizações será enobrecido e investido de validade universal como expressão das “aspirações da nossa época”. para que manifestações de antipatia a qualquer perversão sexual sejam punidas como delitos. determinados movimentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátricos e jamais passariam de clubes de excêntricos.

influência subliminar. É impossível imaginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses 39. muito pertinente. 1962. 1980. 38 . Geiser. em muitos países do mundo. Esses conhecimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas. Sem ela. empresas e sindicatos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. Paul M. São Paulo. ao menos implicitamente. Heitor Ferreira da Costa. na produção da história contemporânea. Áurea Weissenberg. 1980. do V. faz dele um UFO axiológico. trad. A Doutrinação. 42 V. partidos políticos. é o que se denomina uma técnica. e Olivier Reboul. trad. Essa escala é incomensurável com qualquer tábua de princípios éticos já conhecida neste mundo: a adesão a ela torna um sujeito inacessível à argumentação racional. Elas foram seguramente mais decisivas. Zahar. A. então só pode ser uma ação humana premeditada. estimulação por feromônios. Linebarger. Lippincott. o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorganizavam a sociedade civil 40. 39 V. massas a uma nova patologia que recebeu a denominação. para as mais variadas finalidades. Rio. organizações religiosas e pseudo-religiosas. trad. em Diagnóstico do Nosso Tempo. ou de um conjunto de técnicas. trad. para consulta de raros pesquisadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática. Modificação do Comportamento e Sociedade Controlada. 1989. Rio. O rol das técnicas que o século XX concebeu para esse fim é de fazer inveja aos cientistas de outros ramos: reflexos condicionados. 40 V. 1961. retira-o do debate civilizatório. nada teria podido acontecer como aconteceu. 41 V. trad. Octávio Alves Velho. estranho aos sentimentos comuns da espécie humana. realizada segundo uma conexão racional de causas e efeitos. controle do imaginário. Não há neste mundo um só movimento de massas. enfim. engenharia comportamental. Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personality Changes. Merloo. espero eu ) se inspira a militância gay. um só Estado nacional. Guerra Psicológica. Não há disputa política. qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o uso da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jovem de todos os países. Ed. para moldar a personalidade de seus membros de acordo com os fins da organização. informação dirigida. Nacional. Essa técnica existe. Com alarmante freqüência. propaganda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles. como teriam se desenrolado os dois conflitos mundiais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica 41. Eugênia Moraes Andrade e Raul de Moraes. A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a onipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. Zahar. Karl Mannheim. Programação Neurolingüística. a amoldagem passa pelo embotamento maior ou menor do senso moral e da consciência intelectual. Cia. Biblioteca do Exército. M. Octávio Alves Velho. “Estratégia do Grupo Nazista”. que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as escala de valores em que por vezes ( não sempre. Lorenz tinha razão. lavagem cerebral. Lavagem Cerebral. Aliás existem muitas. do panorama histórico do século XX as técnicas de manipulação da mente. Flo Conway and Jim Siegelman. Joost A. mais respeitável do que uma devoção religiosa. A ação humana premeditada. campanha publicitária. submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante. onde o desejo de um determinado tipo de prazer físico acaba por se tornar. de psicose informática 38. New York. os grandes movimentos de massa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. uma só empresa de grande porte que não disponha de uma técnica. guerra psicológica. Menticídio: O Rapto do Espírito. Robert L. Se retirássemos. a lista não tem mais fim. Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que governos. O domador de homens tem hoje à sua disposição um arsenal de recursos mais vasto e eficaz que o dos técnicos de qualquer outro campo de atividade. Ibrasa. Rio. São Paulo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 51 Se esse algo não é nem a hereditariedade nem aquela conjunção fortuita de circunstâncias traumáticas que podem produzir uma personalidade psicopática. que fim teriam levado as organizações esotéricas e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo. hipnose instantânea. o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitalistas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre populações que não têm disto a menor suspeita 42. 1977.

1971. este foi o século da escravização mental. seria concebível que populações submetidas incessantemente a esse massacre psicológico pudessem conservar intactas por muito tempo as faculdades intuitivas e valorativas em cuja perda Lorenz enxerga o começo da demolição da espécie humana? Não é antes mais provável que a humanidade assim manipulada. Historia Universal de las Sectas y Sociedades Secretas. trad. a importância da “técnica” entre as causas do devir histórico. Neste novo panorama. e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las. É neste contexto que se deve compreender o apelo ao resgate do epicurismo. Ora. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso tempo. porém. então se verá que nenhum outro fenômeno o define e o singulariza tão bem quanto esse. Bruguera. especialmente. ludibriada vinte e quatro horas por dia acabe por entrar num estado crônico de auto-engano? Um dos poucos historiadores que levaram a sério este fenômeno de seriedade trágica denunciava. Quando se escrever. incluindo a bomba atômica e os computadores. I. Os poucos que se interessaram pelo domínio da mente foram desviados em seus esforços por uma visão preconceituosamente seletiva. todas as idéias e concepções mais francamente errôneas. Barcelona. de Michel Foucault. p. mais que o século da física atômica. disformes e fracassadas que os séculos e os milênios anteriores rejeitaram saem do fundo do lixo do esquecimento para constituir os pilares de um culto universal do engano. . não concebem sob esse nome senão aquilo que se materialize em algum tipo de aparelho ou máquina. mórbidas. a civilização do Anticristo. mais que o século da informática. em 1969. “o advento de um sistema político baseado na impostura em grau muito maior do que todos os que existiram até o momento” 44. estonteada. cresce hoje em todo o mundo uma espécie de anticivilizaÉ o caso. ou pelo menos num esquema de ação mais ou menos patente. mas. 525. que só destacava algumas formas de dominação à custa de ocultar outras maiores e piores 43. presos a uma noção grosseira e coisista do que seja uma técnica. vol. o Papa João Paulo II finalmente reconheceu em 1994 que. Baldomero Porta. Jean-Charles Pichon. Mais que o século das ideologias. sob as aparências de continuidade daquilo a que a humanidade chamava civilização. 44 43 ção. é claro.52 OLAVO DE CARVALHO que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios. Eles sabem. com suficiente visão de conjunto a história da pesquisa e do uso das técnicas de manipulação da mente no século XX. da antipsiquiatria e da dupla Deleuze-Guattari. Com o atraso proverbial que marca os pronunciamentos da Igreja Católica.

raciocina. prováveis ou improváveis. no qual o praticante. a beleza e a pompa. Servem para exemplificar e comunicar idéias. Quanto mais profundo o transe hipnótico. em última análise. mas não sabe distinguir se viu uma vaca ou imaginou uma vaca. Ele fala. A fumaça e o fogo “A divisão entre Sócrates e Protágoras sobrevive intacta. eles nunca chegavam à última análise. todas elas. São. que a lógica tradicional e moderna chama de abdutivos. retornando sobre os conteúdos da representação. 20 de junho de 1995. o que vale é o autoconhecimento. ora “místicos”. mas até quando?” 45 FRANÇOISE HUET As práticas psicológicas que mencionei no parágrafo anterior. a maioria das funções psíquicas continua operando normalmente. infinitamente variadas na sua linguagem e nos pretextos. Pois. têm uma coisa em comum. a que apelam para justificar-se. fazendo deles o supremo critério do conhecimento. reprimindo a exigência de confrontá-las umas com as outras para formar uma concepção global coerente e hierarquizada como aquela que nos orienta na vida de vigília. para o segundo é o discurso. O conceptus e a imago. Jornal da Tarde. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que. até que se chegue à completa despersonalização. deprime progressivamente seu sentimento do tempo. fora de qualquer dúvida. 45 Declaração a Luís Carlos Lisboa. enfim. É evidente que o segundo ainda é dominante. mais e mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo. No homem hipnotizado. formas e variantes de uma mesma técnica: a hipnose.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 53 CAPÍTULO IV. verdadeiros ou falsos. Tais raciocínios. lembra-se? Para o primeiro. está pronto para acreditar em todas as absurdidades da física de Epicuro tão logo possa enxergá-las na tela da fantasia. Aí a mera sugestão verbal de um cigarro aceso bastará para produzir queimaduras reais na mão do hipnotizado: as células da pele reagem à estimulação verbal como reagiriam ao calor de uma brasa. a exposição. os julga como efetivos ou possíveis. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distinguir entre imagens. O Tetrafármacon é. sabe distingui-la de um porco. ora “científicos”. por meio de exercícios. Tendo diante da retina a figura de uma vaca. LÓGICA DE EPICURO § 10. recorda e sente como se estivesse desperto. Quando ouve do hipnotizador a ordem: “Tome um copo de água”. não para prová-las. mas a interpreta como se fosse um desejo brotado de dentro. É assim também que podemos compreender como estes discípulos não se deram conta de que o epicurismo. nada lhes oferecia senão uma apologia da morte. que Epicuro opõe à lógica dos conceitos (que ele conhecia através de Aristóteles). desviados para os meandros sem fim da fantasia imaginativa. mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens. tenham podido ser aceitas por uma multidão de crédulos discípulos. com a ajuda da qual se pode provar literalmente qual- . verossímeis ou inverossímeis. são abundantemente usados na vida diária. toma sistematicamente a mera possibilidade como realidade efetiva e. aprende a confiar mais na visualização imaginária do que no juízo reflexivo. É assim que se explica que as concepções físicas de Epicuro. um método hipnótico. sistematiza os raciocínios do tipo “onde há fumaça. mas qualquer principiante de filosofia sabe que o valor deles é apenas retórico e persuasivo. há fogo”. São Paulo. A lógica dos sinais ou lógica das aparências. tão manifestante insustentáveis. Mas Epicuro não se limitou a praticar e ensinar a disciplina da ilusão: ele desenvolveu mesmo todo um sistema lógico para sustentá-la. compreende o sentido da ordem. O fato mesmo de que Epicuro tenha se servido deles para sustentar as teorias de sua física alucinada é sinal de que são uma bonne à tout faire.

Eu também não o sei. 47 Epicuro. se a fumaça prova a presença do fogo. e não provar. Um silogismo com premissa oculta chama-se. canhestro. Dito de outro modo. se apareceu uma queimadura na mão. em retórica. La Nouvelle Rhétorique. 1986. Carta a Heródoto. em última instância. teria se recusado a ensinar retórica a José Américo Motta Pessanha. O embotamento proposital da inteligência. ele não deixava de ser também aplicado aluno de Perelman.54 OLAVO DE CARVALHO quer coisa. pensaria de tudo isso. Unlimited Power 49. só cita Epicuro uma única vez. os de Lair Ribeiro. afastando a hipótese de uma causa divina. Podemos inclusive aceitar simultaneamente várias explicações contraditórias. mas é a Programação Neurolingüística (PNL).” 46 Fiel a este princípio. A destreza com que Pes46 Diógenes Laércio. pois. Mas ele também não disse o que Perelman. Perelman et L. No trecho citado. 49 New York. Traité de l’Argumentation. ao dizer que “alguns psicoterapeutas de hoje” não vêem mais nada a fazer pelo homem sofredor do que induzi-lo a representar seus sofrimentos em imagens. sanha manejou esse e outros entimemas na sua conferência do MASP mostrou que. § 11. como por exemplo no caso de um judeu que defendesse o nazismo. ele afirmava que a veracidade das explicações é indiferente: o que importa é o seu efeito calmante. eles descobriram que o wishful thinking funciona. Simon & Schuster. aplaque o temor ou a esperança de uma vida futura. a tese segundo a qual os pais devem deixar os filhos ao abandono. o homem do jardim sustenta. X. mas não esclareceu que ela é apenas uma retórica. Pessanha não deixou de aludir a uma delas. a lógica dos sinais pode muito bem dar foros de pura veracidade metafísica às impressões de um sujeito hipnotizado. . e sim somente à produção de consolações fictícias. quanto mais não a provaria uma queimadura viva! Mas não é preciso muito esforço para provar que a lógica de Epicuro não se destina à busca da verdade. levante as velas o mais rápido possível. Nas mãos de um técnico habilidoso. Éditions de l’Université de Bruxelles. Que técnica é essa? Pessanha não deu o nome. um entimema. em compensação de seu acanhado poder investigativo. ardoroso discípulo de Epicuro. se isto de algum modo nos tranqüiliza. O convite ao sono É verdade que as técnicas modernas de manipulação da psique põem o Tetrafármacon no chinelo. não explicou as diferenças entre lógica e retórica. 78-80. e em seguida. no Brasil. p. por exemplo que o ano de 1991 durou somente um mês ou que os buracos de um queijo suíço pesam 3 kg. 276. contanto que. em Ch. Perelman reproduz em seguida o argumento que a isto opôs o filósofo estóico Epicteto: “Se teu pai e tua mãe soubessem que virias a dizer essas coisas. reduzindo os mistérios do universo à proporção de nossa experiência mais banal 47. a redução banalizante da totalidade do real à escala de sensações imediatas como comichões ou borborigmos. Olbrechts-Tyteca. Ela tem Cit. § 6. certamente haveriam te abandonado. e como autor de um raciocínio do tipo autofágico. nem muito menos declarou a premissa oculta de todo o seu discurso: a premissa segundo a qual o importante é persuadir. Bruxelles. aliviar o sofrimento. 1970. pois quem o declara é o próprio Epicuro: “Para fugir do saber — recomendava ele a um discípulo —. se vivo e ali presente. uma acentuada virtude soporífera. Epicuro tinha razão. que se volta contra a pessoa mesma de seu autor. certamente esta foi tocada por uma brasa de cigarro. eis a essência de uma lógica à qual não falta. Mas sei que Perelman. que. Assim denomina-se em retórica um argumento desastroso. e. melhorando as imagens. no seu clássico Tratado da Argumentação.” 48 Se Perelman soubesse a que fins acabariam servindo os seus ensinamentos. 48 Pessanha fez muitos louvores à lógica de Epicuro. Mais precisamente: qualquer explicação é boa. popularizada em anos recentes por livros como o de Anthony Robbins. demonstrando que.

talvez em compensação. Paralítico. sem cujo auxílio a fala se mostrava impotente para atingir o íntimo das pessoas. utilizando-os. A eficácia da PNL confirma Epicuro. nas pessoas em torno. associações políticas. advogados desejosos de persuadir juizes a assinarem sentenças injustas. O programador neurolingüístico não perde tempo com argumentações.” Se explicitado. abrindo à psicoterapia as mais belas esperanças de cura para casos tidos por insolúveis. profundamente arraigados nos hábitos e con- venções da comunicação humana. se apoiava numa rede complexa de sinais não-verbais. sistematizaram a técnica da comunicação não-verbal e. transformaram-na em produto comercializável. codificaram todos os sinais. Mas Erickson. um meio de comunicação de uso corrente. batizando-a PNL (em inglês. ele conseguia comunicar-se com seus pacientes numa faixa que ia muito além do conteúdo verbal explícito. se a PNL confirma Epicuro e Epicuro antecipa a PNL. esse argumento não faria outra coisa senão desmoralizar. o quanto vale o epicurismo como fundamento teórico do que quer que seja. da teoria à sua prática: o epicurismo surge como raiz teórica da PNL. a técnica de induzir subliminarmente por sinais não-verbais tornou-se. Uma revista norte-americana chamou a PNL “a nova mania psicológica pop”. da direção do olhar.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 55 semelhanças e diferenças com o Tetrafármacon. Já vimos. há entre eles o nexo da premissa à conclusão. Pois. Eles estavam lá sempre. do tônus muscular. na esfera prática. é o que veremos. que lhe permitia captar. em muitas empresas. e a PNL como fruto materializado do epicurismo. em breve. nunca escreveu um livro nem se preocupou em sistematizar suas descobertas. da temperatura corporal. particularmente em tipos esquizóides com uma comunicação verbal deficiente. . políticos decididos a iludir seus eleitores. inteiramente automatizados e inconscientes. que estavam investigando psicologia da comunicação quando toparam com o fenômeno Erickson. Bandler e Grinder ganharam rios de dinheiro explorando as descobertas de Erickson. conseguiu romper a barreira de incomunicabilidade. NLP). mas ninguém reparava na sua presença. foi certamente com base num argumento subjacente que. Se a PNL pode. a coisa virou uma paixão nacional. ficavam subentendidos e acabavam por se tornar. A PNL surgiu da prática clínica de um dos grandes psicoterapeutas do século: Milton Erickson. ajudando ou atrapalhando a conversa. Epicuro e a PNL. não pôde enviar do intermundo qualquer sinal verbal ou não-verbal de uma justa indignação. Ele age direto no subconsciente do freguês. Este trabalho foi feito por dois pesquisadores. na prática. Interpretando esses sinais espontâneos. exposto com todas as letras. porém. Richard Bandler e John Grinder. Milhares de centros de treinamento espalharam-se de costa a costa — e. Bastava observá-lo em ação para notar que a comunicação verbal. maridos interessados em enganar suas mulheres etc. por intermédio de mensagens quase imperceptíveis. rezaria assim: “Num mundo caótico e sem sentido. Erickson desenvolveu. não resta mais nada a fazer senão tentar imaginar as coisas melhores do que são. Erickson era um clínico. Bandler e Grinder gravaram centenas de sessões psicoterapêuticas de Erickson (bem como de outros dois magos da clínica psicológica. sutilíssimas mudanças do tom de voz. Gregory Bateson e Virginia Satir). mas. a essa altura já falecido. onde o único destino que nos aguarda é a completa extinção e o eterno esquecimento. Só que na vida diária esses sinais. clubes. e com isto obtinha resultados espetaculares em doentes que haviam sido desenganados por outros psicoterapeutas. igrejas e lares. de um só golpe. se pôde servir a Pessanha como uma confirmação das teses epicúreas. um tipo prático. Mas não se restringiram a um público de psicoterapeutas. Erickson percebeu que o fracasso ou sucesso da comunicação pessoal dependia deles. mostrar o epicurismo sob uma face melhor. transformadas num receituário de maquiavelismo psicológico para uso popular. longe de constituir um todo autônomo. com o auxílio de um computador. introduzindo-as sutilmente no curso de uma conversa qualquer. uma acuidade sensitiva fora do normal. vendedores ansiosos de livrar-se de estoques encalhados. Desbravaram novos mercados: venderam a técnica para executivos que tencionavam persuadir seus chefes a lhes dar aumentos imerecidos. Nos EUA. etc.

A PNL funciona. a aprovar o que lhe repugna. não pode o ego tomar posição. Mas o problema é justamente esse. Os que se gabam de sólido materialismo pão-pão-queijo-queijo vêem-na como . toda influência subliminar consiste em abolir o domínio da vontade. mais aí já é tarde: uma palavra. junto com a moda da PNL. e subvertendo. dos profissionais de saúde. a PNL vem abrindo caminho desde então. para fazer eleitores votarem contra seus próprios interesses. O uso disseminado dessas técnicas arrisca minar todo o campo da convivência humana. Centenas de testes feitos em universidades norte-americanas. “The Awesome Power of the Mind-Probers”. julgar. conforme esses neomaquiavéis se unam para dominar o restante da população ou entrem em competição feroz uns com os outros. podem ter determinado conseqüências irreversíveis. precisamente. a fazer o que ele deseja que faça. Aqueles que se têm na conta de místicos enxergam nela uma via de acesso aos mistérios supremos. solidariedade. em geral. levar uma pessoa a fazer o que acha errado. tal e qual o burro da cenoura. a sociedade inteira estará à mercê de uma horda de manipuladores psicológicos. mudar imperceptivelmente o curso do raciocínio. sem que ninguém levante contra ela a menor suspeita. No Brasil. assume a culpa pelo mal que lhe fizeram. Não vá pensar o leitor que está diante de mais uma poção mágica. lenda que. nas mãos erradas. vai sendo levada a sentir o que o programador deseja que ela sinta. e pronto a justificar a posteriori a decisão imposta. mostraram isso. a técnica da PNL ameaça tornar-se uma temível ferramenta de manipulação pessoal e. se de um lado favorece muito a ação do hipnotizador. Como já em 1983 denunciava a revista Science Digest: “Posta no mercado. Universalizado esse costume. decidir. com a maior desenvoltura e cercada de aplausos. com isto. e o uso que faz deles é perfeitamente eficaz. sem apoio nos quais 50 Flo Conway and Jim Siegelman. Os norte-americanos — malgrado um certo embotamento mais recente. a comprar o que não quer. para levar investidores a queimar seus capitais em negócios ostensivamente inviáveis. Mas foi nos Estados Unidos. ansiosos de unlimited power e armados de um temível arsenal de meios para defraudar e colocar a seu serviço os outros homens. todos os padrões de sinceridade. a vítima pode se dar conta da insensatez. um perigoso instrumento de controle social” 50. com isto. assumindo-a como sua para restabelecer a ilusória integridade da sua auto-imagem. dos educadores. um homem está à mercê do que lhe sugiram. àquela altura. Assinalando o perigo. dos meios acadêmicos. segundo informava a mesma revista. Mãos erradas? Nos EUA. também uma onda de protestos e advertências que brotavam contra ela da imprensa.56 OLAVO DE CARVALHO A vítima. acreditando expressar seus sentimentos espontâneos. 1983. Os brasileiros estão absorvendo a PNL com o deslumbramento bisonho de um garoto que se sente muito lisonjeado ao ser admitido pela primeira vez numa roda de cocainômanos. cortando os laços entre a psique individual e os seus quadros de referência moral. Isto foi dez anos atrás. O uso habilidoso dos sinais não-verbais permite abrir hiatos na atenção consciente. inteiramente persuadida de exercer livremente o seu clinamen. Ninguém escapa aos encantos da nova técnica. de que tratarei nos capítulos finais deste livro — sabem precaver-se. com o mais rigoroso controle científico. Science Digest. a revista Science Digest noticiava. Isto desmente a consoladora lenda de que nenhuma hipnose ou manipulação subliminar pode induzir um homem a fazer o que é contra suas convicções. de outro lado omite o detalhe de que. levando a vítima a não se precaver contra um risco que supõe inexistir. e aí. Passadas algumas horas. querer ou desquerer: neutralizada a capacidade judicativa e decisória. de mais um charlatanismo inócuo. para persuadir juizes a absolver culpados e condenar inocentes. legitimando a manipulação subliminar como uma forma normal e corrente de cada homem lidar com o seu próximo. sem que ninguém sequer sugira a possibilidade de haver nela alguma coisa de errado. Os padrões de comunicação não-verbal que ela utiliza são reais. teremos ou mais a mais perfeita e indestrutível das tiranias ou a anarquia generalizada. sendo usada em toda parte para levar pessoas a venderem seus bens a preço vil. a PNL já estava. honestidade. uma assinatura. a patifaria universal. contra qualquer coisa que lhes pareça suprimir liberdades duramente conquistadas. maio. e. e assim por diante.

em vez de condená-los como anti-éticos e advertir contra o seu uso. de onde só sairá para mergulhar na terceira fase: no sono profundo. seja pela ambição de conquistar por sua vez o poder de manipular os outros. em vez de cair na rede da sua sedução e atrair o povo para mergulhar nela também. quando toma também as mentes dos intelectuais e a voz dos melhores já não se ergue senão para fazer coro à cantilena hipnótica. em doses crescentes. seitas pseudomísticas e empresas multinacionais investem quantias cada vez maiores na pesquisa desses assuntos. quando não ganham nada. mediante um reflexo anestésico. Quando não é recebida como uma mensagem salvadora. mas uma reportagem: informava. e. a PNL vai entrando.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 57 um instrumento de poder e ascensão social. Que. protegida pela sonsice dos crentes e pela indiferença blasée dos descrentes. que previa o advento de uma ordem social robotizada. é verdade. eles primeiro enlouquecem. tanto melhor: isto confirma a eficácia da nova técnica. vai invadindo todos os setores da atividade pública e privada e inoculando ali. a do mero adormecimento. § 12. assinalam o torpor da vítima que. Se alguém percebe vagamente que está sendo manipulado pelas costas. precisão e eficiência. vai ganhando força. sem sonhos. Um filósofo deveria ser o primeiro a advertir contra ele. nos anos 70. Os neuróticos pedem-lhe um meio rápido de obter alívio e os psicoterapeutas uma receita rápida para operar curas espetaculares. onde os homens seriam reduzidos à escravidão por meio de técnicas hipnóticas. o resultado é que o domínio dos meios de escravizar a mente do povo cresce na razão inversa dos meios que ele possa ter para defender-se. para se entregar inerme e semidesmaiada nas mãos do carrasco. E não aceita mesmo: quase todo mundo opõe uma obstinada má vontade a ouvir o que alguém possa ter a lhe dizer a esse respeito. A advertência. que as técnicas anunciadas no livro anterior já estavam prontas e em vias de aplicação para fins políticos. No completo esquecimento. o vírus da manipulação subliminar. os governos. em alcance. Todos confiam que ali só têm a ganhar. arriscaria cair em ouvidos moucos. para cair de cheio na esfera do sonho. Assim. de outro lado. . não faz mal: a PNL tem meios de tornar o prejuízo uma experiência gratificante. A incapacidade de um povo para perceber os perigos que o ameaçam é um dos sinais mais fortes da depressão autodestrutiva que prenuncia as grandes derrotas sociais. à servidão voluntária. a concentração das atenções em assuntos secundários acompanhada de total negligência ante os temas essenciais e urgentes. a humanidade já estava com um pé dentro do Admirável Mundo Novo. Quando. A primeira dessas obras era uma ficção científica. ela é ignorada como um charlatanismo inócuo. então se apaga a última esperança de um redespertar da consciência. se prepara. A segunda não era ficção. antevendo um golpe mais forte do que poderá suportar. a indiferença ante o próprio destino. em resumo. Mas quando o torpor não invade somente a alma do povo. Aldous Huxley não conseguisse mais que uma minguada audiência para o seu livro Regresso ao Admirável Mundo Novo. num curso de Ética nominalmente votado a objetivos da salvação nacional. após o sucesso mundial do romance Admirável Mundo Novo (1932). com deleites de masoquismo. que ultrapassaram tudo o quanto o homem comum pode aceitar como verossímil. Como. serviços secretos. dá mais brilho ao seu fascínio e incita a vítima a prosseguir na experiência. seja pela atração do abismo. A apatia. Aquele a quem os deuses querem destruir. intelectuais eminentes oferecem o Tetrafármacon e a PNL como soluções miraculosas. As técnicas de manipulação psíquica progrediram tanto nas últimas décadas. com provas cabais. A Servidão Voluntária Não estou exagerando o perigo. Mesmo aqueles que antipatizam com a proposta não dão sinal de perceber nela qualquer perigo. E aí já não se sabe quem é mais culpado: o sedutor que escraviza ou o seduzido que se entrega. Um exemplo significativo foi que. como o carneiro que oferece o pescoço à lâmina. então é que a consciência pública já transpôs a pri- meira fase do sono.

é mais fácil ser tomado de pânico do que raciocinar. em seis meses. todas as cédulas.58 OLAVO DE CARVALHO Por que o público. a consciência é. e o pânico vira logo estupor. substância e acidente: no plano essencial.” . já foram registrados mais de uma centena de casos. Segundo ele. não conseguia parar de entregar todas as cédulas de 100 mil’. as cem denúncias feitas em toda a Itália não passam da ponta de um iceberg. porque muitos casos não são denunciados. dela se desfaça no ato e saia em busca da verdadeira segurança. fiquei triste porque não achava as notas e depois não me lembro de mais nada. e só pode escapar do paradoxo pelo expediente desastroso de negar os fatos. oferece uma justificativa completa e personalizada. Epicuro que me perdoe este rodeio. de Potenza. um caixa de loja ou de banco. como os batizou a imprensa italiana. da Central de Polícia em Turim. em que os criminosos não usavam armas. A polícia italiana registrou. o hipnotizador ordena ao sujeito que. ao norte da Península. Mas a maioria das pessoas não atina com estas sutilezas. que está no conhecimento do assunto. Podemos sair dele. Paulo. pediram somente cédulas que fossem da série x. os italianos estão lutando contra um tipo insólito de crime. Alguns parágrafos significativos: 51 mais estranha onda de crimes que já se vira na Itália. ‘Trata-se de uma verdadeira gangue. Segundo Brun. O Estado de S. a parte dominante. quando comecei a trocar o dinheiro. brancas ou de fogo. com cerca de dez a vinte pessoas em ação’. Diante de certas notícias. cai numa torpe indiferença ante o aviso de que a ficção virou realidade? Uma resposta possível é que esse aviso mesmo já é estupefaciente. A indiferença afetada é uma reação de autodefesa contra o pânico — e quem fugiria do pânico se já não estivesse em pânico? Um segundo motivo é que ao menos aparentemente há uma contradição intolerável em pedir à consciência que reconheça sua sujeição a um poder inconsciente.’ ‘Não sei como. já era tarde. que jurou não ter entendido como dois indianos de olhos negros e profundos. após despertar.. a vítima entrega todo o seu dinheiro com um sorriso nos lábios e a mente confusa. Quanto mais tememos um perigo. ao dar-se conta do que tinha feito. na existência de fato.. e só quem escapou da manipulação sabe que é manipulado. Nesta nova modalidade de assalto.” Não é aqui o lugar de descrever em detalhe as técnicas de manipulação da psique. É o paradoxo que mencionei: assumir uma culpa moral inexistente parece menos doloroso do que aceitar a hipótese humilhante de uma descontinuidade da consciência. Uma forma de hipnose instantânea e praticamente irresistível. acabavam atribuindo a si mesmas a culpa pelos atos cometidos sob sugestão hipnótica. ela tem altos e baixos e só conserva o seu domínio lutando contra a inconsciência. insensibilidade catatônica que protege contra novos abalos.8 mil. O jornal O Estado de São Paulo. mas sim. Depoimento desconcertante foi feito pelo caixa do banco Monte Dei Paschi. Para reconhecer que está dormindo. É um dos mais velhos e incômodos paradoxos da mente humana. tornavam-se ainda mais inquietantes por três peculiaridades: Primeira. uma por uma. que o leão é manso. mais de uma centena desses crimes. e já chegou à Sardenha e à Sicília: o roubo por hipnose. a hipnose. “Desde maio. por exemplo. mais tendemos a fingir diante dele uma indiferença superior: “Senta. para que o leitor. Os feitos espetaculares dos hipnoladri. que começou em Piemonte. Brun chegou a prender três suspeitos paquistaneses com passaportes falsos. Por exemplo. por direito. com a ajuda das distinções aristotélicas entre potência e ato. noticiou algum tempo atrás a Marielza Augelli. contou o proprietário de um supermercado em Turim. Tratava-se de um novo tipo de assalto. explica o inspetor Paolo Brun. o primado do inconsciente só pode ser afirmado por um homem consciente. Aquilo me transtornou. ele obedece e. fala mansa e muita delicadeza conseguiram levar US$ 1. Reações análogas aparecem em todo tipo de hipnose. na multidão de exemplos da sua periculosidade. As vítimas. A vítima. será com plena consciência do que nele está plantado. Mas. envergonhadas e confundidas. 9 de dezembro de 1990. abra e feche três vezes uma gaveta. no entanto foi obrigado a liberá-los por ‘falta de provas’. meticulosamente e sem a menor resistência. caía num torpor nebuloso e ia entregando aos ladrões. se ainda tem em si algum resíduo de falsa segurança. Dez minutos depois. vou escolher um só. a cidade mais atingida. num despacho da sua correspondente Marielza Augelli espremido num canto de página 51. “Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália”. tão sensível às predições sinistras da ficção. se lhe perguntam por que agiu assim. pelo medo que as vítimas têm de passar por idiotas. que garanto não será inútil: quando voltarmos ao seu jardim. um homem tem de estar pelo menos meio acordado. ‘Eles chegaram pedindo para trocar duas notas de US$ 50 e.

A imprensa só larga a habitual indiferença para explorar. confundindo espírito e psique. Os médicos e psicólogos dividem-se em duas categorias: os de inclinação misticóide geralmente estão mais ou menos comprometidos com alguma seita ou guru. que permite aos familiares das vítimas retirá-las das garras de seus gurus com a ajuda da polícia. e forçá-las a tratamento psiquiátrico. O único país que opôs uma barreira efetiva ao avanço das seitas foi a França. uma vez provadas e aprovadas por quadrilhas de ladrões. Por mais antipatia que suscitem. sejam depois usadas para fins de dominação política. Por enquanto. sem experiência para lidar com o caso. onde a democracia se torna o pretexto da tirania (veremos no fim deste livro o verdadeiro alcance deste fenômeno). logo. quando pode. já alarmante. bruxaria e mística. Terceira. o segundo recordista mundial em número de seitas. Dos cães de Pavlov ao lava-rápido cerebral O assunto é fértil de mal-entendidos. Mas essas armas não foram testadas só em umas dezenas de assaltos. estavam atarantados. temem deparar. e os materialistas durões afetam desprezo pelo assunto na mesma medida em que. É o vale-tudo. onde a longa e dolorosa decomposição da sociedade tradicional. muitas vítimas deixavam de registrar queixa (exatamente como mulheres estupradas). Refiro-me às seitas pseudomísticas do tipo Moon. o Parlamento francês aprovou uma lei proposta pelo Partido Socialista. essas organizações continuam atuando com o maior desembaraço em todos os países. Quanto aos educadores. § 13. Denúncias esparsas. Os tribunais e a polícia. e impede que o público chegue a pensar seriamente no problema. feitas por egressos ou por familiares das vítimas. discretas se não secretas. Nos Estados Unidos. Naipaul. bem como às entidades. os debates prosseguem e mais dia menos dia talvez se descubra um meio legalmente válido de resolver o caso. Rajneesh. entidades privadas empenham-se em facilitar por todos os meios a libertação das pessoas mentalmente aprisionadas pelas seitas. que as fundam e dirigem. o lado espetaculoso — o que dá ao caso um ar fantasmagórico. Isto levava a polícia italiana a crer que o total de ocorrências registradas. a costa Oeste — a maior concentração de gurus per capita no território americano — já tinha mais de cem clínicas de terapia para egressos de seitas. A prova da autoria era tecnicamente impossível. disseminando a insegurança e a confusão. por sua vez muito improvável. ele mesmo hipnótico. a opinião pública está consciente do problema. S. a civilização ferida de que falava V. abre o flanco a todas as degenerescências do espírito religioso. caem logo no esquecimento. para reduzir à escravidão psicológica milhões de pessoas. “Meninos de Deus”.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 59 Segunda. O primeiro é a Índia. Mas qualquer ação oficial é bloqueada pela aporia lógica embutida na 5ª Emenda da Constituição: o Estado leigo não pode definir o que é religião e o que não é. na investigação do caso. mais perigosas talvez do que quadrilhas de assaltantes. Quando alguém fala da escravidão psicológica que algumas seitas impõem a seus discípulos. mesmo quando se trate de maiores de idade. as vêm empregando em escala mundial. nem para impedir que as técnicas dos hipnoladri. Outras organizações. minada pela infiltração do Ocidente. o Brasil é. e as encaminham a clínicas especializadas. Por essa mesma razão. algum fenômeno inexplicável que abale suas crenças a um tempo simplórias e pedantes. logo vêm à boca do . a não ser em caso de flagrante. De qualquer modo. bem. fosse bem menor que o número real de crimes. Em 1988. No Brasil — preciso dizer? — o assunto não é sequer discutido. Em maio de 1985. embora todo mundo saiba que promovem a escravidão. só lhe resta aceitar como tal tudo aquilo que como tal se declare. à sombra totêmica da “liberdade religiosa”. vocês conhecem algum? Por uma trágica ironia. nada se pode fazer para impedir que esses crimes proliferem e se alastrem para outros países. segundo me informou um estudioso do assunto (não é brasileiro).

Tudo no macio. 1975.” A mudança de atitude dos prisioneiros. na década de 30. um publicitário. Rio. mas só têm com ela uma identidade de fins. porém. Hal C. que completava a transformação. As técnicas em uso nas seitas se originaram da lavagem cerebral. ora a luz sem o bife. Becker diminuiu em 37 por cento a freqüência de roubos cometidos por fregueses. Eles ficaram completamente atordoados. trad. Ora. 1957. Logo depois. recordando-se de traumas enterrados no subconsciente. portanto. quando comunistas fiéis apareceram confessando os crimes mais inverossímeis que teriam praticado contra o regime. os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito. Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados. mas sim pelo efeito acumulado de estimulações contraditórias. não roubarei”. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso. por atuar abaixo do limiar (em latim. virasse do avesso. e A Possessão da Mente. não era determinada pelo conteúdo político da doutrinação. imperceptíveis à consciência. Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada.60 OLAVO DE CARVALHO interlocutor as palavras: “lavagem cerebral”. pudessem ter ab-reações. A idéia de moldar o comportamento humano pela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov. 52 . Klaus Scheel. Eles tinham sofrido lavagem cerebral “clássica” e muitos estavam completamente neuróticos. William Sargant. para que. verificou depois que muitos pacientes devidamente ab-reagidos e cuV. Heinemann. literalmente. Com grande supresa. A vítima nem se daria conta. sem gritos. e tentará atacar o dono. da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas habituais. de quem gostava. Darkness at Noon (“O Zero e o Infinito”). A técnica baseada nas descobertas de Poezl recebeu o nome de propaganda subliminar. Uma Fisiologia da Possessão. Imago. The Battle for the Mind. Enxertando na música ambiente de um supermercado uma voz debilíssima e imperceptível que repetia: “Sou honesto. o romance de Arthur Koestler. A expressão “lavagem cerebral” entrou na linguagem popular a partir dos “processos de Moscou”. Ele estudou isto em cachorros. que alcançam por meios diferentes e mais eficazes. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório. eram mais facilmente retidos na memória do que estímulos mais fortes. descobridor dos reflexos condicionados produzidos pelo jogo estímulo-resposta. Inicialmente Sargant os tratou pela psicanálise. O passo seguinte nessa direção foi dado pelo psiquiatra inglês William Sargant. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda descoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. limes) da consciência. o cérebro entrava em pane. Becker. e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simplesmente nisso. London. com o auxílio de hipnose. como Freud chamava a suspensão dos comportamentos neuróticos após a catarse curativa. o psicólogo austríaco Otto Poezl descobriu que estímulos visuais fraquíssimos. que tal sintetizar Poezl e Pavlov? A mutação de personalidade por estimulação contraditória bem poderia ser produzida subliminarmente. Em 1940. É uma meia-verdade. Logo ficou claro para todo mundo que a lavagem cerebral era uma aplicação das teorias do neurofisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). que os levavam ao desespero até que a personalidade. que detestava. ao examinar prisioneiros de campos de concentração chineses libertados após a Guerra da Coréia 52. verificou que a coisa funcionava também com estímulos auditivos. deu ao público Ocidental uma imagem vívida dos processos de tortura psíquica que levavam os prisioneiros soviéticos à perda da identidade. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelha que acendia tão logo lhes era oferecido um bife. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptaram à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita angústia intolerável. do Misticismo e da Cura pela Fé. doutrinação ostensiva ou violência de espécie alguma. A imprensa Ocidental sugeriu que o emprego de algum meio psicológico inusitado seria o responsável por aquelas “conversões” que faziam de heróis revolucionários palhaços atônitos a acusar-se de delitos fictícios. Para começar. Depois disso.

Nada adiantava o indivíduo tentar resistir às sugestões 53: “Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é essencial. p. se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes. Pavlov denominara a isto a fase paradoxal da mutação.. Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff.. em suma. mantendo-se constante a pressão. Raramente dizia alguma coisa com sentido identificável. que nas semanas seguintes era inteiramente substituído por outro. a que se seguia uma fase ultraparadoxal: “No terceiro estágio da inibição protetora. em que tantos se empenhava a psicanálise. na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade.. que desse agilidade à sua utilização. era desnecessária? Era. tomando-os como reais. Quanto mais ab-reações. o uso conjugado da estimulação incoerente e das ab-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito ao desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções. O primeiro foi fornecido pela descoberta seguinte de Sargant. Para reduzir um homem a uma obediência canina.. hipnotizar um sujeito contra a sua vontade. tinha sua catarse e saia curado. é possível induzi-la ao transe com bastante facilidade... de maneira que o indivíduo se torna receptivo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes”: era possível. de outro lado. o paciente se recordava dos terríveis sofrimentos sugeridos e. um evento traumático qualquer. por exemplo. Prometia aos alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos. Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado. para produzir a lavagem cerebral discreta e indolor com que sonhavam os técnicos. só para depois serem repentinamente jogados de novo em provações humilhantes. mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis. Mas. uma vez desperto. e lhes dava um sistema cosmológico completo. Por um lado. Gurdjieff manejava igualmente bem a estimulação contraditória. Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa. 47 . mesmo remotamente análogo ao que se havia passado. portanto. após chegar à inversão dos reflexos. essas informações seriam tanto mais explosivas em seus 53 Sargant. Com base nessa descoberta. Então a recordação dos fatos. Isto explicava muita coisa. os discípulos se persuadiam de que Gurdjieff era mesmo um extraterrestre.. O que Sargant descobriu logo depois disso foi de estarrecer. se devia tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. Tentativas repetidas em geral dão certo. mais forte o vínculo. A Possessão da Mente. Gurdjieff ora esmagava os coitados sob pilhas de exigências constrangedoras. de gritos. De fato. decisiva para o progresso dos meios de dominação psíquica: um paciente submetido a ab-reações repetidas desenvolvia uma dependência mórbida do terapeuta.” O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma sugestionabilidade aumentada ao extremo. fazendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. o sistema nervoso é esgotado e. até que a confusão mental crescesse à escala cósmica. já não havia necessidade de discursos em alto-falantes. a se transformar em negativos. de repente.” Com a descoberta da hipnose forçada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 61 rados lhe haviam contado acontecimentos traumáticos totalmente imaginários. Sargant descobriu que podia produzir ab-reação simplesmente sugerindo ao paciente. a fase ultraparadoxal. podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. Sargant fez mais uma. As mesmas reações. O segundo. as respostas e o condicionamento condicionado positivos começam. pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acontecendo. ainda faltavam dois quesitos: um meio de tornar permanente a mutação de personalidade e um vocabulário dos sinais subliminares.. ora os induzia a descargas aliviantes que lhes davam a impressão de plenitude e liberdade. Repetida a operação algumas vezes. pela PNL. Pavlov já tinha reparado que o paciente. durante hipnose. e por outro. ameaças ou tortura mental.

sem que a vítima se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder). não há. Se ninguém ainda tentou. 4. Conway & Siegelman. essencial. 55 V. Snapping. O psicólogo Leon Festinger verificou que mesmo formas brandas e gradativas de estimulação contraditória podiam produzir uma dissonância cognitiva. foi somente porque não quis. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. 5.. ou porque tropeçou em algum obstáculo acidental. descobriram que. Dois pesquisadores. IBM. que o movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da estimulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma subserviência patética. por exemplo. e mesmo a observação mais superficial basta para mostrar que a manipulação da psique já se tornou. a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade oferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional. portanto. se admitia como fé religiosa. a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos. Não é preciso enfatizar as facilidades que. 1957 ). que estão fora do alcance de um pesquisador independente. continental ou planetária. Calif. Noto. desde que se sintam cortados de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). isto é. O segredo era o planejamento cuidadoso do fluxo de informações. Um estudo conjugado da IBM e da Universidade de Stanford demonstrou que é possível produzir artificialmente um quadro paranóico em sujeitos normais. no ambiente fechado e artificial das seitas pseudo-religiosas. Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios. Esta descoberta foi confirmada por muitas outras vias. O fator decisivo é o controle planejado do fluxo de informações. 56 V. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom-senso. Zahar. no uso efetivo das técnicas de manipulação. hoje em dia. crédula e dependente (Sargant). pode também levá-lo a aceitar a autoridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de controle. às vezes em dois ou três dias. Ele não se assemelha em nada àquilo que nos séculos passados. trad. e em muitas civilizações diversas. A técnica pode ser aplicada simultaneamente a todos os membros de uma coletividade. os serviços secretos. Mas há sempre . Stanford. 2. os movimentos políticos de toda sorte avançaram. ater-me àquilo que posso observar na vida de todos os dias. A Handbook of Artificial Intelligence. Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho. o discípulo de Moon ou Rajneesh passava por uma mutação profunda de personalidade. que os técnicos chineses em lavagem cerebral levariam meses ou anos para produzir 56. É muito difícil avaliar até que ponto os governos. Teoria da Dissonância Cognitiva. os resultados descritos por Sargant podiam ser alcançados num prazo inacreditavelmente breve: em menos de uma semana. que pode ser realizado à distância (IBM). pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imediata. subliminar. Essa avaliação requereria investigações de vasta escala. Flo Conway e Jim Siegelman. As conclusões dessas pesquisas podem ser ordenadas numa seqüência simples e contundente: l. um hábito corrente. Eduardo Almeida.62 OLAVO DE CARVALHO efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência. 54 Leon Festinger. calculado para paralisar a consciência por meio da estimulação contraditória. Impedimento teórico. A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil. em muitos setores de atividade. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres. Rio. geradora de neuroses e psicoses 54. 3. Devo. as empresas multinacionais. simplesmente submetendo-os a um fluxo de informações que os deixem num leve estado de alerta contra o risco de situações humilhantes 55. em rupturas da ordem natural costumeira. Pode-se mudar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov). University Press. até agora. desobedeça à sua disposição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses. A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares. 1975 ( original: A Theory of Cognitive Dissonance. cuja licitude ninguém se lembra de pôr em discussão.

funcionalidade. Moisés pôde esperar quarenta anos pela libertação do seu povo. que ensina um homem a discernir a fonte — e portanto o valor — de suas inspirações e visões interiores. . ou Maomé ) e depois foi sendo acrescido das observações dos místicos. Movido pela fé. entre os quais os demônios. sublime ou terrível. feitos como os de Thomas Green Morton. como antecipações que dão aos fiéis o ânimo de perseverar na fé. mas sim um rebaixamento sem precedentes do nível de consciência das 58 O “discernimento dos espíritos” é a ciência. pela simples razão de que a unidade do real é a unidade do próprio Deus. O primeiro desses limites é a contradição intrínseca. o valor dos bens prometidos e a lógica da situação. Esses exemplos só mostram que na esfera mística a compreensão de certas verdades requer uma apreensão intuitiva capaz de superar. mas permaneceriam indiferentes a uma mensagem celeste que prometesse apenas entortar todos os garfos. obstáculos que ao raciocínio discursivo parecem intransponíveis. afirma-se que as visões podem provir de Deus. e por isto. ou sentenças do Profeta ( Mohammed. Deus gradua as provações segundo a capacidade dos fiéis. subentendendo que a fé perfeita não precisaria deles. atendidas as distinções de planos de realidade que a lógica. O milagre pode ser belo. para não falar de outros mais grosseiros ainda. por si. A reverência ao pajé pode fazer um índio acreditar que os ritos trarão chuva. Não pode ser banal. que nenhuma religião jamais ultrapassou. um homem pode acreditar que Deus faça a Terra parar. Uma vez encontrada a solução. mas não teve de esperar nem quarenta semanas para que Deus enviasse o maná. dignos de pena na melhor das hipóteses. O teor mesmo das imagens e o conjunto de sentimentos que as acompanham indicam a fonte. nunca foi violado por nenhuma das grandes crenças religiosas do passado e do presente. beleza. O miraculoso não é apenas o extraordinário. Albert Farges. Um homem pode acreditar que Jesus multiplique os pães. na medida em que é uma resposta a legítimos anseios humanos e não apenas uma esquisitice colossal. A respeito. finalmente dos djinns ou entes sutis da natureza. do coração humano. dos anjos. Os milagres surgem. de outros homens. em todas as religi57 Que nenhum espertinho venha mencionar os koans do budismo. Maison de la Bonne Presse. desmentindo a fé em vez de confirmá-la. que continua a crer com zelo fanático apesar dos mais óbvios desmentidos. Les Phénomènes Mistiques Distingués de leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques. Paris. Ora. obviamente não poderia realizar. 1920. esta arte esteve incluída até bem pouco tempo atrás nos ensinamentos regulares de Teologia Mística transmitido nos seminários. A decepção continuada é um antídoto contra a fé. por exemplo. ões. há o limite da paciência. Os povos do passado podiam seguir um profeta que lhes anunciasse a vida eterna ou a cura de todas as doenças. praticada por todos os místicos das grandes religiões. Se o conhecimento desta disciplina não tivesse desaparecido. subjacente mesmo às mitologias politeístas 57. mas não que Ele a faça girar e ficar parada ao mesmo tempo desde o mesmo ponto de vista. É a fé reduzida à crença cega e totalmente amputada do mais elementar “discernimento dos espíritos” 58. ao longo dos séculos. ridículo ou grotesco. mas não deixou de operá-los em profusão por saber que a fé humana é necessariamente imperfeita. a teologia apofática ou outros exemplos do mesmo teor como provas de que o pensamento religioso admite a autocontradição.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 63 um limite. V. mas não que Ele tenha ressuscitado antes de morrer. não despertariam maior curiosidade senão como fenômenos de teratologia espiritual. o incomum. O segundo limite é o senso estético. o gigantesco: ele tem de mostrar harmonia. No Ocidente cristão. mas não que a chuva será seca. O próprio Cristo censurou o povo que pedia milagres. que aceita “sinais divinos” desprovidos da mais elementar coerência estética ou funcionalidade prática. o que caracteriza o fenômeno mundial da pseudo-religiosidade contemporânea é justamente a credulidade beócia que toma como mensagem do céu qualquer fenômeno grosseiro de telepatia ou hipnose. O cristão pode aceitar que Cristo se ergueu da tumba no terceiro dia após a morte. ela se mostra perfeitamente lógica. Finalmente. O senso da identidade lógica. Na mística islâmica. Um crente não pode esperar indefinidamente nas promessas do seu Deus quando nenhuma delas jamais se cumpre. nem quarenta minutos para que seu cajado se transformasse em serpente. Ou antes: há toda uma rede de limites. por exemplo. O ensinamento tradicional a respeito está registrado nos hadith. ou técnica. A destruição da religiosidade popular tradicional — atacada de um lado pelos materialistas e de outro pela ideologia da New Age — não produziu nenhum “esclarecimento” ou “iluminação coletiva”. nesse quadro. Tem de possuir um sentido. mas seria difícil continuar crente se os pães celestes viessem mofados. sob pena de funcionar como um antimilagre. que é uma só e a mesma coisa que o senso da unidade do real. num salto.

O típico intelectual exasperado de hoje defende sistematicamente reivindicações contraditórias: liberação do aborto e repressão ao assédio sexual. O homem das grandes cidades acredita hoje em ficções que fariam um índio sorrir 59. e agora ele só crê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as civilizações precedentes? A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto seus antepassados poderiam sequer imaginar. ele não pode deixar de se guiar por ela na prática. sabendo que a propaganda é um universo de enganos. com muita violência e muito sangue para dar verossimilhança a um enredo delirante. mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propaganda de cigarros — associou Não é força de expressão. Ideologias como o gramscismo. que tem de ser reprimida a todo custo. de todo senso profundo da realidade. 1964. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária. os jingles e logotipos da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anjos. O estraçalhamento das consciências pelo império da propaganda é condenado com veemência por alguns intelectuais ativistas. entre suas tradições. demônios. as figuras. anti-racismo e defesa de “identidades culturais” sus- . Mas reprimir essa angústia é abdicar. Assim. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe. A velha oposição entre evasão e ativismo perdeu todo sentido num mundo em que a ação política se tornou um escapismo para alívio das mentes imaturas e em que as fantasias mais extravagantes são celebradas como formas de “protesto” contra um mundo mau. moralismo político e imoralismo erótico.. são a legitimação “filosófica” de uma patologia: não conseguindo mais instalar-se na realidade em que viveram nossos antepassados. Os slogans. A ruptura entre conduta e crença. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida. uma autêntica ciência do “discernimento dos espíritos”. aspirações e temores. 59 a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamente imbecil. seja construindo-as por deduções de um artificialismo sufocante. de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão por intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela foram inoculados pela propaganda. Levado a agir como se acreditasse naquilo que nega. ele já passou da fase ultraparadoxal. no ato. seja criando-as em laboratório. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado de espírito. que só pode acreditar na realidade quando ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. é condenar-se a um vaivém incessante entre a fantasia desesperançada e o desesperançado cinismo. ouvintes e espectadores. espiritualmente. o neoepicurismo. a respeito. inócua em casos isolados. liberação das drogas e proibição dos cigarros. Joseph Epes Brown. destruição das religiões tradicionais e defesa das culturas pré-modernas. o “novo modelo de linguagem” de David Bohm. ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade. mas eles mesmos praticam abundantemente a estimulação paradoxal sobre as mentes indefesas de alunos. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos.64 OLAVO DE CARVALHO multidões. muito acima do homem branco médio. leitores. o neopragmatismo de Richard Rorty. Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontram por trás desse fenômeno. seja levando as massas a encená-las no palco da política. liberdade irrestrita para o cidadão e maior intervenção do Estado na conduta privada. Pendle Hill. heróis e duendes do imaginário tradicional. V. democracia direta e controle estatal da posse de armas. que as coloca. o homem das grandes cidades é hoje um esquizóide. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativos. Muitas tribos indígenas têm. ao generalizar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável. já que sua imaginação não tem outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. todas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas. The Spiritual Legacy of the American Indian. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. os intelectuais começam a produzir realidades postiças. mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna.

os lisonjeia e se esconde. ingovernável. se a arma que se consagrou na luta para conservá-los ou extingui-los é a escravização da espécie humana. quanto à validade da mente humana. Comparados a esse império universal da impostura. segundo as quais a realidade objetiva não existe ou a linguagem não tem relação com ela. uma vez perdido. é irrecuperável para sempre? Quatro décadas atrás o uso universal dessa arma era apenas uma tendência. o ativismo intelectual acaba por reduzir a linguagem a nada mais que um instrumento de expressão de raivas insensatas e exigências descabidas. consagrando as técnicas de manipulação psicológica e de estimulação contraditória como armas legítimas e aceitáveis na luta das idéias. Quem quer que lhes dê ouvidos termina louco. a redução das massas a um rebanho de bichos controlados à distância por uma tecnologia do engodo que destitui o homem do bem supremo que. ao bom senso e ao mais elementar sentimento de humanidade. A partir desse momento. E já então um observador sensível podia escrever estas palavras: “O problema das Liberdades da Mente é hoje tão urgente e prático quanto o problema da emancipação dos escravos foi no passado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 65 tentadas na separação das raças. que. um cão é sempre um cão. A culminação de cem anos de pesquisas sobre o domínio psíquico do homem pelo homem é alcançada no momento em que todas as elites — as que estão momentaneamente no poder e aquelas que lutam para conquistá-lo — se unem num pacto contra a liberdade da consciência individual. que não têm satisfações a prestar à razão. O efeito de longo prazo é elevar até o insuportável a pressão coletiva das angústias e das culpas não conscientizadas. Mas os autores da proeza são eles mesmos suas primeiras vítimas. todos os outros males que a afligem são meras incomodidades corriqueiras. “O propósito do ataque é o mais velho de todos: produzir o caos. a abolição da consciência. uma névoa de razão fragmentada numa poeira rodopiante. Quer seja adestrado para cochilar mansamente diante da lareira ou para avançar com os dentes à mostra contra os estranhos. . pp. 10. e assim por diante. mas quem está imune à sua influência? O público nem sempre se dá conta das contradições. “A batalha a ser combatida não é só entre partido e partido. Pervertendo nos homens a capacidade para o juízo de realidade. ou mesmo. Perto dessa queda da condição ontológica da humanidade. 40 e 53-54. quanto ao seu direito de distinguir entre o bem e o mal e ao seu poder de empreender sua jornada à luz dessa distinção. “A doença social que termina na aniquilação do pensamento independente.” 60 60 Charles Morgan. influenciando a sua conduta sem pedir licença ao julgamento consciente. pouco importa quem ganhe a disputa: a humanidade perderá. A vitória almejada é o definitivo caos na mente do mundo. Liberties of the Mind. Que importam o racismo. a pobreza. mas isto é pior ainda. no meu modo de ver. Quando os filósofos começam a declarar com obscena satisfação que a verdade só pode ser inventada convencionalmente ou fingida mediante a encenação de crenças políticas. a corrupção dos políticos. Não é de estranhar que com tanta freqüência os intelectuais apologistas do absurdo se ponham a elaborar sistemas de justificativas. sem propósito e sem causa. New York. compostos de puras racionalizações no sentido freudiano da palavra. a insanidade pelo fracasso em distinguir e pelas fantasias de poder. uma luta que transcende todas as diferenças exceto uma. e da vontade de independência. Macmillan. porque elas vão direto para o seu subconsciente. o homem é tratado como um cão de Pavlov. no fundo. eles certamente devem ter bons motivos pessoais para ver nessas idéias algo de reconfortante. É antes. a injustiça social. fazendo os homens acreditarem que estão pensando livremente quando não o estão. O perigo que corremos é que há grandes forças em ação no mundo que nos proíbem empreender essa jornada e destroem nossa vontade de fazêla. não um fato consumado. Elas os ajudam a suportar o mundo fictício e alucinante que eles mesmos criaram. que importam todos os males menores e locais denunciados e combatidos pelas várias ideologias em disputa? Que diferença faz se a manipulação da mente é empreendida sob o pretexto de manter as massas na passividade de uma rotina conservadora ou de impeli-las a fazer uma revolução? Em ambos os casos. 1951. entre aqueles cuja ênfase está na razão e aqueles cuja ênfase está na fé. é uma doença de rara sutileza.

o marxismo. e sua herança ainda não se esgotou. o neopositivismo. . a pseudo-religião. a Nova Era. as mais notórias são o pragmatismo. O epicurismo é um antepassado de todas.66 OLAVO DE CARVALHO Dentre essas forças.

para mostrar. Porcarias epicúreas Mas se o epicurismo é indefensável como teoria. ainda que modesto. as clássicas lendas que os epicuristas. Apenas reexibiu. recém-exilado. estar ausentes do MASP. Se assim é. enquanto em torno a fúria de seus adversários lhe assacava odiosas calúnias. era incapaz de permanecer indiferente aos ataques dos adversários. não foi nada disso. o epicurismo vingou-se produzindo uma caricatura de história da filosofia. como um novo Sócrates. lorotas novas. malgrado suas fraquezas. A ÍNDOLE DO EPICURISMO § 14. Š Em seu esforço de canonizar Epicuro. no campo da ação prática. fazendo coro à longa tradição de marketing epicúreo. de maneira inversa à do filósofo. onde quer que se apresente uma nova defesa de Epicuro. o fracasso subiu-lhe à cabeça. será sempre tomada como tal por quem quer que aborde os temas filosóficos vindo de fora e movido por interesses alheios aos do filósofo — pelos interesses do homem prático empenhado em “transformar o mundo”. que constituem para ele um sucedâneo de teoria. os que estavam em desgraça ante o poder. Era famoso pela incontinência verbal com que difamava sobretudo os ausentes. que a escola que trapaceia no campo da teoria não teria por que eximir-se de fazê-lo também no campo dos fatos. uma vez mais. concorrer com as outras filosofias e defender seu lugar. em tudo. também se empenhe. traçou um retrato moral do filósofo como um sereno asceta em seu jardim. pelo retorno ao espírito filosófico. na obscuridade do ostracismo. destinada a acompanhar a filosofia pelos séculos dos séculos sem desaparecer nunca. não poupava mesmo aqueles com quem tinha uma dívida pessoal. diante de uma platéia que as desconhecia e à qual pareceram novas. como pôde. ele chamou Aristóteles. Epicuro. e menos ainda de respondê-los com elegância. Após ter sido discípulo de Nausífanes por longos anos e haver tomado dele algumas das principais idéias que viriam a constituir o epicurismo. se como prática é apenas um embuste para lograr um público sem discernimento. tudo suportou com elegância e resignação. não estranha que o epicurista proceda. malgrado sua ética declarada de indiferença pelo mundo. em que a mente humana está destinada a cair de tempos em tempos. Chegaram a chamá-lo de “ímpio” e até de “porco”. propriamente. alguém que aborrece a sabedoria e foge dela por quantos atalhos e desvios se lhe apresentem. absorto em meditações elevadas. e talvez por causa delas. não hesitou em chamar seu velho mestre de “verme” e . Como diria Nelson Rodrigues. E ele. Bem. um misósofo. além de cultivar no seu jardim todos os sofismas clássicos. em seguida. em substituir a história por um sistema de mentirinhas bobas destinado a colocar Epicuro no centro da evolução do pensamento humano.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 67 CAPÍTULO V. que ele seja um eterno antifilósofo. forjada do mais puro ressentimento. Ele é uma espécie de sombra. por ter o perfil externo da filosofia. ele constitui um fenômeno significativo. cíclica e regularmente. Não poderiam. Por exemplo. chutando para a periferia todos os que ousaram se opor a ele. os exilados. roendo-se de inveja da filosofia dominante. Pessanha não inventou. só para ter de reerguer-se. ocupado somente das coisas do intermundo e alheio à vã agitação dos átomos humanos. É significativo que esse tipinho. então. o conferencista. de “vendedor de drogas”. portanto. Convém repassar algumas delas. Essas balelas reaparecem. teceram e cultivaram durante vinte séculos. Ele é um equívoco permanente. projetando no chão a imagem obscura e invertida que. Não conseguindo fazer-se aceitar como filosofia séria. entre as idéias que até hoje despertam algum interesse? Uma resposta possível é que.

Outros. Epicuro. várias escolas foram fechadas e muitos filósofos — adversários potenciais de Epicuro — tiveram de emigrar: a nova seita. 685-687. Paris. Aristote et le Lycée. pois. estando doze mil de seus cidadãos com os direitos políticos suspensos. México. aliás. enquanto viveu ele esteve no bem-bom. 1994 ). 62 Ingemar Düring. op. 1990. sem nenhuma seleção 63 Carlos García Gual. Ao contrário de Platão — escreve Düring. fasc. ). 41. para afetar independência. IAL.. o móvel era o ódio político. Como ali se aceitavam indiscriminadamente quaisquer discípulos. e os epicuristas um punhado de bravos em luta contra a opressão.... Foi exatamente isto o que Pessanha deu a entender ao público do MASP. e o descrédito em que veio a cair o epicurismo. Mas por que não deveríamos explicar por igual motivação os ataques dos adversários? Por que o mesmo procedimento deveria ser louvável num homem e condenável nos outros? O hábito da difamação. Pierre Aubenque.. pp. transmitiu-se como um vírus às gerações seguintes de epicuristas. 42. É o que faz. em Atenas. para escapar à morte. Bernabé Navarro. 1985. cit. o fato é que. A escola epicúrea floresceu em Atenas quando a cidade. p. p. por exemplo. Mas enquanto Aristóteles. Alianza Editorial. Aristóteles. membro da escola megárica. Mal havia alcançado certa posição como professor.. e foi obrigado a fugir para a Ásia Menor. se encontrava sob o domínio do terror. Este era seu estilo característico de lidar com aqueles de quem havia copiado alguma coisa: cobri-los de injúrias. ia para o exílio. desculpam esses excessos verbais como manifestações da justa indignação moral do mestre. em Brice Parain ( org. 1969 ( Bibliothèque de la Pléiade ). no que é o maior e melhor dentre os estudos recentes sobre 61 o assunto —. 64 Düring. combatiam Aristóteles porque reprovavam suas doutrinas e sua filosofia. I. Histoire de la Philosophie. V. Madrid. É de estranhar que um tipo desses venha a ser chamado de porco? Os epicuristas. t. Também está na hereditariedade epicúrea a propensão a jogar com as aparências para criar falsas impressões persuasivas (a lógica dos sinais é uma técnica de fazer isso). ocupada pelo tirano Demétrio.. só reaparecendo no século XII. Assim. reed. I-III. visto com maus olhos pelo beautiful people. trad. era e continuou sendo sempre um estrangeiro.. para criar retroativamente a aparência de que no meio ateniense os aristotélicos fossem a classe dominante. respondeu a ele com injúrias pessoais. Em alguns. O epicurista de hoje pode utilizar o prestígio dominante que Aristóteles veio a ganhar nos séculos posteriores. e logo em seguida sumiu de novo quase por completo. Gallimard. Aristóteles teve poucos amigos e muitos inimigos. que pregava o absenteísmo político e não oferecia perigo para o regime. Embora sua filosofia tenha sido severamente refugada pela posteridade. Nestas condições. sem ser jamais incomodado pelos poderosos. mas somente um dos muitos cientistas estrangeiros na Academia. Aristóteles “não foi chefe de uma escola. Carlos García Gual no seu livrinho apologético 61. Demócares e Timeu facilitaram a calúnia dos pósteros.68 OLAVO DE CARVALHO “prostituta”. Exposición y Interpretación de su Pensamiento. que se passava com Epicuro? É falso que ele tenha sofrido qualquer perseguição ou ataque sério em vida. que o cultivaram ao longo dos séculos. quase nada sobrou do aristotelismo. No monumental estudo que consagrou a Aristóteles. 1981. A campanha epicúrea de difamação deixou marcas profundas e foi ressuscitada no Renascimento por Gassendi e Patrizzi” 62. a tradição antiaristotélica era forte já em vida de Aristóteles” 63. e também as apostilas de meu curso Pensamento e Atualidade de Aristóteles ( Rio. .. de teor político. Mas o fato é que Aristóteles. Universidad Nacional Autónoma. encontrou campo livre para se expandir. Teopompo e Teócrito de Quios odiavam Hermias (sogro de Aristóteles) e transferiram esse ódio a Aristóteles. já às portas da Era cristã 64. é claro. Para completar. por sua vez. que desapareceu da memória dos gregos para só ressurgir três séculos depois. morto Aristóteles. Ingemar Düring escreveu o seguinte sobre os ataques que forçaram o Estagirita a buscar o exílio: “Seus mais inflamados inimigos encontram-se entre os epicuristas. Eubúlides.

Ele era. No fundo. porém. Exige pagamento à vista. Pode-se imaginar o que a nossa geração. evidencia neles uma pequenez de alma que os torna indignos do nome de filósofos. o epicurista é apenas mais mesquinho: não dá crédito a nenhum sentido último. que povo do mundo não daria trela a fofocas ao ver milionários trancarem-se com prostitutas entre os muros de um jardim? Chamar a isto perseguição. “não quer arriscar por nada a felicidade pessoal. é abdicar de todo senso do ridículo. a essa luz. como eles. na época. graças a uma conspiração urdida por aristotélicos e cristãos e inspirada. por exemplo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 69 intelectual. O ascetismo cristão surge. Curiosamente. ao alcance da mão”. de um ominoso silêncio — prossegue a lenda —. adornou o mestre com os traços de um santo asceta. tanto quanto os de um monge cristão. O filósofo do jardim. como Pessanha quis fazer crer que fossem os críticos de Epicuro? Ou. como o dos cristãos. ao contrário. ergueram-se de tempos em tempos as vozes corajosas de alguns servidores da verdade. O que houve. Não obstante. o alívio mais imediato e o mais imediato prazer possível. enquanto o epicurismo assume a nobre aparência Outra lenda querida aos corações epicuristas é a de que a escola caiu no descrédito e no esquecimento. para proclamar a grandeza do mestre esquecido. não sofreu perseguições: beneficiou-se com a perseguição que os outros sofreram. pois foi um dos muitos professores cassados pela ditadura militar. não o é menos o epicurista. de um sacrifício gratuito. A história é outra. enquanto Epicuro viveu. em vez de perdoá-las como manifestações banais da indiscrição humana. pensou e disse dos novos professores que entraram no lugar dos cassados e passaram a brilhar nas cátedras com suas idéias politicamente inofensivas. meramente instrumentais. sobretudo. para Epicuro. a tradição epicúrea. aqui e ali. O epicurianíssimo García Gual ressalta que. qualquer idéia filosófica que não tivesse em mira o alívio da dor e a obtenção do prazer. na ética militar hindu. ao contrário. afirma ele. com a expectativa de uma recompensa em outra vida. tínhamos boas razões para pensar que as circunstâncias do sucesso daquela gente eram pelo menos um sinal da vacuidade das suas idéias? Epicuro. não pode tê-lo ignorado. dar a essas picuinhas uma dimensão comparável à da morte de Sócrates ou à do martírio dos cristãos. Não houve perseguição contra os epicúreos. o jardim logo ficou lotado de senhoras mal casadas e de milionários entediados. a ascensão dos pensadores politicamente inócuos em tempos de tirania é um fenômeno que nós aqui no Brasil conhecemos bem. Epicuro e seus discípulos mostrassem por vinte séculos uma profunda indignação ante tais ninharias. Pessanha atrás dela. independente de qualquer expectativa de benefícios (como se encontra. . como um interesseiro comércio com Deus. Caso haja nisto alguma diferença de mérito. que o epicurismo suprime. Ora. ressaltando que seu ascetismo era ainda mais meritório por não contar. foi apenas um zunzum de fofocas. Que. para Epicuro. cujo ascetismo desenvolve as virtudes da fé e da esperança num sentido último da existência. Éramos todos então uns caluniadores indecentes. Embora apreciado. um instrumento em vista de um fim: a conquista da felicidade terrena. Pessanha. Entre os dois “comércios”. provocado pelo fato de que a escola aceitava em seu corpo discente até mesmo notórias prostitutas. e declaradamente. e a do epicurista é material e a curto prazo. atual. ademais. na moral estóica ou nos místicos mussulmanos que professam “renunciar ao Paraíso” para contentar-se com o amor a Deus como um fim em si). em preconceitos religiosos. pelo essencial. é a favor do cristão. Um sucesso. por literatos e por pensadores bissextos. Mas o ascetismo epicúreo não foi nem poderia ser nunca o exercício de uma virtude gratuita. era totalmente desprovida de sentido. da Antigüidade até agora. Epicuro foi tido em péssima conta por quase todos os filósofos. A diferença está em que a recompensa esperada pelo cristão é espiritual e de além-túmulo. Se este é “interesseiro”. Filosofia e ascetismo eram portanto.

o que é aliás a única boa razão pela qual alguém pode aderir ao epicurismo — filosofia polissensa. enxertado de diatribes nietzscheanas. latinizado Petrus Gassendi. mas decorreram. não o fazem por obrigação. atravessa a escolástica sem atenuar-se em nada e penetra com a mesma força na Idade Moderna. e resolvessem ali tocar juntos. num bar. sem se perguntar sequer o que os outros estariam fazendo enquanto isso. fariam durante esse breve momento gestos coordenados segundo a partitura. em geral. Gassend tomou-se por epicurista justamente porque não compreendeu Epicuro. Na dança randômica dos átomos. acessíveis à percepção humana e regidos por leis que chamamos newtonianas. fumando ou não fumando. Mas quem disse que o indeterminismo de Planck e Heisenberg tem sentido negativo? Quem disse que a indeterminação dos movimentos dos átomos prova. Quanto aos devotados apóstolos que mantiveram aquecida a batata epicúrea sob a crosta do gelo universal. onde cabem todos os contras. e se por acaso. que não compromete em nada a sua liberdade fora dessa zona restrita. O ódio a toda a tradição filosófica ocidental inspiraria. os átomos se movem sem nenhum roteiro predeterminado. Mas a homenagem que Gassend presta a Epicuro é meramente verbal. É. O protótipo deles foi Pierre Gassend. e em seguida iriam embora para suas respectivas casas ou para onde bem entendessem. todas as combinações são possíveis. A corrente reprobatória começa com os estóicos e os aristotélicos. obra original dele (com alguma ajuda de Nizan e García Gual): revigorar o corpo moribundo do epicurismo com uma injeção de física moderna: Epicuro teria sido um precursor do indeterminismo de Planck e Heisenberg. digamos. É preciso ter praticado muito Tetrafármacon para poder enxergar estóicos e protestantes como agentes secretos do Papa. a unidade de uma negação. novamente. Não é inteiramente exato o que foi dito acima. chegam a coagular num canto qualquer do espaço um conjunto de coisas e seres mais ou menos estáveis. já que de outro lado ele defende teses absolutamente incompatíveis com o epicurismo. chocando-se uns com os outros. Assim também uns músicos que o acaso reunisse num ponto qualquer do cosmos. ao menos em parte. para Planck e Heisenberg. A inexistência de leis físicas que governem o cosmos não era para ele um argumento contra a existência de Deus. alegre ou triste segundo o estado de seu fígado. Este não encontrava em Epicuro “a menor sombra de um conceito” e via no epicurismo tãosomente “palavras vãs e representações vazias”. sempre os houve. O ponto comum é a ausência de leis que governem a matéria. pelo trajeto que a cada um aprouvesse. é claro. o universo da física moderna pode parecer uma confirmação de Epicuro. no século XX. A afinidade de Epicuro e Gassend é apenas negativa: ela reside no ódio comum a Aristóteles. Descrito assim. que Pessanha não inventou nenhuma lorota nova. No universo indeterminista. como por exemplo um atomismo à Demócrito e a noção de Deus como causa eficiente do movimento cósmico. que não oferece outro fundamento à unidade de uma tradição senão o de uma somatória de ojerizas. entra na era Patrística com Lactâncio e Dionísio. mas sim contra o de- . prolonga-se em Agostinho. O mais audacioso dos enxertos foi. Pessanha disse admirá-lo como a um elo importante na tradição materialista (v. o epicurismo de Paul Nizan. cada um assobiando pelo caminho uma melodia diferente. que os esnobes insistem em pronunciar à francesa Gassandí (1502-1655). de razões puramente filosóficas. adiante § 19). a pé. mas pelo efeito de uma coincidência estatística. e como que seguindo cada qual livremente o seu clinamen. encontrando sua mais plena expressão em Hegel. de carro ou de trem conforme o caso. ou não assobiando nada. a inexistência de um poder central regulador do cosmos? Pelo menos não foi assim que entendeu sua teoria o próprio Heisenberg.70 OLAVO DE CARVALHO Os motivos para a rejeição do epicurismo não foram quase nunca de ordem religiosa. A hipótese de que toda essa assembléia variada e milenar estivesse conjurada contra Epicuro movida tão-somente por preconceitos e fanatismos alimentados pela Igreja Católica não merece discussão.

§ 15. era para Heisenberg a prova de que o cosmos é a expressão de uma inteligência criadora e não uma máquina inerte 65. Heisenberg buscou o seu em Ma- lebranche e Leibniz. acidentalmente. um grave sinal de imaturidade intelectual. ao fazê-lo. Trinta Anos esta Noite ( São Paulo. Uma teoria física. A história do ateísmo militante é uma sucessão prodigiosa de intrujices. op. antes mesmo de terem chegado a perceber a ambigüidade. v ) nunca é menor que h. Werner Heisenberg. Esta e outras mancadas terrificantes são mostradas impiedosamente por Stanley L. 66 . ⎯ Porém o mais esquisito em casos dessa ordem é a afoiteza com que muitos intelectuais concluem do indeterminismo físico a inexistência de Deus. naquilo que podia haver de mais antagônico ao nonsense epicurista 66. os argumentos de Heisenberg não são tão sérios quanto o imagina o leigo deslumbrado. multiplicada pela margem de erro em medir o seu momento ( massa. que só lhe foi mostrada décadas depois pelos adversários da teoria. dando mau exemplo aos leitores. A fuga para o jardim “Il faut que nous sachions bien que la menace pesant sur nous tous n’est pas seulement de mourir. confessa ter chegado ainda adolescente à conclusão da inexistência de Deus. Mas dispensável mesmo é a hipótese determinista. É na verdade uma afirmação ambígua. Cap. vezes velocidade. Mas de fato o exemplo é inócuo: a moda já pegou. requer sempre algum fundamento filosófico. e uma vez tomada não lhe resta senão racionalizar-se a posteriori mediante artifícios que serão mais ou menos engenhosos conforme a aptidão e a demanda pessoal de argumentos. uma inexatidão inerente à natureza mesma da realidade física. Ao contrário.. Para Pierre Bayle. O exemplo mais recente é Paulo Francis. m. Laplace. isto é. Civilização Brasileira. no racionalismo clássico. então Deus se tornava uma hipótese dispensável ( o mais feroz dos deterministas. mas sim como o músico que. La Mettrie. ter encontrado mais tarde. indiferente ao mecanismo físico que produz os sons. Não se conhece um único caso célebre de pensador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura. O Deus de Heisenberg não age sobre o cosmos como um relojoeiro sobre o relógio — como o Deus de Newton —. m. ao passo que o ateísmo militante tem sempre a típica rigidez cega das crenças de adolescente. A ordem da forma total sobrepõe-se aqui à ordem ou desordem das matérias e elementos. toda fé religiosa coexiste. Ou seja: um defeito da ciência física pode ter sido projetado sem mais nem menos sobre a estrutura do real. em geral. servindo-se. ou também a massa. 1994. p. não havia a menor dúvida: se o universo funcionava como uma máquina segundo leis imutáveis de causa-e-efeito. uma confirmação nos argumentos de Heisenberg. mas isso não o coloca de modo algum contra o espiritualismo em geral. foi aliás quem introduziu no léxico das autodefinições pedantes o termo agnóstico ). e que. que a constante de Planck dividida por 2p ). c’est de mourir comme des imbéciles. 52 — na verdade um segundo volume. — a qual é capaz. É que o ateísmo. Chicago. durante uma meditação no bonde. Ademais. bem como sua contrária. A ausência de uma causalidade rígida. isto é. prévia a qualquer consideração racional do assunto. um tubo de metal ou uma tripa de carneiro. já que ambas podem ser usadas igualmente como “provas” do que se deseja provar per fas et per nefas. de quaisquer meios ou mecanismos que se apresentem. sejam eles um caniço. de absorver na forma superior de uma harmonia quaisquer sons. de um mecanicismo. por si. para isto. sem nunca mais voltar ao assunto. Rio. Quer dizer que a margem de erro ao medir a posição x de um elétron. no segundo. sobretudo jovens. O ateísmo militante é. pois não deixa claro se a margem de erro afeta somente a velocidade. Encyclopædia Britannica. acabou por se incorporar ao dogma ). filosoficamente. não prova nada. A fórmula do “princípio de incerteza” é Δx • Δmv ≥ h. inclusive. 65 É no entanto um lugar-comum entre intelectuais de escassos conhecimentos filosóficos alegar as teorias de Heisenberg como argumentos a favor do ateísmo. e. o princípio de incerteza expressaria apenas um obstáculo de tipo operacional. absorvida pela Igreja através da sua versão tomista. já que a beleza não se funda nas leis da causalidade física e sim da intencionalidade estética. Ademais. varrendo para baixo do tapete o fato de que durante dois séculos o argumento maior em defesa dessa conclusão foi justamente o determinismo. 1980 ). por si. I. mesmo desagradáveis em si. o trompete e a corda do violino. Muitos adeptos do indeterminismo simplesmente deram por pressuposta esta última alternativa. No primeiro caso. os organiza segundo a forma de uma intenção estética. d’Holbach e tutti quanti. e até com certa vaidade. com base em leituras superficiais. The Great Ideas Today 1990. v. a origem fortuita e o caráter leviano de suas opiniões sobre assunto grave. comete uma segunda leviandade. que a isto se reduzem respectivamente a flauta.” GEORGES BERNANOS V. absorvendo-a e superando-a ao lhe dar um sentido. por força de profundas reflexões e por motivos intelectuais relevantes. que a matéria vibrada possa produzir. Companhia das Letras. que no seu livro de memórias. quase que por definição. Helvétius. cit.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 71 terminismo mecanicista que negava Deus com base nessas mesmas leis. ⎯ É verdade que o indeterminismo de Heisenberg pode ser usado contra o realismo filosófico ( uma doutrina que. Francis — um autor que sob outros aspectos é digno da maior admiração — não é o primeiro intelectual brasileiro que vejo admitir sem constrangimento. é uma opção de juventude. e que se utilizaria de outros meios se os houvesse e fosse o caso. continuação de O Afeto que se Encerra. com as dúvidas e as crises. Jaki em “Determinism and Reality”.

Cito de memória. Arrasadas as instituições democráticas. premido entre a força cega do desejo e a força cega da fatalidade exterior que o frustra eternamente. Esmagados os ideais da esquerda nacionalista. 67 Mas a raiz do seu êxito está em outra parte.72 OLAVO DE CARVALHO Não deixa de ser irônico que o epicurismo tenha entrado no vocabulário popular como sinônimo de gozo sibarítico. em que a voz dolorida de Elis Regina suspirava por “uma casa no campo” — refúgio do militante que o desengano transformara em diletante. É um diletantismo trágico. Por essa época José Américo Motta Pessanha. Seu próprio nome. A semente da persuasão não germina se não é plantada no solo fértil dos anseios coletivos. Marx e Guevara foram trocados por Allan Watts e Timothy Leary. fechadas as principais escolas filosóficas. típicos das épocas de refluxo dos grandes ideais sociais: “A fuga dos intelectuais para a solidão do ermo — escreveu Jakob Burckhardt — é a marca das épocas em que o mundo cai: orbis ruit. é coisa que surpreende. de uma raiz que significa “socorrer”.” Não preciso ir longe para buscar um exemplo. pela pseudomística “oriental” importada da Califórnia. absurdo. buscas e te esforças. na ausência de uma consciência filosófica pessoal. O único refúgio é a meditação resignada. Jim Jones avant la lettre. dando lugar à lamentação melancólica. A mensagem final do epicurismo é. E isto lá é resposta? Que a perspectiva deste desfecho acachapante pudesse atrair para o epicurismo uma multidão de devotos. Mas o jardim de Epicuro tinha muitas plantas: umas alucinógenas. que davam um sentido de participação histórica aos intelectuais brasileiros. esquecimento. serve para integrar os átomos humanos num sentido maior da existência e os redimir da sua insignificância. sem qualquer esperança de outra vida. que só redobra os sofrimentos. onde átomos e homens buscam em vão escapar da dor perseguindo a miragem de um prazer impossível. o nada. de Caetano Veloso. fizeram ali grande sucesso “Felicidade”. professor esquerdista expulso da cátedra. sem qualquer saída para a ação coletiva que. O caminho do asceta epicúreo é aquele que o materialista Heinrich Heine viria a descrever num breve poema 67: Tu perguntas e investigas. Nesse quadro. Ele não é nada disto. “auxiliar” ou “medicar”. Mas o que lá dentro aguarda o meditante é uma conclusão inescapável: a certeza da morte. um silêncio temeroso baixara sobre as praças. O que essa concepção nos descreve é um mundo caótico. separando e isolando os indivíduos. outras anestésicas e outras mortíferas — a resposta final. nos anos que se seguiram a 1968. Só resta então embelezar a imagem da morte. não deve ter sido alheio ao seu sucesso: vale por um slogan. mas um mestre do discurso encantatório. . e uma outra. capaz de adornar com todas as flores da retórica o caminho que leva a sete palmos abaixo da terra. cujo título me escapa. A música popular assinalou a mudança dos sentimentos no ambiente universitário: o protesto aberto e combativo desapareceu das letras de canções. fazer a apologia do esquecimento. pode haver alguma inexatidão. A época de Epicuro ansiava por alívio. Minha geração — que é a de Pessanha — levou fundo a experiência da solidão e do exílio. na gradação seriada de uma pedagogia do abismo. foi trabalhar na Editora Abril. sono. entre os muros do jardim. Serviriam como jingles do Jardim de Epicuro. O Tetrafármacon misturava todas elas. Epicuro não foi só um teórico da necrofilia. pela embriaguez erótica. e no fim te enchem a boca com um punhado de terra. a debandada geral que se seguiu ao Ato Institucional no 5 levou muitos à evasão pelas drogas. rigorosamente. o afluxo de discípulos ao jardim de Epicuro foi um desses casos de evasão generalizada. um autêntico hipnotizador. que se compraz na derrota do homem. um convite à fuga pelo “vôo do pensamento”. Cada qual fechou-se no cubículo das suas angústias particulares. extintos os sonhos de reforma moral e política que haviam alimentado as discussões públicas.

que Pessanha não podia estar desinformado desse objetivo. o primeiro sistema completo de pensamento niilista que surge na história do Ocidente.” Mas. seu sucesso derivou de um estado de completo cerceamento espiritual. ao desesperado ateniense daquele tempo só restava um caminho: o caminho para baixo. para os quais o esgoto é uma esperança. não uso jamais o plural majestático. impessoal. A religião oficial. O epicurismo aplanava este caminho. O epicurismo é. a intelectualidade foge para o silêncio do campo para buscar a vida interior. Não se pode transformar o mundo fugindo dele. um perseguido político.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 73 onde editou Os Pensadores. no tempo de Epicuro. Porém aí o mistério que este livro está investigando chega à mais densa obscuridade. Numa terra que se estreita sob o jugo dos tiranos. Mas o niilismo. por ser um dos mais eminentes membros do grupo que planejou o ciclo. porque. Como se explica então que. dois joões-ninguéns. que apreciou no epicurismo sua crítica da religião oficial grega e sua mistura “dialética” de teoria e prática. Cap. Karl Marx. A mística intelectualizada ficara fora de alcance. ele já vinha. neste momento parecemos estar mais longe que nunca de alcançar uma resposta clara. sem uma porta para o céu. o ciclo de conferências sobre a Ética. e parecemos não ter obtido nada mais que um nó indeslindável. É uma filosofia de homens reduzidos à condição de ratos. Mas que o leitor não desanime. Mais que da mera depressão política. meu livro O Imbecil Coletivo. 69 Por princípio. Em dialética é assim mesmo: quando a treva da contradição se adensa até o intolerável. de compressivo desespero. não propõe nada. ele tenha subido ao pódio do MASP para convocar o povo a evadir-se para o jardim de Epicuro? Como esperava despertar a platéia para a luta política. o caminho do céu também estava fechado. e não de algum pretenso sujeito coletivo. Para sete palmos abaixo do solo. desde vários anos antes. 8. um niilismo. v. O filósofo Boécio. se ao mesmo tempo a convidava ao sono do esquecimento? Se desejávamos compreender as intenções de Pessanha. Vimos. Para o esquecimento eterno. é que estamos chegando mais perto do desenlace que tudo esclarecerá. Expulso da terra. primeiro. há de tratar-se nós ambos. preparando o terreno para a transformação da filosofia em arma política a serviço de determinados fins. Logo. principalmente de ação moral e política. É refratário a qualquer projeto de ação. Mas a comparação das épocas ainda está imprecisa. leitor. com o exílio dos filósofos. a rigor. que predispunha os homens a aceitar as mais aviltantes promessas de alívio. bem viu a periculosidade política da sua moral evasionista. justamente na hora decisiva em que a filosofia emergia de uma longa germinação subterrânea para assumir à luz do dia seu papel de condutora da política nacional. genial por transcendente à imbecilidade dos elementos singulares que o compõem. Fomos aos poucos juntando os fios desta investigação. onde houver “nós”. uma forma requintada e falsamente prazerosa de niilismo. Pois havíamos começado — nós: eu e o leitor 69 — por constatar o Sobre o evasionismo dos intelectuais logo após o AI-5 e sobre o ingresso das teorias niilistas no cenário brasileiro. Foi provavelmente nessa ocasião que ele descobriu um alívio na farmacopéia epicúrea 68. . 68 objetivo político a que visava. perdera todo atrativo. logo em seguida. em suma. conscientemente. É. o caminho do céu. meditava na prisão sobre os benefícios interiores do isolamento forçado: “É a terra vencida que nos dá as estrelas. segundo. propondo o nada. como editor da série Os Pensadores. desmoralizada pela crítica filosófica.

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LIVRO III .MARX - .

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70 . Caps. mas de transformá-lo. da ciência na propaganda ideológica 71. Se normalmente a teoria é o fundamento lógico da prática e esta é a exemplificação daquela no campo dos fatos. o teórico do “historicismo absoluto”. legitimar como satisfatório o que quer que tenha dela resultado na prática. a absorção da lógica na retórica. Mesmo que a ação produza efeitos totalmente diversos dos esperados. que assume declaradamente aquilo que em Marx estava apenas insinuado e implícito: a abolição do conceito de verdade objetiva e a submissão de toda atividade cognitiva às metas e critérios da praxis revolucionária. Fritjof Capra & Antônio Gramsci. mas uma conseqüência inevitável do conceito marxista da natureza. Tudo leva a crer que a convivência do jovem Marx com a filosofia de Epicuro — matéria de sua tese de docência — deixou no marxismo acabado marcas mais profundas do que os estudiosos geralmente supõem e do que ao próprio Marx adulto interessou declarar. já não haverá distanciamento crítico suficiente para julgá-los.. Epicuro e Marx “Marx. 2-5. A teoria epicúrea não descreve o mundo percebido. II e III. de uma apologia do fato consumado. adiante. no entanto. 71 V. e eles serão não somente aceitos. § 17. Caps. exterminado o comunismo na URSS. ao preferir antes ‘transformar’ do que ‘compreender’ o mundo. A capacidade das esquerdas mundiais para justificar em nome de uma utopia humanitária as piores atrocidades do regime comunista — e. A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO § 16. e nos precipita numa crise alucinatória onde já não há lugar para o recuo teorético que fundamenta a noção mesma de verdade objetiva 70. para continuar a pregar com a maior inocência os ideais socialistas como se não houvesse nenhuma relação intrínseca entre eles e o que aconteceu no inferno soviético —. abolindo a distância normal entre a esfera da ação e a da especulação. Não é de estranhar que a evolução de um século do pensamento marxista tenha desembocado em Antonio Gramsci. Também é compreensível que. V.CAPÍTULO VI. um objetivo declarado. a percepção do mundo. o ímpeto. a tradução verbal da crença produzida pelo hábito. mas é uma herança epicúrea. que A supressão do conhecimento objetivo não é. a relação lógica entre a prática e a teoria. veio do epicurismo. é uma herança mórbida que. O leitor deve ter reconhecido a sentença anterior: é a 11ª Tese sobre Feuerbach de Karl Marx. mas sua prática altera. em Marx. mediante exercícios. mas celebrados pela teoria como normais e desejáveis: a teoria não tem aí nenhum valor autônomo. está reduzida ao papel de uma racionalização a posteriori. como se viu no § 10. e o discurso teórico não será nada mais do que o elemento discursivo da prática. a ambição — da alma individual ou das massas revolucionárias — torna-se o fundamento único de uma cosmovisão onde a teoria já não serve senão para estimular retoricamente a ação prática ou para. através de Marx. uma vez realizada a ação.” Alfred FABRE-LUCE Epicuro inverte. A natureza para Marx só tem existência como cenário da história ou como matéria branda e plástica a ser moldada pela ação humana. em Marx como em Epicuro. Acontece. numa outra e paralela linha dessa evolução. O desejo. que essa simbiose. a diferença entre o efetivo e o possível. meus livros A Nova Era e a Revolução Cultural. no epicurismo a prática é que produz artificialmente a condição psicológica que tornará crível a teoria. A simbiose marxista da teoria com a prática não vem de Hegel. e O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras. para que se torne semelhante à teoria. Não se trata de compreender o mundo. era levado a avaliar um pensamento por sua capacidade de mobilização. suprime.

do fingimento. É somente isto que explica o fenômeno de milhares de intelectuais se recusarem. Ensaios sobre Lukács e Benjamin. da prestidigitação. trad. um tremendo senso do teatro. mas não superá-las. 1989. mas com ênfase positiva. Estes desenvolvimentos manifestam à plena luz do dia tendências que em Marx já estavam latentes como heranças do seu epicurianismo de origem. trad. para fechar-se no jardim com a comunidade dos eleitos. Rio. sobretudo a partir da década de 60. 1987. São Paulo. brasileira. 1990. Raul de Sá Barbosa. Nova Fronteira. não deixando margem para o recuo teorético e aprisionando todas as suas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica. O fato de que tenham ressurgido ao longo da evolução do marxismo mostra que Marx soube recalcá-las. para fora. v. o desejo erótico. Da Crise da Universidade à Crise da Sociedade. colocando-a no encalço de metas utópicas que. como a de falo aqui ). trata-se de envolver seres humanos numa praxis absorvente e hipnótica. Romantismo e Messianismo. entre os mais notáveis do século. argumenta Michel Löwy. a absorverão tanto mais completamente quanto mais os resultados obtidos no esforço forem cair longe das finalidades sonhadas. sem qualquer raiz na ideologia por ele professada? Que os defensores intransigentes do conceito da sociedade como um todo substancial. Em vão pensadores marxistas como Lukács ou Horkheimer. quando nem mesmo Jesus Cristo deixou de ser responsabilizado pelas crueldades da Inquisição? Não é estranho que após tudo o que se revelou sobre a tirania comunista o socialismo ainda continue a ser um ideal respeitável. mesmo tímido. depois da queda do Muro de Berlim. de intelectuais. que os afastará para sempre da tentação da objetividade. No mesmo sentido. 72 males e o ideal socialista. aquele. trad. é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certe- . Mas é uma diferença de escala antes que de natureza: nos dois casos. Edusp/Perspectiva. Best Seller. Merquior mostra que os elementos românticos e irracionais eram fortes no pensamento do próprio Lukács. e também Allan Bloom. expliquem os crimes do governo soviético como desvios acidentais totalmente alheios à ideologia marxista? Não é mesmo demente a obstinação de manter a imagem de Karl Marx — ou mesmo a de Lênin — limpa de todo contágio com os crimes da ditadura soviética. Freud. seja a mola mestra que move o progresso e dispara a revolução. e de outro lado possa crer que o ideal socialista emergiu do Gulag isento de toda mácula? Não é uma estranha morbidade que a ideologia que reduz a ação dos indivíduos a mera expressão das correntes ideológicas profundas explique as sessenta milhões de vítimas de Stálin como resultado da maldade fortuita de um só homem. mais afinados com as tradições clássicas do Ocidente e ansiosos de filiar Marx a elas. pessoalmente. Trata-se de neutralizar a inteligência humana. a reconhecer qualquer conexão entre esses Sobre a contaminação irracionalista do marxismo no curso da sua evolução ( não na sua raiz. terminou por contaminar toda a esquerda mundial: como dizia o dr. Não é realmente o efeito de um singular escotoma que a intelectualidade esquerdista veja em todo movimento de direita. quando crimes de muito menor escala bastaram para manchar de sangue para sempre a imagem do fascismo italiano. fugindo do mundo. se não pela formidável potência ilusionista inerente à raiz mesma do marxismo. e já não a força das causas econômicas objetivas. o passado rejeitado volta com redobrada força 72. pela dialética infernal que transfigura cada derrota em sinal da vitória próxima. O Marxismo Ocidental. José Guilherme Merquior. do franquismo ou das ditaduras latinoamericanas? Não é enfim uma anomalia intelectual que aquela filosofia que mais enfatizou o arraigamento histórico-social dos conceitos abstratos — condenando como “metafísica” toda admissão de essências a-históricas ou suprahistóricas — apresente agora o socialismo como essência pura incontaminada por um século de experiência comunista? Como explicar a cegueira obstinada de filósofos. ou. São Paulo.78 OLAVO DE CARVALHO leva a Reich e a Marcuse. pela sua capacidade quase diabólica de transfigurar o quadro das aparências e levar as pessoas a verem as coisas diferentes do que são? Que Marx tivesse. a enxergar os males do comunismo. Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista. como bloco orgânico onde se fundem inseparadamente ideologia e prática. durante quase um século. a marca de um ressurgimento nazifascista. Marxismo e epicurismo parecem ir em direções opostas: este. O Declínio da Cultura Ocidental. protestaram contra a invasão do irracionalismo que. para a ação coletiva que vai transformar o mundo. de artistas.

capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura. antes que el río hasta la mar te empuje por valles y barrancas. antes que te descuaje un torbellino y tronche el soplo de las sierras blancas. Ele não apenas pensa diferente do não-marxista: ele percebe o mundo sob categorias diferentes. O verbo verändern vem da raiz ander = “outro”. em Epicuro e nele. Rumo à Estação Finlândia. olmo. Mas a alteração. Progress Publishers. tomados indistintamente. a substituição se dá apenas dentro da esfera do imaginário coletivo. Os filósofos interpretavam o mundo. Cap. então compreendemos a virulência inesgotável da herança epicurista. assim como tomar consciência de uma neurose não é o mesmo que estar curado. reproduzido em O Imbecil Coletivo. otro milagro de la primavera. A maioria dos homens esteve sempre envolvida com a praxis. y el carpintero te convierta en melena de campaña. diriam Conway e Siegelman. No meu ensaio “A superioridade moral das esquerdas. Os Intelectuais. ocupados por seu turno com a praxis. quiero anotar en mi cartera la gracia de tu rama verdecida. A quem se dirige a convocação? Se Marx se reporta. ou: o rabo e o cachorro”. Ora. a mixórdia proposital e alucinógena da teoria na prática e da prática na teoria. aos conceitos tradicionais de theoria e de praxis. A Nova Era e a Revolução Cultural. no entanto. Marxisme pas mort: ele subsiste como um complexo no subconsciente dos que o rejeitaram sem criticá-lo a fundo. nesta tese. Posso explicar melhor e dar um fundamento mais “técnico” ao que foi dito no parágrafo anterior. o fio do argumento. ardas de alguna mísera caseta. hacia la luz y hacia la vida. 1964. mas especificamente 74 “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as consciências. e da qual jamais pensaram em sair? Não pode ser este o sentido da tese de Marx. trad. e desinteressada da theoria. mañana. con su hacha el leñador. e em seguida constatamos ser idêntica. Ao adotarem a atitude inversa à da maioria. é na verdade uma substituição. Ryazanskaya. “A un olmo seco” 1. temos de admitir que de fato os filósofos.” § 17. Daí a invulnerabilidade do marxista convicto à argumentação racional. V. e Paul Johnson. nem muito menos aos homens da praxis. e. se ocuparam de interpretar o mundo. item 3. O leitor que preferir saltar direto para o § 18 não perderá 73 V. esboço uma psicanálise do marxismo residual de nossos intelectuais. . Mi corazón espera también. de fazer teoria. antes que rojo en el hogar. III. Edmund Wilson. mediante uma súbita mutação ou rotação do quadro perceptivo ⎯ um snapping. Moscow. al borde de un camino. como o doente histérico para o qual imaginar é sentir. lanza de carro o yugo de carreta. da contemplação da verdade. Cabe-lhes agora transformá-lo. olmo del Duero. es kommt darauf an sie zu verändern” — frase do manuscrito reproduzido em fac-símile em The German Ideology. os filósofos faziam um contrapeso dialético à praxis: a vida contemplativa opunha-se à vida ativa. que os distinguia dos outros homens. ANTONIO MACHADO. na medida em que deixa de ser uma simples propriedade ou um acidente da substância. S. Mas isto também significa que abjurar expressamente do marxismo não é o mesmo que libertar-se instantaneamente de sua influência. “Até agora — diz a 11ª Tese 74 — os filósofos se limitaram a interpretar o mundo. apenas se privará de uma demonstração mais rigorosa — e mais entediante. porque julgavam que esta era a sua tarefa específica. notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem Marx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos. de modo que a tradução mais exata seria “alterá-lo”. que sentido teria convocá-los a uma praxis na qual já estão envolvidos por hábito imemorial. enquanto os demais homens o transformavam. desde sempre. Sua convocação não se dirige aos homens em geral. se os homens não-filósofos estiveram desde sempre ocupados em transformar o mundo enquanto o filósofo o contemplava e interpretava. na medida em que o mundo real não pode realmente ser substituído por outro. Quando.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 79 za suficiente 73. Comentários à 11ª “Tese sobre Feuerbach” Antes que te derribe.

de eidos (“idéia” ou “essência”). 2. a beleza dos seres humanos e da paisagem etc. mas isto não vem ao caso. não se ocupava genericamente de contemplar. “desvelamento”. na categoria da eternidade. o arquétipo de “cavalo”. os fenômenos. contidas eternamente na Inteligência Divina. e mais um sem-número de essências não manifestadas ou possibilidades). todos os homens contemplavam os espetáculos de teatro. Qual a diferença essencial entre a atitude contemplativa — ou interpretativa — e a atitude transformante. Este plano era considerado superior. para o plano das essências. A do filósofo. (É verdade que o termo praxis tem em Marx. em seguida o filósofo dizia (logos) o que era essa coisa. é a eles que cabe convocar a uma mudança de atitude. O homem teorético. A interpretação (hermeneia) das aparências consistia nessa subida de nível ontológico. transcendente. ela se baseia na crença de que todos fatos e todos os entes são fenômenos — “aparecimentos” — de alguma coisa: são exteriorizações ou exemplificações das essências ou possibilidades. de ón (“ser”. Esta contemplação conferia a essas coisas. capta o esquema de possibilidades do qual esse objeto é a manifestação particular e concreta. Para Platão. que Marx opõe à atitude transformante? Sendo theoria e praxis conceitos clássicos da filosofia grega. do ser verdadeiro. Entre o signo e o significado. Pouco importa. patenteando (aletheia) o seu verdadeiro ser (ón). uma mudança básica na atividade do filósofo enquanto tal. uma acepção própria e diferente. encarregado de levá-las na escalada e descida através dos mundos ou planos de realidade. entre a theoria e a praxis? 3. uma consistência ontológica superior. eram para o filósofo signos. com um motivo específico e um objetivo específico. as essências constituíam um mundo separado. sub specie æternitatis. Dito de outro modo. Em que consiste a atitude interpretativa. “guia das almas”. imutável. portanto. Era correlata das noções de logos (“razão” ou “linguagem”). por abranger e ultrapassar o mundo dos fenômenos (ele contém todos os fenômenos manifestos. que faziam dela. pois.80 OLAVO DE CARVALHO aos filósofos. precisamos entender qual a atitude que a antecedeu. 3. Era um tipo muito determinado de contemplação. num sentido em que os demais homens também podiam contemplar e olhar. o deus psicopompo. enganosa. revelação da verdade oculta). o homem filóso- fo saltava de um plano para o outro: do plano da fenomenalidade instável. movediça. essência ou arquétipo. isto é. do sensível ao inteligível. que por sua vez consistirá em praxis. e também por ser estável. desde o ente fenomênico até o ser essencial. A 11ª Tese sobre Feuerbach propõe. se os filósofos antigos a que Marx visa faziam theoria em oposição à praxis. a palavra theoria tinha uma acepção precisa. basicamente. portanto. as coisas. Esta postura se tornou mais clara e autoconsciente a partir do platonismo. porém já era a dos eleáticos. utilitária ou o que quer que fosse. para Aristóteles. mas um novo tipo de theoria. ou pretende ter. e sim o sentido grego). buscava nelas a sua significação eterna. a chave interpretativa era a razão ou logos. O filósofo contemplava as coisas para captar a sua essência (eidos). O termo hermeneia deriva do nome do deus Hermes. propriamente. a possibilidade . a diferença entre platonismo e aristotelismo. Portanto. mas em ambos os casos tratava-se de passar da fenomenalidade imediata a um estrato mais profundo e permanente. a postura interpretativa do filósofo grego. uma dignidade e uma realidade superiores. isto é. superior à aparência fenomênica e transitória. de olhar. Nisto consistia. Pela razão. estética. Por exemplo. uma contemplação filosófica e não outra qualquer. A theoria. O filósofo grego contemplava as coisas. A contemplação do homem comum podia ser lúdica. Por exemplo. ao elevar o objeto até o nível da sua idéia. ou Mercúrio. isto é. patenteando em palavras (aletheia) o verdadeiro ser (ón) que estava oculto. que ele decifrava em busca do significado ou essência. Não se trata de inaugurar só uma nova praxis. o filósofo. não. “ente”) e de aletheia (“patência”. do particular. não podemos supor que tivessem em mente o sentido marxista da palavra praxis.1. essencialmente. Em suma. transitório e aparente ao universal e estável. à luz da eternidade. é a esta última que devemos reportar-nos. o núcleo inteligível era imanente ao mundo sensível. Na filosofia grega. eterno. São eles que estiveram ocupados somente em interpretar o mundo. Para saber em que consiste essa mudança. para os fins desta análise.

pelo ser secundário. Pode manifestar-se em seres míticos que “participam da cavalidade”. mas por força da intervenção humana. 3. sem via de retorno. A praxis. no sentido aristotélico. A ação produz apenas transformação. mas uma teoria da praxis. aquilo que faz com que ele seja o que é. percherões ou mangalargas. portanto. potência latente no homo sapiens. Já não interessa o que é o cavalo ou a árvore no sistema total da realidade. como o pégaso ou o unicórnio. 3. A praxis. esta teoria já não versará sobre a natureza do ser. ao contrário. e a praxis se interessa pelo que ele não é.2. se dirige essencialmente aos meios: como toda 75 V. transforma a coisa. Já não será uma teoria do objeto. isto é. pode manifestar-se em cavalos pretos ou malhados. Porém. seu sentido “eterno”. de qualquer espécie que fosse.4. aquilo que faz com que ele possa tornar-se outra coisa que não aquilo que é. e muito menos em árvore. contendo um feixe de significações e intenções simbólicas. que transforma. para outros.3. a aparência sensível imediata é sobretudo um signo ou símbolo de um ser. e o explica e integra no sentido total da realidade. o ente é sobretudo matéria. em outros planos de realidade etc. árabes. do que poderia ser.. a aparência é sempre matéria-prima das transformações desejadas. Vrin. isto é. a praxis começa por negá-la. A prática. Paris. dentro do círculo de meus interesses imediatos. Não é uma teoria do ser. das ações transformadoras que pode sofrer. ao contrário. Logique de la Philosophie. ela só pode agora transformar-se em cadeira velha. Por exemplo. . a forma da semente é a planta completa em que ela tem o dom de se transformar). excluindo imediatamente todas as demais. ela já não pode transformar-se em mesa ou estante. “Introduction”. Ao conhecer um arquétipo. o ente é sobretudo a sua forma. eleva este último até o seu núcleo superior de possibilidades. mas transforma. isto é. mas uma teoria da ação que ele pode sofrer. fluxo de impressões. Para o homem da praxis. para a praxis. se a transformo em cadeira. posso fazer com o cavalo ou com a árvore. e depois em lixo. Não se deve confundir esta oposição com a do “estático” e a do “dinâmico”. mas apenas aquilo em que ele pode se transformar no instante seguinte. Não se trata aqui. por sua vez. o fenômeno. de sela ou de trabalho etc.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 81 “cavalo”. da qual saímos apenas pelo recuo reflexivo posterior. De cadeira. pela “negação” teorética e crítica da ação consumada: o espírito filosófico. não tentará investigar o que o ser é no corpo da realidade total. Pode manifestar-se em prosaicos cavalos de carroças ou em cavalos célebres e quase personalizados como o cavalo de Alexandre. Era neste sentido que as escrituras hindus negavam que a ação pudesse trazer conhecimento. Se investigo o objeto “árvore” para captar o seu arquétipo. uma árvore. Se a praxis requer alguma teoria. Para a theoria. A conseqüência “prática” disto é portentosa. porque o dinamismo interno faz parte da forma (por exemplo. por não admitir que o objeto seja o que é e por exigir que ele se transforme em outra coisa: não interpreta. realizando uma delas. isto é. então todo objeto será sempre e unicamente enfocado sob a categoria da paixão. mas somente de restaurar o senso de uma hierarquia de valores que parece ser inerente à estrutura do indivíduo humano são. 1967. cada qual. toda a latência de possibilidades que ela pode manifestar e que se insinua por trás da sua manifestação singular. ilusão. evidentemente. A investigação teórica insere o ser no corpo da possibilidade que o contém. Para o filósofo. de condenar a praxis em nome de uma utópica vida contemplativa. localizada no espaço e no tempo. sei não apenas o que a coisa é atualmente e empiricamente. não por seu dinamismo próprio e interno. Como a praxis é sempre ação humana. por assim dizer. às vezes pelo falso ser ou arremedo de ser que podemos fabricar com ele. Éric Weil. 2e éd. mas tudo o que ela poderia ser. limita suas possibilidades. mas sim o que. só se atualiza como reflexão sobre as desilusões do homo faber 75. posso queimar a árvore ou comer a carne do cavalo: se a teoria respeitava sobretudo a integridade ontológica e mesmo física do objeto. ao investigar o ser do objeto. Por exemplo. 3. Mais certo é dizer que a theoria se interessa pelo que um ente é em si e por si. independentemente do que eles sejam. atualiza uma dessas possibilidades. isto é. tomo consciência do que ela é. resgatando-o da sua acidentalidade empírica e restituindo. Enfim. do que ela pode significar para mim. a razão.

há uma nítida distinção hierárquica: a contemplação. ao contemplar e amar somos nós que nos transformamos: “Transforma-se o amador na coisa amada. mas neste caso já não tenho amor por ela. usando. “o bonde é útil porque me serve para levar-me à casa da minha amada. É um meio ou instrumento a terra que o homem lavra. em que o amo.4.82 OLAVO DE CARVALHO transformação visa a um resultado ou fim. Aquilo que é meio ou instrumento nada importa nem vale por si. conheço-o na medida em que o contemplo. como também o capital. o objeto sobre o qual incide é sempre e necessariamente um meio. que: 76 Subjugação. 1995. que torna o trabalho agradável em si e lhe dá um valor independente do seu proveito prático). Funarte. outros que só o podem pela theoria.1. Olavo de Carvalho. É transformar o universo numa imensa máquina-de-desentortar-bananas. só posso conhecê-lo ao usá-lo. mas de contemplação. sem consistência ontológica própria nem qualquer valor em si pode ser alvo de pura praxis.4. é um meio ou instrumento a árvore que ele abate. bem como o conjunto das ações individuais praticadas pelos seres humanos — como um vasto instrumento sem qualquer finalidade. O objeto amado. “Por que tanta libertinagem?”. não é meio. como objetivo e finalidade. A tendência universal do homem à economia de esforço mostra a sujeição dos meios aos fins. Ambos esses limites são metafísicos. aquilo que é finalidade ou valor em si não é objeto de praxis transformadora. Há uma diferente dosagem na combinação do teórico e do prático para o conhecimento dos vários tipos de seres: aquilo que para mim é meio e instrumento. . mas por alguma outra coisa: o meio ou instrumento é um intermediário. mas esta para que me serve?”. Como dizia Miguel de Unamuno. Van Gogh conheceu pincéis e tintas na medida em que os usou e. então. é claro. 1995 — um exemplo edificante de como o culto pedantesco de autores menores pode coexistir num mesmo cérebro com uma profunda ignorância da História da Filosofia. Rio. 77 V. conclui-se que estatuir a prática como fundamento e valor supremo do conhecimento é instaurar o reinado dos meios. manipulação e uso de seres humanos ( ou de animais ) com vistas ao prazer erótico — esta é a definição mesma do libertinismo ( Sade. O homem não transforma o que lhe agrada. No entanto. Mas conheço os quadros de Van Gogh na medida em que sejam conservados intactos para minha contemplação. e sim desfrutar de sua presença sem alterá-la. em que defendo a sua integridade ontológica contra qualquer tentativa de transformá-lo em outra coisa. De tudo isso. à prática por necessidade (sem contar. 3. É encarar o real no seu todo — nele incluídos o homem e sua História.” Há. gastou. nem praxis pura nem pura contemplação. Adauto Novaes. utilizá-lo para alguma outra coisa. desprezando os fins. e jamais alcançados no mundo da experiência real. aquilo que num certo ponto do caminho será abandonado para ceder lugar aos fins. Da Contemplação Amorosa. aquilo que para mim é finalidade e valor em si. É evidente. aspectos da realidade que só podem ser conhecidos pela praxis. como o sr. e sim pelo prazer como tal 76. bem como da História tout court. é um meio ou instrumento o carneiro que ele engorda e mata. no mundo dos seres físicos. Só a finalidade suprema pode ser objeto de pura contemplação. mas fim. IAL. sem mudá-la no que quer que seja 77. apenas um meio.4. Rio.2. Choderlos de Laclos et caterva ). transformá-lo. É meio ou instrumento o trabalho. Adauto Novaes — herdeiro da flama apagada de Motta Pessanha — crêem enxergar um papel libertador. Somente o objeto totalmente desprezível. 3. se o é de verdade. que no fim das contas não serve senão para afastar os obstáculos que nos separam do gozo contemplativo. mas o que lhe desagrada: ele entrega-se à contemplação por gosto.3. Posso. no qual no entanto alguns profissionais da cegueira. Ao contrário. rebaixá-la a um meio ou instrumento do meu prazer. Há apenas dosagens. Capítulos de uma Autobiografia Interior ( apostila ). V. uma transição ou passagem. segundo a escalaridade do valor dos fins e da oportunidade dos meios. Não desejamos mudá-lo. é inverter o sentido de toda ação humana e negar a consistência ontológica da realidade. Mas a praxis procede necessariamente pela negação do objeto. portanto. texto de abertura do simpósio Libertinos/Libertários. tem primazia sobre a prática. 3. e a theoria pela afirmação da sua plenitude e do seu valor como fim. Não existe. de amor. que na prática mesma há um elemento lúdico e contemplativo. é claro. pela sua redução a meio e instrumento. 3.4. Inversamente.4.

louva quase como a um santo o homem que age bem segundo uma ética em que não crê. 3. a raiz da nietzscheização da esquerda. verão uma traição ao marxismo. A praxis. é algo que cabe investigar. o ensaio magistral — e injustamente esquecido — de Otto Maria Carpeaux sobre Maquiavel em A Cinza do Purgatório. com a única diferença de que tem como sujeito não o indivíduo. de certo modo. diante de cuja praxis o universo natural — a “matéria” — perde toda substancialidade para se reduzir a mera matéria-prima da ação humana. O cavaleiro solitário no deserto do absurdo sintetiza Marx. olhando com a maior indiferença os movimentos randômicos dos átomos na planície e desprezando o choro dos fracotes que necessitam de um sentido para a vida. negado àqueles que simplesmente e humanamente fazem o que lhes parece certo conforme uma regra moral. É óbvio que se trata de uma herança epicurista inconsciente. a apologia do absurdo. ser mera coincidência. A filosofia da praxis contém em seu bojo.5. pois o marxismo se revela antes um idealismo subjetivista. e não se deixa contaminar pelas exigências da autoconsciência moral. é coisa óbvia. recusará ao mundo. até fazer com que todos os objetos já não existam senão como “mercadorias”. opõe ao arbitrário e gratuito clinamen dos átomos 78. Desenvolvimento e Cultura. ” É o mesmo que dizer que o capitalismo absorve a categoria da substância na categoria da paixão. após a crise mundial do marxismo. Nietzsche e Epicuro. comparava o materialista durão a um John Wayne da filosofia. Há um curioso paralelismo entre as noções de objeto-da-teoria e objeto-da-práxis. a intelectualidade de esquerda se entregou maciçamente a uma espécie de pseudo-heroismo do nonsense. 1958. objeto. Rio. outro aspecto senão o da sua transformabilidade imediata. uma consistência ontológica própria. valor-de-uso e valor-de-troca. O Problema do Esteticismo no Brasil. faz parte da sua consistência ontológica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 83 Eis aí. num novo e mais radical tipo de idealismo subjetivo: o mundo objetivo nada é senão o cenário da praxis. Casa do Estudante do Brasil. mas que está nos esquemas mentais subconscientes ou inconscientes do próprio Karl Marx. 3. Daí a vaidosa inversão que. Uma das censuras morais que o marxismo dirige ao capitalismo é que nele o valor de troca acaba por devorar o valor de uso até fazê-lo desaparecer. oculta mas nem por isto menos potente. que veio a ser resgatada quando. ao passo que o valor de troca é acidental. como o afirma o próprio Marx: depende de circunstâncias históricas que nada têm a ver com a natureza do objeto. posso no entanto utilizar a madeira para fazer uma mesa ou estante. só podem consistir numa afirmação nietzscheana da vontade de poder. A teoria nada dirá sobre os objetos tais e quais são. Se o capitalismo faz realmente isto ou se se trata apenas de uma figura de retórica. Sendo teoria da ação. Sobre o esteticismo como fonte das doutrinas políticas modernas. impávido no alto da sela. 1942. escandalizados. Só neste caso a censura lançada por Marx ao capitalismo perde valor objetivo. rebaixando-se a natureza ao estatuto de ancilla industriae. São Paulo. num mundo sem sentido. sobre o esteticismo como ideologia dominante nas classes letradas brasileiras. de uma hipérbole. por outro. aos fenômenos. mito ideológico ou expediente tático. portanto. mas sim a manifestação perfeita do espírito da coisa: lutar por “uma sociedade justa” é o diletantismo ético daqueles que não acreditam em ética nenhuma exceto como convenção arbitrária. orgulhando-se de continuar a defender ideais sociais que. por pedantismo ou desenfado. segundo a boutade célebre de Bertolt Brecht: “Não sei o que é. Só sei quanto custa. uma propriedade. v. mas a humanidade histórica. mas apenas tais e quais podem vir a ser sob a ação do martelo e da forja. É este seu caráter de idealismo subjetivista coletivo que dá ao marxismo o seu . a praxis não reconhecerá. num clinamen gratuito e arbitrário que o homem. desprezando a obediência a valores morais explícitos. em que muitos teóricos. já em Marx. enfim. Daí também a facilidade com que essa gente produz sucedâneos de justificação “ética” para os crimes e as perversidades cometidos em razão do seu “ideal”: pois este tem a perfeição estética de uma forma arbitrária concebida pela mente.6. v. reduzindo-se a mera projeção: Marx censura no capitalismo um defeito que não está necessariamente no capitalismo. O valor de uso é. Um escritor de talento. Nacional. Seria interessante averiguar como é possível conciliar isto com o alegado “materialismo” marxista. Mas que na filosofia de Karl Marx essa inversão ocorre. conhecível pelo homem: ela fluidificará todas as essências individuais em matéria-prima da praxis e resultará. e não do objeto. Sem saber o que é árvore. uma qualidade qualquer inerente ao 78 A elevada taxa de intelectuais pedantes e de ricaços esteticistas nas fileiras da esquerda — um fenômeno universalmente conhecido — não deve. afirmando na prática o que nega na teoria: a bondade acidental e diletante do imoralista parece envolta no encanto de uma gratuidade divina. no sentido estrito e quase fichteano. enfim. e muito menos uma contradição. por um lado. atenta ao jogo dos pretextos e dos atos. no objeto. e. John Anthony West. o não menos notável e não menos esquecido livro de Mário Vieira de Mello. a negação do sentido da realidade.

bastante lúcida ao condenar como irracionalistas — e. como burguesas. se esta entrasse em discussão naquela hora: o PCUS não seria idiota de tentar organizar o movimento revolucionário mundial sobre uma base física constituída de bolhas de sabão. então pergunto se a teoria da praxis não é uma monstruosa ampliação universalizante de um fenômeno local e terrestre — coletivamente subjetivo —. ao interesse prático de alcançar um bem-estar psicológico fictício. Quando. decadentistas e reacionárias — as novas tendências da física de Planck e Heisenberg. Como transformar o mundo fugindo dele? Como coadunar a praxis revolucionária com o evasionismo epicurista? A ortodoxia soviética foi. A tradição materialista Acabamos de compreender a afinidade entre Marx e Epicuro. mas mediante a manipulação dos objetos e sua transformação em outra coisa. para ele tornadas incompreensíveis 80. e que por isto o homem pode somente contemplar. Para que ela adquirisse alguma verossimilhança aos olhos dos homens foi preciso que primeiro a sociedade burguesa reduzisse a serva da técnica e da utilidade prática uma atividade intelectual na qual por milênios seus praticantes tinham visto uma finalidade em si mesma. e se ante a imensidão do cosmos a atitude “teórica” não é a mais sensata. Restaria então explicar como. a tese valiosíssima de Antônio Donato Paulo Rosa. e ilimitada a extensão de mundos celestes que não podemos transformar e só podemos contemplar. O Conceito de Universidade. v. e da qual mesmo homens de elevada inteligência às vezes se deixam contaminar. logo. só se mantém de pé mediante uma brutal falsificação da ordem cronológica. § 18. condenação que a fortiori se aplicaria à física de Epicuro. (Um praticista fanático poderia objetar que a astronomia se desenvolveu com fins de navegação. A interpretação praticista da origem e significado da ciência é uma grosseira projeção que o 79 burguês faz dos seus próprios critérios e valores sobre a mentalidade das épocas anteriores. 47c. onde a matéria não se rege por nenhuma lei? No caos epicúreo. porém. considero como é estreita a faixa do universo material alcançada pela ação humana (apenas a superfície da Terra.84 OLAVO DE CARVALHO tremendo poder ilusionista que embriaga e perverte. Para além da simples comunidade de ódios e ilusões. . como por exemplo os maias. v. Sobre a incapacidade do burguês — liberal e socialista — de compreender isso. toda ação está condenada ao fracasso. Brasília.) Esta prioridade cronológica e estrutural da astronomia é ressaltada por Platão 79. da ação: o homem não cria a ciência mediante a contemplação. 1981. trad. apresentada à Faculdade de Educação da USP em 1993 ( tese datilografada ). nesse sentido. uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente a perfeição é sempre justamente a astronomia. 80 Timeu. Jorge Eira Garcia Vieira. e não resta ao homem nenhuma saída senão refugiar-se no sonho. como conciliar a filosofia marxista da História com a cosmologia de Epicuro? De que modo um sentido racionalmente ordenado de causas históricas tal qual propõe o marxismo poderia brotar de um universo caótico e frouxo. isto é. e mesmo assim não inteira). Mas ainda assim a ideologia de Pessanha continua parecendo um amálgama de elementos heterogêneos e incompatíveis. porque uma astronomia requintada já se encontra entre povos que de navegantes não tinham nada. A explicação marxista. em quase todas as civilizações. que vê a explicação para a origem de todas as ciências na contemplação da regularidade e racionalidade dos movimentos dos astros. entre as rosas do Jardim. UnB. Kenneth Minogue. Da teoria da praxis provém ainda a idéia — hoje quase um dogma — de que a ciência surge a posteriori de uma racionalização da técnica. A Educação segundo a Filosofia Perene. cujos objetos estão a uma distância demasiado grande para poderem ser “transformados”. mas é bobagem pura. por seu lado. feita de um ódio comum à inteligência contemplativa e de um intuito comum de subjugá-la a interesses práticos fictícios: ao interesse prático de instaurar uma justiça social fictícia. Sobre o sentido puramente contemplativo da atividade intelectual na Idade Média. É uma afinidade negativa.

).O JARDIM DAS AFLIÇÕES 85 Quanto a Marx em pessoa. isso é puro esnobismo de caipira metido a parisiense. toda uma coleção pluriforme de beletristas e filosofantes. Sem livrar-se da raiz epicúrea de seu pensamento. Para dar ao materialismo ao menos uma aparência de continuidade. é a mesma que fundamenta as pretensões a uma “tradição materialista”. lhe devia muito. Mas por que um pensador de simpatias marxistas deveria querer tocar no assunto? Por mero interesse biográfico? Não é verossímil que Pessanha tenha levado sua devoção por Marx à carolice de pretender “resgatar” Epicuro só pela razão de haver o filósofo de Trier se ocupado do epicurismo no curso de sua formação acadêmica. talvez por considerá-la divina. a unidade da História da Filosofia. como Pessanha desejaria. uma não tem mesmo nada a ver com a outra. Marx a escondeu tão bem que ela não voltou a aparecer senão em plena crise do marxismo 81. A discrição de Marx foi sensata: um passado epicúreo é como ter a mãe na zona. nivelando por baixo. 82 Uma orientação aliás fielmente mantida nos eventos da mesma série de O Olhar e Os Sentidos da Paixão realizados após a morte de Motta Pessanha. loc. pelo menos a linha dominante do espiritualismo tradicional apareceu bem mais atenuada e descontínua do que é na realidade. Isto é muito elucidativo. E a única síntese entre o indeterminismo e Newton é aquela. como editor da série Os Pensadores. Dégerando. era necessário preencher as lacunas abertas na História pelo olvido em que fora caindo. Sénancour e Crébillon Fils ( libertinos de segundo time ) é um atraso cultural intolerável ( v. Novaes. pois somente essa intenção poderia explicar o relevo que ele deu. e daí ter ele optado pela designação vaga e descomprometedora de “pensadores” para englobar os filósofos e os quase. que no entanto. como foi mostrado no § 8°. novo empresário da filosofia-espetáculo. que certamente não morrera de todo em Pessanha. Num país que ainda não se cimento em que jaziam apagava a linha de continuidade da desejada “tradição”. só entre os espiritualistas há algum consenso quanto à matéria. A “matéria”. ele tratou de não conservar nenhum resíduo ostensivo dela no materialismo dialético plenamente desenvolvido. deve tê-lo impedido de falsear ostensivamente a topografia da história. a filósofos de terceiro ou quarto time. . jamais lhe andou pela cabeça a hipótese de uma conciliação impossível. e inseri-los nos respectivos nichos cronológicos. perfeitamente contínua de Platão até Husserl. ao lado e na mesma altura dos verdadeiros filósofos cujo diálogo forma. ela reside antes na palavra “materialismo”. em julho de 1995. insistem em cultuá-la cada qual a seu modo. ferozmente idealista. Pessanha declarou-se. como Helvétius. Bohr e toda uma corja de abomináveis espiritualistas. A afinidade que permitiu. Um certo fundo de escrupulosidade científica. No último desses eventos. os materialistas. foi pela simples razão de que. e não de um conceito. digamos logo. esboçada por Heisenberg. pretendeu impingir ao público a convicção de que a indiferença nacional por autores como La Mettrie. empenhado na reconstituição de algo assim como uma “tradição materialista” embutida na História do pensamento Ocidental. Se ele buscou entre Marx e Epicuro uma síntese que ao próprio Marx não interessou enfatizar. como vimos. a síntese pessânhica de Marx e Epicuro. por elástica que seja. Curiosamente. mais “prática”. Adauto Novaes. o sr. na sucessão dos tempos. foi certamente porque viu entre eles uma afinidade mais interessante e. É que os primeiros são materialistas: o esque81 E se Marx não teve a menor dificuldade em rejeitar a ética de Epicuro ao mesmo tempo que conservava algo de sua física. Não. A afinidade que ele viu não é somente aquela que apontei no parágrafo anterior. Passado seu interesse juvenil pela física de Epicuro (objeto de sua tese de docência). Que críticos de Marx tentem lembrar esse detalhe é compreensível. exigida por todos os materialistas contemporâneos de Marx. não tem como comportar em si ao mesmo tempo a arbitrariedade dos átomos de Epicuro e rígida obediência ao determinismo newtoniano. nivelando todo mundo por cima. a par da omissão de gigantes como Brentano. com muitas costuras e emendas. interessou sequer em traduzir as obras de Leibniz e Aristóteles ( e que só no ano de 1995 teve sua primeira tradução do Wilhelm Meister de Goethe ). Pauli. Jaspers ou Dilthey 82. É a afinidade de uma palavra. Se ainda assim não brotou a figura de uma tradição materialista em regra. Pessanha não era um mero colecionador de relíquias. fazendo com que o materialismo aparecesse como aquilo que é: um mero contraponto ocasional e descontínuo à linha-mestra do espiritualismo. Condillac. cit. ao longo dos séculos. a certa altura da palestra.

as lembranças da ditadura militar e a filosofia da História de Sto. políticas. se existe. é. Se considerarmos simplesmente o fato notório de que Platão e Aristóteles foram absorvidos na filosofia cristã e de que todos os filósofos importantes do Ocidente desde Agostinho até Hegel foram cristãos. de uma parte a massa total do queijo. Mas. uma aparência persuasiva de unanimidade. A tradição materialista. como os buracos estão para o queijo suíço. não fez nenhuma daquelas coisas que os filósofos habitualmente fazem. para fazer de Stálin. e. retroativamente. o homem movido por impressões não sabe para onde se move. repito. Se existe essa unidade. e por isto a ciência de produzir impressões é cultivada com esmero por todos aqueles que têm a ambição de conduzir os povos. feita de impressões e emoções que produzem atos. não disse absolutamente nada de identificável. de outra parte a massa total dos buracos. Agostinho. a toda e qualquer afirmação do espírito. manejadas pelo retor. numa só figura de monstro reacionário. Š Uma vez unidos Marx e Epicuro pelos santos laços do ódio à inteligência teorética e do primado do interesse prático. Pessanha não expôs nenhuma teoria. é puro fingimento. para um mestre da retórica. reduzindo o espiritualismo a uma coleção fortuita de exceções. é querer separar fisicamente. não definiu nenhum conceito. Mas a matéria é um símbolo e o materialismo é uma força. não se constitui de outra coisa senão do amálgama fortuito de negações antepostas. cativar para a rebelião contra o espírito quantas insatisfações pessoais. sem nenhuma exceção. ela não é uma unidade pró. palavras e aparências são tudo. sem qualquer pretensão ontológica — e o materialismo não é uma doutrina. desde que a Academia de Ciências da URSS enxertou a cabeça de um desconhecido sobre os ombros de Trótski nas fotos de cenas da Revolução de Outubro na Enciclopédia Soviética. Não uma força física. Não havendo uma “matéria” conceptualmente identificável — exceto. Collor de Mello.86 OLAVO DE CARVALHO Uma síntese fundada na unidade aparente de uma palavra. certamente. unidos na luta comum contra . Mas. num sentido instrumental perfeitamente compatível com as doutrinas espiritualistas esposadas aliás pela maioria dos grandes físicos —. a corrupção reinante e a tradição historiográfica que preferiu Aristóteles a Epicuro. não há nenhuma hostilidade essencial entre o interesse pessoal e o interesse coletivo: numa mesma alma podem conviver em harmonia o evasionismo epicurista e o utopismo socialista. a unidade da tradição materialista não poderia forjar-se com base na defesa da matéria. Ela está. Platão e o sr. sem exagero. nada podendo afirmar em comum. se dão as mãos na solidariedade de uma negação: a negação do espírito. Pretender que essa tradição exista substancialmente. a mais assombrosa falsificação da História já empreendida por um militante esquerdista. e não apenas como somatória artificial de negações diversas. E qual o retor que não sabe que os homens não se movem por conceitos. a rigor. Uma aparência verossímil de conceito. familiares. não lançou nenhum fundamento. e colocar lado a lado em distintos lugares do espaço. tal como a unidade da tradição materialista. e sim por impressões? Apenas. mas uma força histórica. e fazer dela a linha mestra da continuidade do pensamento humano. fundada nessa palavra. exceto no sentido negativo de uma coletânea de opiniões diversas e contraditórias. Pessanha começa a fazer sentido. para a densidade contínua da linhagem espiritualista. sob a qual se esconde uma multiplicidade de conceitos mutuamente incompatíveis. mas uma unidade contra: a unidade negativa daqueles que. uma funda impressão. um ato político no sentido mais agudo e eficaz da palavra: a união da massa contra um inimigo comum. é apenas uma aparência de síntese. A matéria não é um conceito — exceto no sentido convencional e instrumental com que vem nos livros de física. No reino das ilusões. suficientemente indefinido. econômicas e puramente psicopáticas se encontrassem comprimidas no auditório do MASP. por diferentes indivíduos e por um número indefinido de motivos. Mas deixou. veremos que a pretensão de Pessanha só pode ser compreendida como delírio alucinatório ou como fraude proposital. fantasmagórico e elástico para poder abranger. foram suficientes para suscitar uma poderosa onda emocional. Compor com pedaços de opiniões de beletristas e pseudofilósofos uma tradição materialista. da sua palestra. podem não valer nada do ponto de vista filosófico e historiográfico. o comandante militar da insurreição. Pessanha fez assim.

que vê no mundo a mera projeção dos nossos pensamentos — hipótese que o marxismo rejeita como idealismo burguês: “Os seres humanos recebem e interpretam as informações fornecidas pelos cinco sentidos. extrai-se uma apologia do nosso poder de agir. A Nova Era adere maciçamente a metafísicas orientais. esta é uma das idéias fundamentais da PNL. iria fornecer uma visão realista e universalmente válida da sociedade humana. inspira-se num kantismo radicalizado. 59. a PNL também não perde tempo em interpretar o mundo — ocupa-se de transformá-lo. mas aquela que nos dê o poder de agir nela — ou pelo menos uma dinamizante ilusão de poder que nos dê â- 83 Anthony Robbins. o proletariado vê a realidade. divergindo quanto à escala da transformação — social num caso. Quanto à PNL. personalizada do que se produziu. O sucesso dela entre empresários e executivos seria alegado como confirmação deste diagnóstico. Neste sentido. a depreciação da inteligência teorética. 84 Id.. você pode sempre representá-la de uma maneira que lhe dê poder. ao menos em aparência: o materialismo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 87 o princípio do conhecimento objetivo e no empenho comum de substituir a realidade em vez de compreendê-la. porém. justamente porque não enxerga o terreno onde pisa. por que não representá-las de uma maneira Da depreciação da nossa capacidade cognitiva. o teórico da PNL não tira daí a deprimente conseqüência lógica de que um ser assim constituído está fadado ao fracasso em todas as suas ações. Por diversos processos de generalização.. que para o marxista são mera ideologia feudal e para o epicurista uma abjeta escravização do homem aos deuses. hipertrófico. identificando-se com os interesses da classe que traz em si resumidos os interesses de toda a humanidade — o proletariado —. mas sim a conclusão surpreendentemente animadora de que o homem pode agir. Nesse sentido. Descrevendo o homem como um animal cego. ao menos em sua pretensão de universalidade: só a burguesia troca o mundo real por uma projeção subjetiva. dois princípios: o materialismo e o primado do interesse prático. a hostilidade entre ela e o marxismo é aberta e irremediável. Mas ainda resta um ponto obscuro. Não com o marxismo que estava nas intenções declaradas de Karl Marx: uma ciência objetiva que pela primeira vez iria superar uma longa série de distorções ideológicas ditadas pelos interesses de classe e. mas de uma fantasia de poder. do ponto de vista do marxismo ortodoxo — e assim seria qualificada necessariamente pela crítica marxista uns anos atrás — como idealismo subjetivo burguês. Paris. ou pseudo-orientais. trad. Mas como conciliar o materialismo com a Programação Neurolinguística e o movimento da Nova Era? Filosoficamente. de distorção e de triagem. Se esta ciência é possível. Laffont. a PNL poderia ser encarada. separado da realidade pelo muro intransponível do solipsismo. 58. A experiência que você tem do acontecimento não é exatamente o que se produziu. Pouvoir Illimité. podem firmar um acordo porque têm um princípio em comum. A ação eficaz não depende de uma visão correta da realidade. Pode-se coadunar isto com o marxismo? Não e sim. Marx e Epicuro. Entronizar como representação válida não aquela que descreva corretamente a realidade.” 83 que nos dê poder? Qualquer que seja o horror da situação.. p. . o teórico da PNL extrai uma conclusão que leva direto a um pragmatismo com tinturas nietzscheanas: “Já que ignoramos como são realmente as coisas e não conhecemos senão a representação que fazemos delas. 1989. Marie-Hélène Dumas. o cérebro transforma esses sinais elétricos em uma representação interna.. Essa filtragem explica a imensa variedade da percepção humana. individual no outro —.” 84 Dessa constatação kantiana. e ter sucesso. Mais exatamente. De outro lado. porém. mas a representação interna. parece impossível. ‘O mapa não é o território’.. a PNL é falsa. p.

inclusive no sentido de melhorar as condições materiais de vida das populações. e cai para objetivos meramente pretextuais. A mistura. procuram antes de tudo assegurar ao maior número possível de homens o acesso à contemplação. Na verdade. não havendo mais a promessa do supratemporal. Capítulos 3-10. de uma técnica. do acesso à transcedência. Investigaciones Logicas. Mas o pragmatismo. Aí a afinidade com a PNL é evidente: por mais horrendos a oportunidade de vacare Deo. Ambos. Revista de Occidente. qualquer aplicação prática de uma teoria só é possível na medida em que os limites entre uma e outra estejam rigorosamente demarcados na teoria mesma. sob o título “Devir e Sentido”. Ora. É uma força entrópica. e do pensamento etc. Edmund Husserl. mas. àquilo que está fora e acima da História. e o conceito marxista de ideologia nele incluso. não é nem necessário dizer que o sociologismo em geral. Uma teoria que se deixe contaminar de “prática” no curso da investigação teorética jamais poderá saber se seus resultados foram encontrados no real externo ou produzidos e lá enxertados pela ação prática do cientista-militante. Capítulos 3. Já os crentes no materialismo histórico não se interessam senão por inserir um número cada vez maior de homens na consciência do processo histórico. Este é o verdadeiro efeito e o verdadeiro significado do marxismo. capaz de desorganizar uma economia capitalista. agem diferentemente de homens que pensam que a História reflete a vontade de Deus.” . Ela não serve nem para criar uma descrição aproximativamente correta da realidade. para além de suas intenções declaradas. capaz de mover o mundo. dedicados a manter a roda girando. mas que por isto mesmo exerce sobre os homens a atração irresistível de uma compulsão autodestrutiva envolta em delírios de grandeza. Alianza Editorial. nem muito menos para elaborar previsões que fundamentem a ação prática. 88 Nota do meu Diário Filosófico. mas não de dirigi-las no sentido dos efeitos desejados. pode perfeitamente conciliar-se com o marxismo na medida em que ambos voltam as costas à descrição da realidade e enfatizam a sua transformação. de uma “ação racional segundo fins” como o diria Weber. capaz de desencadear as causas. confundindo ideologia com sociologia — a expressão do interesse de classe com a descrição do estado objetivo da sociedade 87. Se fosse realizável. Madrid. num país avançado e não numa sociedade feudal como a Rússia — mostram que o poder do marxismo não é o poder material e prático de uma ciência aplicada. v. vol. a participação no devir só tem sentido em função de algum objetivo a ser alcançado. Indispensáveis para a compreensão profunda do que se vai ler nas próximas páginas. um ser ambíguo e bifronte que não distingue entre o saber e a emissão de profecias auto-realizáveis 88. I. na participação voluntária no devir. que agita e sacode e atemoriza o mundo sem nada produzir senão dor e perda. e é este o sentido que justifica eticamente todos os seus esforços. e sua mistura de teoria com prática. de uma alucinação pseudoprofética. e que buscam o sentido justamente naquilo que sai fora da História e do tempo. por si mesmo. e sobretudo O Imbecil Coletivo. como bem viu Gramsci. ou que simplesmente entendem a História como uma agitação sem sentido. seria o inferno propriamente dito. Manuel García Morente y José Gaos. só que nunca para onde pretende. 1929 ( reed. sejam elas mentiras propositais ou auto-enganos de mentalidades doentes. Homens desta última categoria. pp. ela exerce uma influência sobre a História. A Nova Era e a Revolução Cultural. mas. confundem teoria e prática: o pragmatismo. A absoluta incapacidade dos teóricos marxistas de prever o curso da História. 1982 ). e não um conhecimento válido. muito menos um conhecimento aplicável na prática. no sentido etimológico de queda num nível ontológico inferior. o marxismo. A crítica husserliana do psicologismo é talvez a mais completa refutação que alguém já fez de uma teoria desde que o mundo é mundo. igualmente. quando agem na sociedade. capaz de induzir as massas e os intelectuais à ação. Homens que estão convictos de que o motor da história — e da cultura. trad. a inserção ativa na praxis se esgota como fim em si mesma. 86 Para uma explicação detalhada deste ponto. v. ser o sentido. independentemente disto.88 OLAVO DE CARVALHO nimo de lutar pelo poder — é uma proposta de tom pragmatista 85. universalmente válida. — é a luta de classes. 87 Para quem compreenda o assunto. 4 e 5. Marx nunca percebeu a contradição que havia entre seu ideal de uma ciência objetiva. para libertá-las da pressão econômica e dar-lhes 85 atrativo de ser um protesto contra um suposto academicismo desligado da “vida”. não são senão casos especiais do psicologismo tal como enfocado por Husserl. É preciso ser um completo idiota para tomar como uma promessa redentora a ameaça que essa gente nos faz de nos aprisionar para sempre no círculo do samsara. de um comtiano prévoir pour pouvoir. Alguns criticam a utopia marxista por ser irrealizável. ou os movimentos de espírito. mas não de construir o pretenso socialismo. mas sim o poder aliciante e hipnótico de uma fantasia. o devir não pode. Facilis est descensus averni. que retoricamente tem o Sobre as relações entre pragmatismo e marxismo. sua sucessão deprimente de erros crassos ao longo de mais de cem anos — a começar pelo do próprio Marx ao supor que a revolução socialista deveria ocorrer na Alemanha ou na Inglaterra. mas não de levar a ação a bom termo. serve apenas para encantar jovens irrequietos que buscam nas teorias uma confirmação vaidosa de seus desejos e aspirações. misturando lógica e psicologia — o estudo das causas reais que produzem o pensamento verdadeiro ou falso com o das exigências ideais e formais do pensamento verdadeiro 86. datada de 8 de agosto de 1989: “A interpretação materialista da História pode ser verdadeira ou falsa. 80-82 e 113-117 da 2ª edição. como a de Nero entre as chamas de Roma.

ao subtrair o indivíduo do diálogo racional. Não que ela seja contra todo pensamento crítico.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 89 que sejam os resultados da luta revolucionária. o distanciamento entre o eu e o mundo. buscando refúgio na proteção do seu “guru interior”. 1. mas às vezes todo e qualquer pensamento. Na outra ponta. Ela produz aí. sem o qual todo exame crítico-objetivo é impossível. não raro. feb. que diferencia os indivíduos integrados na nova onda e os pagãos. Um livro valiosíssimo. desde que ele se volte contra as formas de autoridade que não interessam ao movimento: a autoridade burocrático-racional da ciência. o individualista anárquico fecha-se em copas. o comunismo. o crítico protestante Russel Chandler: “Movimentos da Nova Era (no plural) é uma descrição muito mais apta. Fundindo os sentimentos interiores do discípulo na atmosfera emotiva que o circunda. Bompastor. cerca-nos por toda parte. obediência por motivos racionais. Tão logo. o integra na horda festiva dos que receberam mensagens idênticas pela “via interior” do rádio e da TV. o discípulo atravessa o umbral do templo e ingressa no círculo mágico da autoridade carismática. a mentalidade da Nova Era é ao mesmo tempo individualista e coletivista. Ante o apelo da razão. Jeremy P. nem há uma coesão significativa que nos permita chamá-lo de movimento”. mas só de tipo carismático. São Paulo. 2. Admite-se autoridade. Ninguém. russo. É significativo que. a autoridade tradicional dos pais ou da religião costumeira. no reino profano das trevas exteriores. submetendo-os à vigilância e à intromissão constante dos companheiros e superiores — sempre. ordem. . ela suprime o intervalo. afinal. é ignorado pela crítica — servilmente atenta. às publicações de ocultismo e “auto-ajuda”. no entanto. são rejeitados como tentações demoníacas. Pela mesma razão. não se aceita uma doutrina fundada em provas racionalmente válidas. Ao contrário. como a maioria deles) da Nova Era. Individualista. para uso seletivo contra os heréticos e os infiéis. 7th. e o porte-dearma só é concedido extra-muros. acima e fora de toda confrontação racional. A “interioridade” da nova Era não deixa margem para um só instante de recolhimento e reflexão 91. o que esse guru lhe sopra. Os efeitos psicológicos são devastadores. Não havendo argumentação racional nem hierarquia de prioridades. a esquerda é sempre capaz de “representá-los de uma maneira que lhe dê poder” — o poder de cair indefinidamente e arrastar atrás de si a humanidade. dos filmes e dos shows. quer saber de hierarquia. nada es mejor. um dos meios utilizados para quebrar a resistência psicológica dos discípulos consista justamente em não lhes dar um só instante de privacidade. porque não é brinquedo entrar em acordo com um saco-de-gatos. chinês ou cubano está tão distante do espírito da Nova Era quanto o Regulamento Disciplinar do Exército norteamericano. 90 Compreendendo a Nova Era. que a gente obedece justamente porque não compreende. Porta-vozes e críticos da Nova Era são concordes quanto à discórdia generalizada que ali reina: “Dentro do movimento não há unanimidade sobre como defini-lo. que. de modo que a vítima não perceba nisso o sinal de uma intenção manipulatória. Los Angeles Times Book Review. que é uma só para todos. a conciliação já não é tão fácil. ainda não tocados pelo espírito da horda. Tarcher 89. por ser publicado por uma editora religiosa. A voz do guru. críticas realistas e pertinentes. porém. ali. e isto para a Nova Era é anátema: nenhuma doutrina tem o direito de ser mais verdadeira do que outra. Em primeiro lugar. nas seitas como as de Moon e Rajneesh. Todo es igual. em vez de isolá-lo para sempre do mundo. João Marques Bentes. Também é difícil um sujeito acreditar ao mesmo tempo na influência dos astros e na luta de classes como motores da História. Uma doutrina racionalmente provada exclui a sua própria negação. 91 “New Age as Perennial Philosophy”. é claro. o único critério válido é o “sentimento de participação”. que lhe sopra verdades indizíveis. O pensamento é rebaixado à condição de arma de fogo. escreve o apologista (e comercializador. Com a Nova Era. De outro lado. 89 3. trad. não só a crítica. de maneira amável e discreta. Mas essas incompatibilidades mesmas já nos indicam algo sobre as crenças positivas que delineiam o padrão de uma unanimidade implícita por trás da variedade estonteante das orientações da Nova Era. 1993. 1988. A Nova Era não possui qualquer superestrutura abrangente” 90. autoridade burocrática ou tradicional — no sentido de Weber —. ela o fomenta. não. Por isto. 4. Em segundo lugar.

. a revolta insolente ante a autoridade do passado e a submissão hipnótica a uma nova autoridade são comuns ao epicurismo. Com um pouco de elasticidade.. todas as conciliações são possíveis. A rejeição da prova racional. a mística de uma pseudointerioridade coletiva. com o materialismo professo de Marx e Epicuro? Por mais afinidades secundárias que os aproximem. A Nova Era. Mas uma dúvida perturbadora pode ainda restar na mente do leitor.90 OLAVO DE CARVALHO Aqui começa a ficar verossímil o arranjo das idéias na cabeça de José Américo Motta Pessanha. inspira-se em motivos espiritualistas. de modo geral. . as viagens astrais. superficialmente que seja. Eppur. materialismo e espiritualismo continuam. os anjos e duendes. PNL inclusa. Como pode tudo isso coadunar-se. o karma. Ela pôs em circulação no mundo idéias como a reencarnação. ao marxismo (pelo menos em sua moderna versão gramsciana) e à Nova Era. o exemplo por excelência da oposição irredutível. afinal.

LIVRO IV .OS BRAÇOS E A CRUZ - .

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Natura no cristianismo ou Céu-Terra-Homem (Tien-Ti-Jen) no taoísmo. motivo pelo qual o passo ternário é o andamento de todas as ações e mutações. Paris. — (I) Pobres bantos Em todas as grandes tradições espirituais. Platão. A alma. desde que se entenda que uma tradução não é uma explicação. fora de qualquer pressuposto metafísico. assim. era rigorosamente chinês. É um conhecimento rigoroso. Yin e Tao. sem maiores pedantismos esotéricos. constatasse que este caminha em passo ternário. sem exceção. de outro as observações clínicas do dr. Por exemplo. Gallimard. no fim. Matéria e Proporção. 1968-1973. os dois termos de uma alternativa insolúvel repetem-se indefinidamente. apetitiva. 64 ternários possíveis sem repetição: a silogística é o “Livro das Mutações” do raciocínio. Gallimard. Matese. o mais límpido exercício. E. A essa divisão do todo correspondem. é uma ontologia do microcosmo da razão humana. por sua vez. também ternárias. e que a combinatória completa somasse. no sentido pejorativo da palavra. por Forma. é vegetativa. apresenta um modelo em miniatura de todas as mutações possíveis: de ternário em ternário. a divisão ternária do mundo imita um outro ternário mais alto: o dos supremos princípios metafísicos Yang.CAPÍTULO VII. O simbolismo dos números nada tem de “esotérico”. outras tantas subdivisões. 1957 — um livro após o qual o que quer que se diga do assunto corre o grave risco de chover no molhado. a tríade chinesa corresponde exatamente ao ternário grego Logos-Ethos-Physis. que ecoam e reverberam umas às outras segundo uma infinidade de escalas e de pontos de vista. na ausência da síntese ternária. manifestam-se em cada um dos pequenos fatos que em multidão inesgotável compõem a sucessão da vida cósmica. por que a esfera da razão humana deveria funcionar diferente da razão suprema que ordena o real como um todo? “A lógica. de duas proposições tirando uma terceira e assim por diante. Invertendo-se apenas a ordem de sucessão para Céu-Homem-Terra. Ethos o mundo humano de indecisão e liberdade relativa. Physis a ordem repetitiva da natureza sensível. aspectos e planos secundários.. 92 . que Aristóteles. que se podem traduzir. que enfoca os números como categorias lógicas ( e ontológicas ). como por exemplo Deus. ao descrever a ordem do pensamento discursivo. La Grande Triade. mas um se foi e o outro esvaiu-se como mais um suspiro sem remédio. Já o vazio. Paris. a vida era esse vício!” BRUNO TOLENTINO § 19. no microcosmo da constituição humana. era um puro palácio aritmético. 3 vols. À Trindade Cristã — Pai. O MATERIALISMO ESPIRITUAL “O abismo era metódico. seu método audaz. 93 Sobre a Tríade chinesa. trad. Pitágoras e o Tema do Número ( São Paulo. diz Schuon. 1960 ). o livro sagrado da dinastia Tchou fecha o ciclo ao chegar ao número 64: os ciclos seguintes repetem o esquema 93. Os três princípios. Paris. ademais. Ludwig Paneth em La Symbolique des Nombres dans l’Inconscient.. Comparar. dotado de fundamentos lógicos apodícticos. somando-os dois a dois 92. cuja eficácia no mundo real. a esse respeito.” O dois representa a oposição estática que. como que patinando em falso. o clássico de René Guénon. espírito. já que governam a totalidade do ser. v. Henriette Roguin. para as inúmeras partes.. até à alucinação. A divinização do espaço. Na tradição chinesa. de um lado a obra notabilíssima do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. se confirma pela investigação psicológica do inconsciente. 1976. Filho e Espírito Santo — corresponde. há muito a dizer. onde Logos é a esfera dos princípios metafísicos. O I Ching. se resolve provisoriamente em mera multiplicação quantitativa. Mas e a vida? Ah. ao definir o homem como um intermediário entre a besta-fera e o deus. o ternário corpo. na verdade. e Georges Dumézil disse muito sobre as relações entre o ternário religioso e a ordem social em Mythe et Épopée. Não espanta. Descendo porém do plano metafísico ao histórico. intelectiva. Payot. encontra-se alguma divisão ternária dos estratos da realidade. “Livro das Mutações”. Homo. alma.

estruturalmente. V.. que são obra de Plé. por exemplo o dos movimentos do cosmos. outra divindade que lhe está subordinada. o alfabeto fonético internacional. perfeitamente igual. verdade imbricada na constituição mesma do ser. em suma. o que surpreende nele não é a ubiqüidade da sua presença nas grandes tradições religiosas. à continuidade perene. Está muito longe ou é demasiado bondoso para ter necessidade de um culto propriamente dito. ou o dos estados de consciência — vigília. acima. confiou o cuidado de a acabar e governar a um deus in- Os três estágios equivalem. Kari. o homem diante de si e o homem anulado diante da infinitude divina. Faço-o também por saber que na religião islâmica a grafia das palavras tem um uso ritual e um profundo sentido simbólico ⎯ similar ao do hebraico ⎯ que se perde por completo nessas adaptações arbitrárias. mas um sistema simplificado de minha invenção. somente desempenha um papel insignificante na vida religiosa da tribo. à eternidade. correspondem outros tantos ternários na esfera cósmica e humana. ascensão). cujas letras correspondem. tota simul et perfecta possessio. aos três estados mencionados. O fato de não ter sido Kari o criador da Terra e do homem é significativo: revela-nos uma forma vulgar da transcendência e da passividade da divindade suprema. sonho e sono profundo —.. Rajas e Sattwa (queda. que a inépcia dos nossos legisladores gramaticais consagrou como corretas. prefiro as formas “mussulmano” e “Islam”. O mesmo se passa na maioria das populações africanas: o grande deus celeste.. modulada por acentos.. às três faixas do tempo: a temporalidade. que engolia ou encobria o senso da eternidade: “Os Semang da Península de Malaga conhecem também um ser supremo. Tamas. se não uma lei ontológica. D e M. depois de ter começado a criação do mundo. isto é. há um tempo verbal para as ações concebidas como findas (em qualquer tempo cronológico que seja). em todas as tra94 Nota ortográfica: em vez das grafias “muçulmano” e “Islã”. outro ainda para as ações concebidas independentemente de término ou prosseguimento. paralelamente a uma proliferação hipertrófica das divindades cósmicas ou forças naturais divinizadas — um inchaço da perenidade. onde a cada letra árabe corresponde uma e uma só letra do alfabeto latino convencional. atravessa esses mesmos estágios. simbolizados nas três posições da prece litúrgica — de pé. Brahma. Certas culturas tribais parecem desconhecê-lo completamente. Vê-se o mesmo no grego ou no hebraico 95.94 OLAVO DE CARVALHO À tríade hindu.. conservação e transformação respectivamente. modelo da espécie. que é muito complexo. “paz” ). ao rezar. Tirei algumas conseqüências desse fenômeno para a teoria da literatura em Os Gêneros Literários. tempo cíclico. e sim a sua ausência em algumas das pequenas. que transcorre mas retorna. muito afastada do homem para satisfazer as suas inumeráveis necessidades religiosas. sentado e prostrado —. resíduo de uma velha doutrina esquecida. e também na estrutura das línguas antigas. que. econômicas e vitais. que personificam o homem diante do mundo. ao menos uma “constante do espírito humano”. 6. devolvendo no fim intactas as possibilidades que estavam no início. uma tendência universal do homem a encarar o ser como se fosse assim constituído. Por isto mesmo. Os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num deus do céu chamado Olorum. que são quase transliterações. expansão. o homem primordial. ou ter dele uma idéia nebulosa e distante. neste e em outros livros. O passo ternário entre o mundo e a origem é marcado pelo monossílabo Aum. parece apreender. mutatis mutandis. O ternário dos mundos. pela ordem. Adão. Correspondem. No árabe. O fiel mussulmano 94.. Criou todas as coisas exceto a Terra e o homem. fiéis à raiz trilítera de ambas essas palavras. ao tempo. slm ( de onde vem ainda saláam. n. um para as ações in fieri. a perenidade ou eviternidade.. Mircea Eliade notou em tribos da África e da Polinésia o enfraquecimento do sentido da eternidade metafísica. A noção do triplo tempo encontra-se. que compõem a palavra Adam (o árabe em geral suprime na escrita as vogais intermediárias). Vishnu e Shiva. “posse plena e simultânea de todos os seus momentos”. 95 . que expressa grosso modo as idéias de criação. criador todo-poderoso. Também não uso nas transliterações arábicas. o ser supremo.. ou sucessão sem volta. onde se encontrarão também mais indicações bibliográficas sobre o assunto. A grafia das letras permite visualizar as três posições da prece: dições espirituais. Aqui também três letras indicam o caminho: A. atravessando os quais o homem recua desde a manifestação sensível até o princípio metafísico de todas as coisas. e a eternidade — como a definiu Boécio.

que imaginam o ser supremo Ngurubi como criador e todo-poderoso. protestante ou católico. Não é alheio a isto o fato de que o fundador da religião islâmica tenha sido um órfão. A orientação espacial ( qibla ) e o senso de integração na grande comunidade humana ( umma ) dispersam-se imediatamente como fumaça no ex-mussulmano.. Digo isto há anos. Ele não abandonou... ou faz do “silêncio de Deus” o centro das preocupações teológicas do seu tempo.. Quando. afinal. 1977. Em segundo lugar. mas fixado na perda da mãe. onde é dogma que Deus “não gerou nem foi gerado” e chamá-Lo de “pai” é blasfêmia intolerável. E os Negrilhos (pigmeus) repetem: ‘Deus afastou-se de nós’. é igualmente um grande deus celeste que se retirou do culto. dificilmente deixa de aderir. foi proposta alegremente aos Ocidentais no século XVII por filósofos e cientistas que acreditavam estar descobrindo um novo mundo — o mundo das leis mecânicas que explicariam a natureza e o homem sem necessitar para nada da “hipótese Deus”. Olorum afasta-se definitivamente dos assuntos terrestres e humanos. Umma tem aliás a mesma raiz de “mãe”. muito mais “primitivo” do que a culpa edípica. que nada entendia dessas coisas. trad. No Islam. junto com a teoria da “morte de Deus” emergisse. o Islam ou o judaismo. não puderam simplesmente dizer. Freud. para os quais o criador é demasiado longínquo e demasiado grande ‘para se interessar pelos assuntos vulgares dos homens’. onde encontra um Ersatz do clamor profético de justiça. especulou sobre a religião universal generalizando sua experiência limitada do meio judaico e cristão. e não é para rezar aos antepassados ou às árvores totêmicas. O ateísmo não é um fenômeno homogêneo: há um para cada religião. que “Deus se afastara deles”. a adesão ao ateísmo não traz um sentimento de culpa edípica. O dr. É um sentimento de orfandade. que bóia solitário num espaço indefinido. depois de pai. Que Freud tenha explicado pela morte ritual do Pai a origem do senti97 A culpa edípica não acompanha toda rejeição da fé. no máximo. O ateu de origem judaica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 95 ferior. como um garoto sem mãe perdido nas ruas. entre os Tumbukas. é preciso não cair na esparrela de interpretar as falas dos intelectuais como expressões do sentimento dominante entre as populações dos países ricos do Ocidente. Pelo que lhe respeita. 74-77. a teoria do Deus otiosus. o “Pai”. omm. depois de ter criado o homem.” 96 É compreensível que esse estado de espírito se espalhe em tribos pequenas. vendo-se alijada do poder Mircea Eliade. com a inocência do pigmeu. Natália Nunes e Fernando Tomaz. Nzambi. no mesmo círculo vienense onde ela se disseminou. a algum utopismo político. em primeiro lugar. descobriram que esse mundo era estúpido e sem razão como qualquer aparato mecânico considerado fora das finalidades inteligentes a que serve. pp. A opinião de Nietzsche para essa gente é cocô de mosquito. Não é o mesmo abandonar o cristianismo ou o budismo. aparentemente sem despertar para o caso o menor interesse dos estudiosos. Não: eles tinham consciência de havê-Lo expulsado por vontade própria — daí que. Os Bantos dizem: ‘Deus. Mas. nada menos que 56 por cento dos norte-americanos (estatísticas oficiais) freqüentam o culto dominical. dois séculos mais tarde. resíduos talvez de antigos impérios africanos desmembrados. que aparece com insistência em Salmán Rushdie. Lisboa. Passado um século desde que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”. também a doutrina do complexo de Édipo: numa civilização que por dois milênios imaginou Deus como um “Pai”. Tratado de História das Religiões. A imagética de figuras boiando no espaço. isolada. por três séculos. a que o pobre banto chegou por uma sucessão de experiências decepcionantes. mas sabem que são os espíritos dos mortos que exercem uma verdadeira vigilância sobre as coisas do mundo e é a eles que oferecem culto regular.. devemos entender isto como expressão do sentimento de uma velha tribo dispersa e decadente? O fenômeno é enigmático. mas é um fenômeno típico da civilização cristã. a culpa edípica subseqüente à expulsão do Pai não poderia deixar de estender sua sombra por toda a produção intelectual da era do ateísmo 97. Cosmos. primeiro de mãe. por exemplo. separada do sentido da vida. expressão de um sentimento vigente nos círculos intelectuais — uma tribo relativamente pequena e que. tem todos os motivos para se sentir dispersa. compensatoriamente. A “morte de Deus” é. O mesmo se verifica entre os Angonis. ou que “Deus deixou o telefone fora do gancho”. mas de ruptura traumática do cordão umbilical e de perda do senso de direção. Mas quando o intelectual altamente civilizado de uma nação rica e vencedora diz que “Deus morreu”. para arrancar do coração dos homens.. dos Bantos. Se há uma Religião Comparada. que conhecem um ser supremo mas adoram os antepassados. mas a “Lei”. abandonada por um Deus cuja presença ela mesma se esforçou. Obatalá. nunca mais quis saber dele para nada’. e marcadas por uma seqüência imemorial de derrotas e privações — o trauma repetido das preces não atendidas. expressa esse sentimento. 96 pela Revolução burguesa que ela ajudou a fazer. é necessário também uma ciência do Ateísmo Comparado. sem a qual é impossível orientar-se na barafunda dos ateísmos . entre os Wahéhes.

e sim parado: a suprema velocidade coincide com a completa imobilidade. o sinal de largada para a generalização do ateísmo entre os intelectuais foi. A divinização do espaço. russo-ortodoxa do segundo. o antes é depois etc. a douta ignorância. V. a realidade dessas contradições que a razão repele. ou nenhum. acredita encontrar nele a mesma inapreensibilidade racional que obrigava os teólogos. e não a sua extinção. então valem para ele todos os raciocínios autocontraditórios segundo os quais o que está perto está longe. Com isto. Diante desses paradoxos. c’est le livrer démagogiquement à la dispute. a recorrer à linguagem dos paradoxos. Et la dispute. Mas. que requer do cientista uma transformação interior. junto com a teoria do Deus otiosus que aposentava o Todo-poderoso. É significativo que a divindade suprema desaparecida de vista seja substituída. sob um outro e importantíssimo aspecto. Mas um objeto que ocupasse simultaneamente todos os pontos do seu trajeto já não estaria em movimento. passando pelas extremidades do diâmetro A-B. que o universo não tem centro geométrico e que. logo. e o círculo teria infinitos centros. também. HENRY MONTAIGU contemporâneos. Ora. Culto das coisas. Logo. a razão humana se mostrava impotente e devia ceder lugar a uma outra modalidade de conhecimento. a tradição filosófica e religiosa sempre reconhecera a necessidade de algum tipo superior . La pire des erreurs est toujours constituée par la Vérité elle-même. os quais. todos os seus pontos estariam eqüidistantes da circunferência. — (II) O infinito de Nicolau de Cusa. e inseparavelmente dela. numa extensão infinita. Do mesmo modo. adiante. intuitivamente.. por exemplo. ocultos entre as sombras da memória. mais tarde. Lênin e Gramsci. o grande é pequeno. uma transfiguração da inteligência. Desde a Antigüidade. Se aumentarmos sua velocidade até o infinito. antes da intervenção de Nicolau. § 19. A moderna concepção matemática da natureza inaugura-se no instante em que Nicolau. Mas a verdadeira importância histórica da sua descoberta não está nisso. Os primeiros. se aplicavam exclusivamente a Deus. espécie de ingenuidade metódica que permitia ao filósofo captar. espalhados na natureza. quando falavam de Deus. podem ser grandemente elucidadas pela origem judaico-protestante do primeiro. Dogmatiser sur un bien originel. mergulhados no passado. investidos ad hoc de prerrogativas divinas 98.. Nicolau concluía que o espaço é infinito. As diferenças entre as visões estratégicas de Karl Marx. supra-racional. imbricados na paisagem. 98 Daí proviriam. ele estará simultaneamente em A e B. Aplicando esses raciocínios. uma metanóia. escondidos nas florestas e nas grutas. a elevação do espaço e do tempo à condição de absolutos que O substituíam no cargo. a reação do intelectual europeu à “perda de Deus” foi igualzinha à do pigmeu ou do Banto. Se o universo é infinito.96 OLAVO DE CARVALHO mento religioso. deuses do tempo. É o mesmo que dizer: deuses do espaço. por dois tipos de divindades subalternas: os deuses da natureza e os antepassados. é o sinal de que a perda da dimensão metafísica traz consigo uma inversão do senso das proporções. Isso começa com Nicolau de Cusa. c’est le diable. o sistema geocêntrico de Ptolomeu estava errado. investigando as propriedades do infinito numérico e espacial. as duas grandes linhas que disputam o primado do pensamento Ocidental: o naturalismo físico-matemático e o historicismo-culturalismo. § 20. ele antecipou por via da dedução filosófica o que Copérnico viria a demonstrar pela medição e pelo cálculo. Eis aí a verdadeira novidade: a ciência da natureza eleva-se ao estatuto de um saber secreto. se o círculo do exemplo anterior tivesse um diâmetro infinito. Exemplo: um objeto girando numa órbita circular. no culto. que o tempo é infinito. É pena que até hoje ninguém tenha estudado isto em detalhe. não há “perto” nem “longe”: todas as distâncias se equivalem. no desenvolvimento das idéias Ocidentais. Os segundos. culto dos mortos. católica do terceiro.

e a perda do sentido fluido e ambíguo da manifestação cósmica. só poderia evoluir no sentido de 1º. A ciência torna-se assim uma espécie de iniciação ao contrário: só pode ser praticada mediante uma metanóia. seguindo as vias abertas por Nicolau de Cusa. daí para diante. mas reconhecia que o único resultado a que se chegaria pela Docta ignorantia seria a constatação dessa incognoscibilidade. prossegue Koyré. pp. Berkeley. uma ciência infusa. não à unidade com o Espírito que do interior move todas as coisas. isto é. 3º. VII. 101 Alexandre Koyré. Du Monde Clos à l’Univers Infini. atribuir ao Universo o qualificativo de “infinito”. sem acréscimo significativo da sua compreensão racional. requerer para esse fim um esforço “iniciático” cada vez maior. Ora.. o caminho seguido pela evolução da ciência moderna. não chegamos a um resultado melhor do que pela via racional — apenas estendemos indefinidamente nossa verificação da inesgotabilidade da natureza. Ora. o “interminado” cósmico de Nicolau “significa também que ele não está ‘terminado’ em seus constituintes. Raïssa Tarr. 1977. Paris. mas só para chegar ao conhecimento de Deus e dos mistérios supremos. porque. o conhecimento da natureza é elevado ao estatuto de mistério e a intuitio intellectualis é rebaixada de função — em vez de caminho de acesso a Deus.. o que quer dizer somente que ele não tem limites e não está contido na carapaça exterior das “esferas” celestes. da Mota e Leônidas Hegenberg. sobretudo Cap. não ao arrebatamento iluminante diante da simplicidade divina. trad. Cf. admitia-se. Pode-se duvidar da sensatez desse empreendimento.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 97 de ato cognitivo — uma iluminação. é a via para o conhecimento da natureza. mas “interminado” (interminatum). Seu Universo não é infinito (infinitum) no sentido positivo deste termo. de fato ele evita. Não que a razão pudesse apreender todas as causas dos fenômenos naturais. Paul Feyerabend. a bem dizer). Octanny S. no pleCf. mas ao ofuscamento da inteligência ante a complexidade cósmica. mas esta metanóia não leva ao conhecimento de Deus. Shambhala. com Nicolau. fez à ciência pós-renascentista: a confusão entre infinito e indefinido. duas mudanças essenciais se verificam. Quando o físico de hoje pede socorro ao simbolismo taoista em busca de um princípio ordenador para sua ciência 99. ao aplicar à natureza uma faculdade intelectual superior à razão. É evidente que. antes voltada ao conhecimento de Deus.. ou advoga a legitimidade da argumentação retórica como prova científica 100.. ele é. para chegar sempre mais e mais à mera constatação da impotência humana de compreender a natureza. temos de admitir que a raiz dessas derrotas da pretensão científica já se encontrava no projeto de Nicolau de Cusa. René Guénon. Primeira. cujas conseqüências letais se propagam até hoje. Ela apreendia somente o que neles houvesse de racional — o resíduo caótico da pura matéria. rigorosamente. que lhe faltam completamente precisão e determinação rigorosa. a ciência. trad. a rigor. É verdade que em Nicolau a infinitude do espaço-tempo não tinha ainda o sentido de uma divinização: “Nicolau de Cusa nega a finitude do mundo e seu fechamento pelas esferas celestes. ou admite que. uma intuitio intellectualis —. estender quantitativamente o conhecimento do caos natural. Pois. e sim à experiência indefinidamente repetida da incognoscibilidade da natureza. Para conhecer a natureza. bastava a luz natural da razão. 1973. 2º. 1975. ele está automaticamente fora do alcance das duas censuras básicas e dificilmente respondíveis que o maior crítico da modernidade. os conceitos básicos da física subatômica não têm significado inteligível e são meros arranjos descritivos (metáforas matemáticas. 1920 [ original inglês de 1962 ]. não era objeto de conhecimento: se nada se conhecia a respeito.. Francisco Alves. 100 99 . Rio. que ele reserva a Deus e somente a Deus. Mas ele não afirma sua infinidade positiva. era porque ali nada havia propriamente a conhecer. The Tao of Physics.. mas é certo que esse foi. Fritjof Capra. aí temos o mais temível dos paradoxos cusanos. Segunda: Nicolau não só admitia a existência do resíduo incognoscível na natureza e o justificava metafisicamente (pelo mesmo tipo de raciocínios). aplicar nisso toda a capacidade humana de intuição intelectual. Contra o Método.” 101 Com isto. mas à perseguição hipnótica da multiplicidade de uma matéria que se esfarela numa poeira de hipóteses. Gallimard.

não a medição provisória das aparências cambiantes. Sobre o mundus imaginalis. os heróis e deuses da mitologia 103. a zona sideral corresponde portanto à eviternidade.98 OLAVO DE CARVALHO no sentido da palavra. da certeza indestrutível. Como foi possível. que mais poderia fazer o dom da certeza senão nos dar repetidamente. como o anunciado pelo mecanicismo. v. mas transforma a física num sucedâneo da metafísica e o céu astronômico num sucedâneo do céu espiritual: . ao longo dos tempos. da teoria do conhecimento. Ela só se move com plena desenvoltura no terreno dos princípios metafísicos. supra-racional. então. a medição cada vez mais exata da impossibilidade de medir exatamente o que quer que seja? A intuição intelectual serve para nos dar a verdade evidente e definitiva. intermediário entre a vigília e o sono profundo. a prova cada vez mais segura da insegurança. poupando à humanidade três séculos de desvario mecanicista. chegaram a identificá-la diretamente com a inteligência de Deus. 103 102 princípio do indeterminismo. Irving ( Texas ). mas a zona da história arquetípica. indeterminado. loc. e no dos três estados de consciência. corresponde à alma. certamente numa retroprojeção de suas próprias culpas. Paris. trad. no esquema chinês. Avicenne et le Récit Visionnaire. parece tão extravagante quanto calcular as lágrimas de Penélope. a intuição intelectual não somente perde eficácia e dignidade. 1954. Ao voltar-se para o mundo das sensações. Eis por que ele não pode ser objeto de uma ciência total e precisa. inglesa de Willard Trask. para o advento de uma ciência amputada de sua raiz metafísica? A resposta é simples: o tesouro que Nicolau preservou no campo da cosmologia ele o desperdiçou no terreno da gnoseologia. inesgotavelmente inexato e cambiante. À luz do simbolismo tradicional. e requer um objeto à sua altura. Henry Corbin. receitar chá de carqueja para o fígado de Prometeu ou calcular o número exato de anjos que cabem na cabeça de uma agulha — cálculo que depois a ideologia moderna. ao “Homem” (jen). a Rajas. para as quais a totalidade da natureza sideral está incluída numa zona de indeterminação. Porque a intuição intelectual — a douta ignorância como a chamava Nicolau — é a mais elevada capacidade cognitiva humana. século após século. intermediária entre corpo e espírito. mediador entre a “firmeza passiva” da Terra e a “firmeza ativa” do Céu (que evidentemente aqui não é o céu visível. num arrebatamento de louvor. cit. que. ela é o dom da evidência apodíctica. desde que afinadas. Essa zona corresponde. indefinido por natureza. área de transição entre a certeza sensível da experiência terrestre imediata e a certeza intelectual dos primeiros princípios metafísicos. que adquiriu o prestígio de uma centelha divina no ápice da alma humana. mas a ”ação divina” que o move). da filosofia em geral e até da ética e da política. AdrienMaisonneuve. ao sonho. no ternário microcósmico medieval. com todas as letras. que a filosofia de Nicolau contribuísse. No esquema do triplo tempo. como Averroes. nem fisicamente reais nem meramente imaginários (daí o termo imaginal). mas somente de um conhecimento parcial e conjetural”. Voltada para um objeto que desde o início se sabe resvaladiço. ao tempo cíclico. se levado em conta pela ciência renascentista. com todas as suas repercussões devastadoras no terreno da biologia. atribuiu aos escolásticos medievais. e muitos filósofos. da psicologia. o “mundo intermediário”. a força expansiva que medeia entre a ascensão e a queda. no ternário hindu dos movimentos cósmicos. ser interminado e volúvel. que não é nem o tempo irreversível da factualidade terrestre nem a simultaneidade do eterno. Avicenna and the Visionary Recital. o mundus imaginalis onde habitam perenemente. teria lhe permitido chegar às bases da física de Planck e Heisenberg. 102 Nicolau está aí magnificamente em harmonia com o simbolismo das grandes tradições espirituais. onde rendeu tanto. ainda que involuntariamente. 1980. para a qual bastam as sensações. o projeto de uma ciência exata e rigorosa do cosmos. University of Dallas. Tanto na filosofia de Nicolau quanto em toda a cosmovisão cristã que o antecedeu estava bem declarado. o Koyré. infindáveis motivos de incerteza.

A cosmologia era uma “ciência intermediária” na escalada cognitiva. lamentando-o ou celebrando-o. Uma vez despertada essa ambição. O conhecimento da natureza valia sobretudo pelas suas reverberações simbólicas. pesado. foi amputar da totalidade cósmica os elementos nãomatematizáveis. ou pseudopitagórica. todos os artifícios descabidos e até fraudulentos foram postos a serviço dela. O terceiro foi banir para o mundo das curiosidades impertinentes todas as perguntas que não encontrassem resposta imediata na fantasia pitagórica. a discussão das leis da natureza enquanto tais e tomadas fora de suas conseqüências teológicas e metafísicas. Tal como o homem são quando adormece. rigoroso. mas apenas a transição desde o conhecimento sensível até a esfera dos supremos princípios metafísicos.. nesse contexto. “provava-se” que tudo nele funcionava matematicamente. a superfície dessa grande mutação em que o esquematismo de umas fórmulas secas se substitui à riqueza do mundo vivente. tal como a alma é intermediária entre corpo e espírito. e ao qual se deu o nome de “realidade”. o Homem entre Céu e Terra. no contexto medieval e antigo. o qual consiste numas miseráveis rodas de engrenagem escondidas entre fiapos de nuvens. cit. fatalmente tomando-os em seguida como se fossem a realidade mesma. e negando já não apenas alguns dados do mundo sensível. pássaros e estrelas. contado. pelo vislumbre que podia dar de uma realidade eterna e supracósmica. a perenidade entre o tempo e o eterno. para penetrar no reino maravilhoso do espírito. substituindo a natureza dada na experiência por um conjunto de esquemas previamente arranjado para caber nos moldes pretendidos. todas as fantasias. Reduzido o objeto a seus elementos matemáticos. 1): o peregrino se evade da “esfera” mundana.’” 104 É que. 30. medido e previsto em todos os seus detalhes. O primeiro. Mais graves foram seus efeitos morais e cognitivos: 104 Koiyré. p. Sol e Lua. Uma gravura da época mostra como a imaginação do estudioso renascentista concebia o “mundo espiritual” a que teria acesso ao transcender os limites do sensível (Fig. que tantos depois constataram. quanto mais rápido melhor. mas a experiência humana na sua totalidade. Daí a importância relativamente secundária que tinha. onde no silêncio e na treva da mente resplandeciam o a Luz e o Verbo de Deus. concebendo o hábito — ou vício — de raciocinar por “modelos”. naturalmente. Bela troca! Figura 1 Mas o “desencantamento do mundo”. é apenas o lado estético. de um mundo matematizado. o buscador espiritual só atravessava a agitada e caótica região dos sonhos para poder atingir. por esquemas de relações meramente possíveis. abandonando árvores e flores. O segundo foi escapar para longe da experiência comum e corrente da humanidade. A torção operada por Nicolau ocasionou a dispersão da mais nobre faculdade humana na tarefa inglória de delimitar o ilimitado. o reino do sono profundo. todos os exageros. .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 99 “[As] concepções cosmológicas de Nicolau de Cusa culminam na ousada transferência ao Universo da definição pseudo-hermética de Deus: ‘Uma esfera cujo centro está por toda parte e cuja circunferência está em parte alguma. a ciência da natureza cósmica não era um objetivo em si. op.

da perda de lisonjeiras ilusões sacrificadas ao progresso do conhecimento. em suma. A ciência fecha-se num solipsismo incomunicável. 71 ). que. fingindo dar ao homem uma visão mais realista de sua posição no cosmos. Enrico Filippini. o objeto sobre o qual versa a hipótese é indefinido e inesgotável.. o a priori do seu modo de ser. Milano. no qual tinha sido até então. legisla sobre a realidade ou irrealidade dos demais conhecimentos. nesse sentido. a pretensão de estar mais certa do que no momento anterior ou seguinte.100 OLAVO DE CARVALHO “A destruição do cosmos e a perda. forjando o modelo de seu próprio objeto. e o permanece para sempre. toda a manifestação cósmica está afetada de contradições. não resulta apenas. pp. ao mesmo tempo que se arrogava o direito de expulsar do reino dos conhecimentos respeitáveis quaisquer outras explicações possíveis. porém. Buscar uma aproximação com essa hipótese é o único objetivo de toda investigação científica. op. não tendo o poder de limpar o próprio traseiro. ora revogando a autoconsciência individual. 1972. levaram o homem a perder sua posição única e privilegiada no drama teocósmico da Criação. com arrogância patológica. Essa mutação transformou o conjunto da atividade científica numa permanente petição-de-princípio. ora invalidando as percepções intuitivas. No fim dessa evolução encontramos o mundo mudo e terrificante do ‘libertino’ de Pascal. a ciência entrou no caminho irreversível de uma espécie de auto-hipnose matemática.” 105 Esse efeito moral. Se o infinito tem indiferentemente infinitos centros ou nenhum. sem se dar a mínima conta da falácia deste raciocínio. exercendo enfim sobre toda parte em torno o domínio que não pode exercer sobre si mesma. “Ser científico”. aos dados intuitivos e ao senso comum. a anulação do princípio mesmo do conhecimento objetivo. escreve Edmund Husserl: “Segundo o que observamos. mas apenas o símbolo ou aparência de uma instância supra-espacial onde as aparentes contradições se reconciliam na unidade do infinito metafísico. ao mesmo tempo em que pretende legislar sobre o conhecimento do mundo exterior. a hipótese permanece uma hipótese. pela Terra. 64-65. Surpreendente.. p. renuncia a nos dar qualquer conhecimento do mundo real da experiência — substituindo-o por um elenco de esquemas matemáticos — e desmoraliza como fantasia mística qualquer outra via de acesso a esse conhecimento. ademais. a verificação ( a única possível ) é uma seqüência infinita de verificações. a idéia galilaica é uma hipótese. que não entrais nem deixais entrar. Quem quer que medite seriamente estas palavras compreenderá que um conhecimento assim constituído não tem a menor qualificação para sair dos quadros da mais estrita humildade metodológica e opinar sobre questões de metafísica. onde a hipótese indemonstrável admitida de início — o caráter matemático das leis cósmicas — é ao mesmo tempo elevada a critério supremo e único de validação do conhecimento científico. a figura central e o cenário. que da infinitude espacial deduziram imediatamente a negação da centralidade da Terra no cosmos. a cada momento. . É precisamente esta a essência própria da ciência natural. no oceano ilimitado da pura fantasia. de sua situação central e por isto mesmo única. La Crisi delle Scienze Europee e la Fenomenologia Trascendentale. Comentando um estágio já mais avançado do processo de matematização da natureza — a física de Galileu —. Ai de vós. a aproximação não poderá jamais ter fim nem alimentar mesmo. 4ª ed. ao mesmo tempo que. de gnoseologia ou mesmo de cosmologia. ao mesmo tempo. porque. e uma hipótese de um gênero surpreendente. pelo simples fato de não ser composta senão de Koyré. Tão bobos ficaram os sábios imbuídos de douta ignorância.” ( Edmund Husserl. trazia em seu bojo a destruição de toda possibilidade de conhecer o real. como poderia parecer à primeira vista. é absurdo pretender provar que um determinado ponto não é o centro. o mundo desprovido de sentido da filosofia científica moderna. cit. Ele resulta de que o aparente progresso. Na verdade. a cura di Walter Biemel. renunciava implicitamente a nos dar qualquer explicação do mundo da experiência humana. é conformar-se com uma hipótese inicial impossível de provar e refratária. ora negando o senso comum. trad. Tudo o que se poderia deduzir corretamente da ilimitação espacial é que o espaço tem propriedades autocontraditórias por não ser propriamente uma realidade. 106 A “exatidão matemáti105 106 ca” da visão científica da natureza desemboca assim. A cosmovisão científica. Il Saggiatore. No fim encontramos o niilismo e o desespero. Introduzione alla Filosofia Fenomenologica. por outro lado. A nova ciência teve um efeito entorpecente sobre todas as inteligências. como a criança pequena que. não obstante a verificação. Pela porta da douta ignorância cusana. imagina ter o poder de obrigar despoticamente a babá a fazê-lo. Como.

O introdutor da nova astronomia na Península Ibérica foi o chefe local da Inquisição. Ao rejeitar aparentemente Aristóteles. o cientista moderno que proclama que a física renascentista refutou Aristóteles comete. Histoire de la Folie à l’Âge Classique. Curiosamente. no que a evolução posterior da ciência não cessou de lhe dar razão. pois é absurdo buscar ao mesmo tempo uma ciência e a maneira de alcançar essa ciência. junto com eles. diríamos hoje em linguagem husserliana —. Pois toda a Natureza contém verossimilmente matéria. ao mesmo tempo que se espalham por toda a Europa os hospícios e prisões. destinados a excluir da visão humana os comportamentos desviantes que arriscassem macular a perfeição matemática da nova ordem 108. 109 Sobre a perda do sentido simbólico da natureza. teve de se afastar cada vez mais da realidade sensível até substituí-la totalmente pelos modelos matemáticos. como o diz a calúnia consagrada em mito historiográfico — o gosto europeu de queimar bruxas e supostas bruxas. da jardinagem à medicina. Juan de Zuñiga. 995a. advertido contra os riscos de uma aplicação indiscriminada do método matemático à filosofia da natureza. é substituído pela classificação das peças isoladas e mortas 109 . Michel Foucault. Sim. The Spiritual Crisis of Modern Man. Aristóteles julgava. Uma das conquistas de que se gaba a ciência renascentista é ter refutado a física aristotélica num ponto determinado: a circularidade das órbitas planetárias. por exemplo. Nas ciências da natureza. Sobre a exclusão dos loucos. ao platonismo à outrance dos físicos renascentistas. para verificar que aquilo que era um punhado de brasas na Idade Média veio a tornar-se. manifestamente superior. Neste sentido. Seyyed Hossein Nasr. exigir em tudo o rigor matemático. Data dessa época — e não da Idade Média. para poder matematizar a física. Aristóteles já havia. pois assim veremos igualmente de quê trata a Física. porque as novas idéias exerceram tanta influência dentro da Igreja Católica quanto fora dela. uma desonestidade intelectual. inerente à constituição mesma da matéria —. divergente. daí vem. 1968 ( há tradução brasileira. É só acompanhar a ascensão do número de processos e condenações. quer separados. Paris. ). v. ganhando em ilusão de ordem e realismo o que perde em significação e intuito. em realismo e profundidade. cortes. com efeito. reverberações e fragmentos que não poderiam ter em si mesmos. se Aristóteles estava manifestamente errado nesse detalhe e mesmo em muitos outros. 3. pela Editora Zahar: O Homem e a Natureza ). apagar ou pelo menos esconder tudo o que fosse diferente. Não se deve. que devamos examinar primeiro o que é a Natureza. London. e ele concluía que o método demonstrativo-matemático só podia dar conta de realidades imateriais — de puras relações lógico-ideais. embora a contragosto e sem admiti-lo em público. v. A substituição do mundo da experiência pelos modelos matemáticos trouxe consigo a mania da uniformização. Na pintura. das correspondências e das simpatias em que reverberavam umas às outras as partes de um gigantesco organismo vivente. Nos jardins de Versalhes. Plon. Mas. nem por isto terá sido sensato atirar ao lixo. Um dos primeiros humanistas da Re108 “Eis por que é preciso ter aprendido quais as exigências que se devem trazer a cada espécie de ciência. mas somente quando se trata de seres imateriais. onde já não há mais lugar para a incerteza nem para o pecador. a. irregular ou estranho.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 101 aspectos. o tecido complexo das analogias. Por isto o método matemático é inaplicável à Física. Arnauld & Nicole — eram católicos fervorosos empenhados em fundar numa construção racional perfeita a conversão dos descrentes. com dois milênios de antecedência. sob o sopro dos novos tempos. Dos fundadores do racionalismo. e não da realidade sensível 107. O 107 espírito geométrico marca a idade clássica em todas as suas dimensões: da filosofia científica à moral religiosa. necessitava excluir. simplesmente. os principais — Descartes. para sustentar a ilusão do mecanismo perfeito. um incêndio devastador em plena Idade Moderna. a perspectiva horizontal e matemática substitui a perspectiva vertical e simbólica. da simplificação geométrica que. Allen & Unwin. The Encounter of Man and Nature. notadamente. Malebranche. existir na natureza um resíduo irracional e incognoscível. 1965. o fundamento de sua própria existência.” ( Metafísica. A liquidação das bruxas deriva muito menos da pura e simples defesa da ortodoxia do que de uma nova maneira — geométrica e purista — de compreender a ortodoxia. o arcabouço teórico e metodológico da sua Física. a ciência renascentista deu-lhe razão no fundo. desde a fundação do Santo Ofício em 1229 até os grandes autosde-fé dos séculos XVI e XVII. quer juntos. na medida em que. . a natureza multiforme é substituída pela regularidade de um tabuleiro de xadrez. e nenhum dos dois objetos é fácil de apreender.

o que ainda aumenta mais. A Companhia de Jesus afirma-se desde o início como um utopismo reformista. Afonso. aos olhos da multidão. a desaparição do deus infinito expande desmesuradamente o panteão cósmico.102 OLAVO DE CARVALHO nascença. Apenas digo que ela atende menos a uma necessidade intrínseca da fé cristã do que a uma necessidade extrínseca imposta pelas condições da época. Os exemplos poderiam multiplicar-se ad infinitum. alguma coisa de ascético. Enéas Sílvio Piccolomini. sentimentalistas e românticas no domínio religioso. Afonso de Ligório. o espírito de formalismo legalista vai tomando posse da religião cristã em medida tal. A Crise do Mundo Moderno. de fato. seu efeito foi a de diluir na consideração da infinitude espacial a capacidade humana da intuição espiritual. ao contrário. no sentido de um esforço de oporse à natureza. Agir. sob o impacto das idéias de Nicolau de Cusa. ( 4ª ed.êta país ingrato! 110 Por toda parte. dezoito séculos após a vinda do Salvador. A matematização da natureza é empobrecimento sensorial. em substituição à espiritualidade religiosa. que hordas de almas oprimidas sob o peso dos regulamentos encontrarão mais tarde alívio no protestantismo romântico 111. 111 Sobre a ascensão progressiva das doutrinas irracionalistas. Depois disso. mas é necessária à economia interna da mentalidade racionalista 110. que vai varrer do mundo o pecado e instaurar a ordem social racional — mesmo que seja num cafundó latino-americano. Mas é uma ascese puramente cerebral. Não vai nisto o menor intuito de depreciar a obra de Sto. completa-se alguns séculos mais tarde na Teologia Moral de Sto. indo direto à infinitude metafísica e passando por cima de todos os indefinidos meramente quantitativos da ordem cósmica. é apenas o primeiro sintoma da tendência centrífuga que daí por diante se apossaria da intelectualidade européia. É preciso ser cego para não ver no seio mesmo da Contra-Reforma (que uma simplificação boba toma unilateralmente como uma reação conservadora) o influxo das novas concepções racionalistas e platonizantes. que se anuncia no concílio de Trento. os cristãos recebem o formulário completo de seus deveres e direitos. vivendo na incerteza de um mero empirismo bem intencionado? A resposta é: a racionalização do código moral não é necessária à salvação. 1955 ). do Pe. para concentrar-se na única coisa necessária. nascida. O processo iniciado por Nicolau de Cusa encontrará sua culminação quatro séculos depois com Augusto Comte. J. resolvido por métodos matemáticos. religioso em suma. Aí. tornou-se nada menos que Papa. Nela está a raiz da perversão moderna que atribui à ciência natural a tarefa de guiar espiritualmente a humanidade. Que. porém. como teria podido esperar tantos séculos para vir à luz? Que teria sido de tantas gerações de cristãos dos séculos anteriores. um dos grandes livros brasileiros que já nenhum brasileiro lê —. assim. que fará explicitamente da ciência natural uma religião.. Leonel Franca. espiritual. De imediato. apenas sem ganho espiritual. segundo uma hierarquia lógica rigorosa que não admite exceções. a salvação torna-se um problema de lógica jurídica. o prestígio sacerdotal da casta dos cientistas. Se uma perfeita discriminação e catalogação dos deveres morais fosse absolutamente necessária à salvação. v. pela primeira vez na história do Cristianismo. criação absolutamente genial pela qual os filósofos demonstram um desinteresse verdadeiramente patológico. A falta do ganho espiritual é em seguida compensada pela riqueza das aplicações técnicas advindas da ciência. e da casta científica um clero. Giordano Bruno tenha desenvolvido as fantasias mais exacerbadas a propósito da pluralidade dos mundos habitados. Rio. a substituição da realidade sensível pelos seus equivalentes racionais e matemáticos vai se impondo. dúvidas ou nuances de qualquer espécie: a moral cristaliza-se num sistema axiomático. numa proliferação ilimitada dos focos de atenção espiritual. como um sucedâneo mundano da ascese espiritual. Tal como entre os primitivos bantos. O equívoco funda-se numa visão estereotipada — e bem materialista — do ascetismo religioso como mero empobrecimento sensorial. A redução da religião a um mero sentimento interior jamais teria encontrado eco se não fosse precedida pela redução da religião a um juridicismo racionalista. A racionalização do dogma. logo em seguida. A fuga do mundo real para o dos esquemas ideais matemáticos tem. sem verdadeiro sentido moral. cada vez mais absorvida na variedade da manifestação cósmica e cada vez mais distante de todo princípio metafísico capaz de fundar critérios legítimos de validade do conhecimento. s. .

La Gnose de Princeton. Eis aí como. Quando saiu a primeira edição. como matéria rarefeita. por força delas mesmas. no século XX. no mundo moderno. fiz na revista Planeta os maiores elogios aos garotões de Princeton. no sentido de Huizinga 112. isto é. denominou “materialismo espiritual”. da ampliação do universo sensível inaugurada no Renascimento. Eis aí como uma cosmovisão de um primarismo deprimente pode conviver. e em resposta levei um discreto puxão-de-orelhas de Octávio de Faria.. Coincidência nada fortuita: o afluxo maciço de militantes socialistas às fileiras do espiritismo e do ocultismo — um dos fenômenos mais marcantes da vida mental das classes letradas no século XIX — mostra a existência de uma afinidade entre essas duas correntes de idéias aparentemente antagônicas. Cap. marcada. sem a menor preocupação de indagar se algum dia esses modelos foram levados à prática 113. passassem a ser tomadas como espirituais as forças da natureza cósmica simplesmente mais sutis e afastadas da realidade sensível imediata. acabasse chegando. a diferença de planos entre a tinta em que se imprime estas letras e o espírito do autor que as escreveu pudesse ser transposta com a maior facilidade mediante a simples diluição progressiva da tinta. Uma certa perda do senso de realidade parece uma doença profissional crônica da classe dos cientistas. com certeira concisão. sobretudo dos físicos. e de outro pela necessidade de uma mise-enscène “científica” para os mitos grosseiros com que vai satisfazendo como pode a ânsia do maravilhoso que. Eis aí também como é possível. na fantasia pueril do materialismo epicúreo. astrofísicos. o ocultismo e o espiritismo. nela. em 1974. explicarão o espírito como uma sutilização ou diluição da matéria. afinidade que se explica facilmente pela sua origem comum na cosmovisão renascentista. Mas ao mesmo tempo que os “espirituais” Allan Kardec e Madame Blavatski restauravam assim sem sabê-lo a física epicúrea. pelas páginas da Última Hora do Rio. o materialista Karl Marx redigia sua defesa de Epicuro contra Demócrito. 2e. com os conhecimentos científicos mais elevados e complexos. XVI. elevá-lo às supremas alturas do conhecimento espiritual — privando-o. É mais aterrador ainda ver como essa gente se V. Os “deuses astronautas” atendem em toda a linha os requisitos da imaginação moderna. com freqüência — e não só por populares ignorantes — como um verdadeiro sinônimo do espírito. seria inerente à idéia de ciência. e já não têm mais o espírito de elevada seriedade que. por exemplo. chegamos à concepção dominante de um universo totalmente achatado. não é de estranhar que.. Não é nada estranho que. ao culto dos extraterrestres. Esta concepção provocou. astrônomos. pela “sutilização” do corpo do discípulo. onde toda a diferença entre as camadas superiores e inferiores se reduz à escala quantitativa do grosseiro e do sutil. de direito. nas cabeças de muitos pensadores de hoje. matemáticos etc. tendo pretendido superar toda mitologia religiosa. Fayard. como se. pela confusão entre o céu visível e o céu espiritual. interpretada retoricamente: a noção física de “energia”. Foi a esta caricatura que o Dalai Lama.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 103 No curso desse processo. será tomada. 1977. por essa via. Penitencio-me agora ante o grande romancista: ele tinha razão. a disseminação de milhares de pseudomísticas e pseudo-esoterismos que prometem. Paris. É aterrador ver como os cientistas da comunidade que Raymond Ruyer denominou “gnósticos de Princeton” se divertem concebendo “modelos de universo”. tidos como espiritualmente prejudiciais. Raymond Ruyer. V. substitui a autêntica sêde espiritual. Meu artigo estava muito certo em diagnosticar a formação de uma nova casta sacerdotal composta de 113 112 . acostumados a viver num universo de concepções admitidamente fictícias. por exemplo. como se o enfraquecimento do corpo fosse por si um mérito espiritual e como se não pudesse haver místicos gordos ou santos musculosos. a civilização do Ocidente. unidimensional e opressivo. enquanto oposta à matéria densa do mundo visível. Nas Sombras do Amanhã. perdida a via de acesso à espiritualidade autêntica. Des Savants à la Recherche d’une Réligion. Homens adultos que encaram a vida como puro jogo estão gravemente afetados de puerilismo. de alimentos densos em proteína. coeridas somente pelo convencionalismo de uma regra de jogo. um filósofo imbuído das concepções mais modernas e avançadas recair. No século XIX. por cima de dois milênios de evolução do pensamento. de um lado. éd. A doutrina da sutilização encontrará na entrada do século XX um poderoso suporte verbal na nova física de Einstein e Planck. amplamente disseminados entre as camadas letradas.

Cap. 2. como observara Octávio de Faria. As especulações de Princeton.. segundo ele 115. Mas no campo das matemáticas foi o deslumbramento com a idéia do infinito espacial e quantitativo que levou a mente humana às piores esquisitices.. quando proclamou ter superado a noção da ciência antiga. da “hipótese Deus”.. Cantor e seus epígonos acreditavam estar derrubando. a parte seria igual ao todo: 1. 6. após ter assim derrubado a física antiga. conseguiu apenas explicar por que ele permanece parado. Valter Pontes. vejo agora. 3. Reinventando o Universo. exatamente como o dizia a física antiga. então teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro. quisermos destacar por signos ou cifras especiais os números que representem pares. I. Wittgenstein e Frankenstein. 114 Cit. sendo ambos infinitos.. nunca atual. em John Brockmann. e bem pouco engenhoso no fundo. esclarecia discretamente que o movimento retilíneo e uniforme não existe realmente. Esse raciocínio baseia-se na suposição de que tanto o conjunto dos números inteiros como o dos pares são conjuntos infinitos atuais. pode ser posto em correspondência biunívoca com ele. Gertrude Stein. se o objeto não movido de fora permanece parado ou tem um movimento fictício. mesmo aceitando-se o pressuposto dos infinitos atuais. pelo atalho gnóstico. mediante um novo sistema de medições. O dogma da sua própria honestidade intelectual intrínseca parece impedir os físicos de perguntar se não há algo de errado no que estão fazendo. Galileu não contestou a física antiga. embora sendo parte do conjunto dos números inteiros. um escritor científico de sucesso. que o infinito quantitativo é só potencial. descortinando assim os horizontes de uma nova era do pensamento humano. um objeto em tais condições. 8 . Na realidade. e se. junto com um princípio da geometria antiga. Einstein e Infeld.. e que Galileu. 2. cada uma das quais atingindo em suas conseqüências um alto grau de concordância com a experiência” 114. “O caráter fictício dos princípios. dizia Einstein. mas é uma ficção concebida pela mente para facilitar as medições. Mas. A Evolução da Física. E. rigorosamente. os dois conjuntos terão o mesmo número de elementos. reconhece que os físicos hoje em dia “já não sabem do que estão falando”. não tem em si a prova da sua veracidade — coisa que já era arroz-com-feijão desde o tempo de Aristóteles. nesse conjunto.104 OLAVO DE CARVALHO acomoda a todos os piores ilogismos. é verdade que. cientistas. Foi este episódio que inaugurou a mania dos cientistas modernos de tomarem simples mudanças de métodos como se fossem “provas” de uma nova constituição da realidade. isto significa. pontificava. Em primeiro lugar.. onde o requinte dos argumentos engenhosos coexiste com a total falta de sensatez. 4. teremos aí um conjunto ( infinito ) de signos ou cifras. que ele permanece parado em todos os casos. permanece parado ou em movimento retilíneo e uniforme. Brockmann. e ele pode portanto ser rejeitado por quem acredite.. é perfeitamente evidenciado pelo fato de ser possível apresentar duas bases essencialmente diferentes. São Paulo. e. de modo que os dois conjuntos teriam o mesmo número de elementos e. 1988. n 2n = n Com esta demonstração.. mas acha isso divino-maravilhoso. se representarmos os números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ). 4 . Mas isso é confundir os números com seus meros signos. assim. Companhia das Letras. eram apenas um gigantesco esforço de pedantismo espiritual para fugir. trad. também uma crença estabelecida do senso comum e um dos pilares da lógica clássica. vendo neles um defeito da realidade mesma e jamais da estrutura da sua ciência. Einstein. Só para dar um exemplo: O célebre Georg Cantor acreditou poder refutar o º 5 princípio de Euclides ( de que o todo é maior que a parte ) pelo argumento de que o conjunto dos números pares. a demonstração de Cantor é apenas um jogo de palavras. sendo verídico o bastante. e que o testemunho dos sentidos. mas não em festejar esse acontecimento. apenas inventou um modo melhor de provar que ela tinha razão. com Aristóteles. 115 V. Mas um fundo de charlatanismo parece já ter sido introduzido na física por Galileu. Ora. confirmando o argumento de Cantor. Ou seja. segundo a qual um objeto não impelido por uma força externa permanece parado — uma ilusão dos sentidos. fazendo injustificada abstração .

independentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais números (inclusive. Que sofismas tão grosseiros possam passar como sérias ameaças aos fundamentos da geometria clássica e mesmo aos princípios da civilização que herdamos da tradição greco-romana. é porque tanto n + 1 como n . um só de pares. Se a série dos números inteiros pode ser representada por dois conjuntos de signos. “Paridade” e “lugar na série” são conceitos inseparáveis: se n é par. de uma refutação do 5º princípio de Euclides. contada ou nomeada de uma determinada maneira. A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”. No seu “argumento”. O conjunto dos números inteiros pode conter mais signos numéricos do que o conjunto dos números pares — já que abrange os signos de pares e os de ímpares —. destacada abusivamente da noção de “série”. Não se tratando de um verdadeiro todo e de uma verdadeira parte. A série dos números pares só é composta de pares porque é contada de dois em dois. ocasionando a exacerbação imaginativa do conceito de infinitude espacial e quantitativa. quando o fato é que.1 são ímpares. portanto. Nesse sentido. ora usando-a para designar uma quantidade definida com propriedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um certo lugar na série dos números e a de poder ser par ou ímpar ). e sim a quantidade 4. Portanto — e eis aqui a falácia de Cantor —. os números não seriam pares. abolindo implicitamente também a distinção mesma entre pares e ímpares. encarna de maneira exemplar. a cifra. abstraída a posição na série. ora para designar o mero signo de número. é claro. Cantor erra o alvo por muitos metros. supondo que um número qualquer possa ser par “em si”. que aquela tradição. mas não uma maior quantidade de unidades do que a contida na série dos pares. mas não o mesmo número de unidades. pois o conjunto dos números pares não seria de pares se seus elementos não pudessem ser ordenados de dois em dois numa série ascendente ininterrupta que progride pelo acréscimo de 2. a longo prazo. é apenas o sinal da revolta impotente da imaginação matemática exacerbada contra a ordem real das coisas. no fundo. danos profundos à inteligência humana. contada de duas maneiras: a série dos números pares não é realmente parte da série dos números inteiros. e que os pares possam ser contados como coisas e não como meras posições intercaladas na série dos números inteiros. não se pode falar então de uma igualdade de elementos entre todo e parte. com base nela. que ultrapassam uma perda meramente estética para reverberar numa destruição do fundamento racional das ciências. não há aqui duas séries de números. não se trata de uma verdadeira distinção entre todo e parte. trazer. não poderia deixar de. os princípios lógicos . mas é a própria série dos números inteiros. isto não significa que se trata de duas séries realmente distintas. não há mais paridade ou imparidade nenhuma. com sua própria metade). “2” é um signo. Uma das estratégias a que se recorre para esse fim é a de apelar ao testemunho da experiência científica para tentar invalidar.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 105 das propriedades matemáticas que definem e diferenciam os números entre si e. além do “desencantamento do mundo”. nunca de 1. A perda do sentido da infinitude metafísica. “4” é um signo. A noção de “conjunto” é que. outro de pares mais ímpares. e nenhum número poderia ser considerado par se pudesse livremente trocar de lugar com qualquer outro na série dos inteiros. portanto. diversamente denominado. Um conjunto de x unidades contém certamente o mesmo número de “elementos” que um conjunto de x pares. mas não é o signo “4” que é o dobro de 2. ou seja. substancializar ou mesmo hipostasiar a noção de “par” ou “paridade”. produz todo esse samba-do-alemão-doido. A tese de Cantor escorrega para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo sentido da palavra “número”. com todos os seus defeitos e limitações. isto é. saltando-se uma unidade entre cada dois números. na qual se baseia o pretenso argumento. De nada adianta aqui recorrer ao subterfúgio de que Cantor se refere ao mero “conjunto” e não à “série ordenada”. O que Cantor faz é. é unicamente a soma implícita das unidades não mencionadas que faz com que a série de pares seja de pares. mas uma única. dando a aparência de que os números pares podem constituir um “conjunto” independentemente do lugar de cada um na série. mas sim de uma comparação meramente verbal entre um todo e o mesmo todo. nem. seja ela representada por esse signo ou por quatro bolinhas. se não fosse contada assim.

independentemente de não terem uma unidade substancial. e o que não se compreende é como a criança poderia passar de um nível de abstração a outro sem a permanência do senso de identidade. que é apenas uma unidade convencional. várias reedições ). De outro lado. sem acréscimo de nenhuma. da diferença da capacidade de abstração entre adulto e criança (ou crianças de idade desigual). “Quando sete bolinhas se tornam oito ou nove como um elástico de sete centímetros que atinja oito ou nove. ou substantia secundum quid. mas reconhece a filosofia como uma “atividade de coordenação dos valores. 83 da edição Os Pensadores ( São Paulo. Essa passagem requer uma subida do grau de abstração.106 OLAVO DE CARVALHO que validam por sua vez a idéia mesma de experiência científica ⎯ o que é mais ou menos o mesmo que tentar cobrir um cheque sem fundos mediante depósito constituído do mesmo cheque. Um triste exemplo é Jean Piaget. no conjunto aumentado para oito bolinhas. que é autor de um Tratado de Lógica. no sentido aristotélico ( “este coelho é este coelho”). ele contesta a universalidade do princípio de identidade. É preciso estar dormindo ou hipnotizado para não perceber que. o garoto apenas mostrou perceber que o aumento e a diminuição não alteram a identidade. muitos pensadores científicos — inclusive alguns bem grandes — chegam a apelar para subterfúgios perfeitamente indignos de homens de ciência. garante que elas são oito ou nove tão logo sejam alinhadas com intervalos maiores. é claro que é mais fácil reconhecer a identidade de uma substância dotada de unidade real. e é algo que os adultos percebem da mesmíssima maneira que ele. inclusive cognoscitivos” ( isto é. mas o que é que isto tem a ver com a universalidade (ou não) do princípio de identidade? O que houve no caso foi apenas uma dualidade de significados atribuídos ao termo “bolinhas”: o experimentador referia-se ao conjunto aritmético — abstrato — das sete bolinhas. sem o espaço. como o próprio Piaget mostra em outros trabalhos. o menino teria de subir 116 P. o garoto à figura concreta das bolinhas distribuídas num determinado espaço. Mas como é que um princípio de coordenação poderia não ser de algum modo “superior” aos ele- . senão não escreveria essas coisas. por assim dizer. a diferença dos respectivos sensos de identidade? Ao contrário: o erro cometido pelo garoto subentende uma consciência da identidade absolutamente igual à das pessoas adultas. no caso. tendo contado sete bolinhas. Em Sabedoria e llusões da Filosofia 116. o garoto simplesmente não distinguiu entre quantidade discreta (o número de bolinhas ) e quantidade continua ( a distância linear ocupada). Deduziu errado. Ora. mas esqueci quais. Que os todos matemáticos devam ser encarados como unidades. um “todo matemático”. Em sua hostilidade irracional contra a idéia mesma de princípios universais. encarando o conjunto como uma síntese confusa de ambas. Aliás Piaget. mais um grau de abstração. Abril. ele teria de ser um menino um pouco mais velho. Esse expediente pueril é a marca registrada do psicologismo (redução das relações lógicas a “fenômenos da mente”) — um estilo de pensar que continua desfrutando de certo prestígio nos meios universitários pela única razão possível de que ninguém aí leu sua refutação por Edmund Husserl. é perfeitamente ilógico sempre que trata de situar as relações entre ciência e filosofia. que a de um “conjunto”. o que é perfeitamente aristotélico. os valores que balizam a cientificidade da ciência ). caso contrario ele não poderia reconhecer. para o que.” Deve ter mesmo esquecido. uma quase-substância. Piaget pretende ver uma dualidade de princípios lógicos onde há apenas uma diferença entre os aspectos percebidos por dois indivíduos num objeto que ambos sabem ser o mesmo. como deduzir. Ed. e do aumento da quantidade contínua deduziu o da quantidade discreta. eis aí algo que a criança só poderá admitir quando sua mente for adestrada para aceitar como premissas do raciocínio os convencionalismos matemáticos. é o mesmo princípio de identidade ou um princípio um pouco diferente?”. o mesmo conjunto que antes tinha sete. pergunta Piaget. Para levar em conta somente as bolinhas. Ele rejeita toda pretensão da filosofia a constituir um conhecimento “superior” à ciência ( e mesmo de constituir um conhecimento qualquer ). fundando-se no exemplo do garoto que. E ironiza: “Meus filósofos tinham respostas prontas.

pp.U. Paris..O JARDIM DAS AFLIÇÕES 107 mentos coordenados? E como seria possível coordenar valores de veracidade científica sem fundar-se num critério de veracidade cujos fundamentos fossem admitidos como verdadeiros e dotados. eles abalaram não somente a confiança nas ciências existentes. não é de espantar que. não se dá conta sequer de que deduzir do fato da confusão entre bolinhas e espaço uma dualidade de princípios lógicos não é outra coisa senão passar do fato ao valor — um psicologismo dos mais descarados. 7-8. mas no ideal mesmo de ciência. A divinização da História fará. neo-relativismo. Éssai d’une Critique de la Raison Logique. Suzanne Bachelard. em si. Kuhn e Michel Foucault enfim reduziram a história das ciências à sucessão mais ou menos arbitrária de “paradigmas”. perfeitamente evidentes.” mente válido. ou vertical.. Sua força de impulsão interna não é mais constituída por aquele radicalismo que. cujo prestígio elas tinham simplesmente usurpado. foi compensada pela descoberta das duas dimensões horizontais do mundo físico. neo-epicurismo — é o cortejo todo dos velhos irracionalismos que retorna à cena. epistemes ou pré-esquemas cognitivos semiconscientes que entram e saem de cena por motivos geralmente irracionais. não se somassem as do tempo. logo a seguir. como se ela não estivesse. A perda do sentido da infinidade metafísica. Quando erros tão primários se introduzem nas mais altas cogitações científicas e ninguém se dá conta de sua presença. 1957. acrescentando o toque final de demência sem o qual não estaria completa a saga alucinante dos deuses do espaço. às divindades do espaço. os fracassos de uma ciência assim degradada viessem a ser tomados como argumentos contra a possibilidade mesma de qualquer conhecimento científico universalEdmund Husserl. — (I) A força dos meios Mas a descida do foco de atenção espiritual que preenche o vazio deixado pela Divindade suprema mediante a multiplicação dos deuses cósmicos não estaria completa se. Destituídas a um tempo a rainha autêntica e a falsa. 117 . portanto. muito abaixo das possibilidades contidas no próprio conceito de “ciência”. o papel do culto dos antepassados entre os Yorubas abandonados por Olorum. como se essa ciência fosse a única possível.F.. Piaget. trad. o trono foi entregue à ambição de todos os antigos pretendentes: neopragmatismo. ademais. § 21. que admite como um dogma o pressuposto kantiano de que não existe passagem do fato ao valor. coloca continuamente a exigência de não admitir nenhum saber para o qual não seja possível dar conta em razão de princípios originalmente primeiros e. À revelação Dado esse estado de coisas. Logique Formelle et Logique Transcendantale. nova retórica. P. de validade cognitiva? No fim das contas. no Ocidente. A divinização do tempo. é que o diálogo acadêmico se tornou algo como a conversação de hipnotizados no jardim de Epicuro ou como uma sessão do Santo Daime — todo mundo doidão. Quando Thomas S. contentando-se em atender às exigências de praxe de um protocolo “experimental” no qual já nem acredita mais e cujos fundamentos já desapareceram sob grossas camadas de esquecimento. que agia de maneira vivente nas ciências desde Platão. É que a ciência desistiu de ser científica. ela abandonou o radicalismo da auto-responsabilidade científica. de fato. Edmund Husserl descreve nestes termos a decadência do ideal científico nas ciências do século XX 117: “A ciência moderna abandonou o ideal de ciência autêntica.

muito menos a uma idolatria do abstrato. Uma de suas primeiras manifestações da nova mentalidade é a estética do Conde de Shaftesbury (1671-1713). por dar às suas idéias uma expressão talvez demasiado informal e literária. formando duas culturas separadas e hostis. Nenhuma descoberta se faz sem instrumentos. assim também a crítica histórica. a matéria não poderia. E assim como a ampliação quantitativa do universo físico conhecido produz a dispersão da inteligência numa poeira de fatos cada vez menos dotados de significação metafísica. A unidade idêntica de nossa própria personalidade não pode arraigar-se na matéria. de que se originarão o historicismo e o progressismo. a descoberta de novos e poderosos instrumentos intelectuais abre ao homem a visão de continentes insuspeitados. ao sensível. 3ª. ao singular. quer dos escolásticos. o advento do historicismo não teria sido possível sem a crítica histórica. de uma reação contra o abstratismo. Até aqui. engendrar as plantas. por um movimento mecânico. Do mesmo modo. assim também a compreensão aprofundada dos detalhes filológicos do texto bíblico gerará polêmicas sem fim nas quais acabará por perder-se o sentido essencial do conjunto. pairando no céu das idéias puras . 2ª. dinâmico. acabou por vê-las rotuladas pela posteridade como the sublime of nonsense — sinal de que foi muito amado. Em ambas essas linhas de desenvolvimento. mas a ampliação do leque de coisas visíveis se faz às custas da perda do senso de unidade e hierarquia do real. na “idéia”. em lugar da “natureza humana” abstrata e universal. Segundo o grande historiador do historicismo. a visão do universo como um processo vivente. O historicismo oporá a essa concepção três novas idéias: 1ª. a visão da inesgotável variedade dos tipos e das individualidades. nada tem que se pareça nem de longe a uma nova idolatria.108 OLAVO DE CARVALHO da infinitude espacial seguiu-se a da infinitude temporal: ao materialismo seguiram-se o historicismo e o progressismo. Segundo Shaftesbury. nasce de um desejo de compreender melhor as Santas Escrituras. e que após o Renascimento adquirira um novo vigor através da concepção do direito universal — uma norma moral abstrata e universal imbricada na constituição do cosmos com a fixidez de uma lei física. a descoberta do senso histórico origina as ciências humanas. Nicolau não poderia ter captado a infinitude espacial sem o prodigioso desenvolvimento da dialética na Idade Média. Ambos os movimentos que geraram a irreligiosidade moderna originaramse de dentro do campo religioso e sob o estímulo de impulsos religiosos. a qual se corrompe e se desfaz sem que a nossa pessoa se desfaça junto. Friedrich Meinecke. não é o conceito de um gênero ou uma regra abstrata universal. mas pouco compreendido. Ele nasce. Mas essa “idéia”. na força normativa e estruturante. Tanto a causa do ser quanto sua beleza e o princípio de sua permanência idêntica residem na forma. O historicismo. quer dos racionalistas e empiristas. a intuição da personalidade humana como um processo que se desenvolve e se cria no tempo. em lugar do cosmos fixo e repetitivo do racionalismo mecanicista. onde há lugar para o imprevisto e a criatividade. Ela opera uma ruptura do pensamento europeu com o universalismo abstratista dos gregos. Assim como a cosmologia de Nicolau pretendia dar uma nova visão da natureza que fosse mais digna de representar a manifestação da infinitude divina. onde todas as tentativas de conciliação e síntese têm falhado. para ele. mas entraram desde logo num antagonismo aparentemente insuperável: a ampliação do espaço gera as modernas ciências físico-matemáticas. animais e homens. Shaftesbury não fala diferentemente de um platônico ou neoplatônico. assim como Galileu e Newton não poderiam ter formulado cientificamente a mesma idéia se contassem apenas com os recursos matemáticos de Arquimedes ou Nicômaco. cuja visão da natureza humana como uma essência fixa e imutável permanecera dominante apesar de todas as mutações espirituais da Idade Média. um grande pensador que. em suas origens. a descoberta da dimensão histórica foi uma revolução espiritual de vasta envergadura. O sintoma mais agudo dessa perda é que as duas novas dimensões descobertas nunca puderam ser articuladas entre si. com efeito. nasce de um sadio movimento em direção ao concreto.

o conhecimento mais seguro não é o da física. ordem e a harmonia. que são criações dele mesmo. 1943 ( original alemão de 1936 ). Vico já não se limita. mas de uma fase para outra no desenvolvimento de um mesmo povo e de um . El Historicismo y su Génesis. mas porque cada ser individual tem em si. que brotam de um ponto central interior.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 109 acima das individualidades concretas: ao contrário. Se a pluralidade inesgotável das individualidades não se perde no caos e na confusão. Logo. Shaftesbury chama-a inward form. como História. México. Ela enfatiza que toda a realidade é composta de individualidades. a base dos conhecimentos humanos. a lei suprema do universo é a lei da individualidade irredutível. que tomava em geral as ciências físicas e matemáticas como o protótipo mesmo do conhecimento seguro. Tudo quanto se cria ou é criado comporta estrutura e forma e. é de novo forma estruturadora. isto não se deve a um desvio da realidade sensível em relação a uma norma abstrata de perfeição. Friedrich Meinecke assim resume a contribuição de Shaftesbury à formação do historicismo 118: “O mais importante nesta doutrina é o primeiro reconhecimento do princípio de individualidade. Ele é. ela reside na individualidade concreta. Todas as formas particulares. do homogeneamente idêntico. O homem. Se não há dois seres humanos iguais ou duas folhas de árvore iguais. temos de penetrar no conhecimento de suas diferenças — não só de indivíduo a indivíduo e de povo a povo. José Mingarro y San Martín y Tomás Muñoz Molina. a imagem do universo inteiro. no Ocidente. Os homens. Como a natureza não foi feita pelo homem. conhece muito bem os seus atos e pensamentos. mas no eu concreto. mas um indivíduo singular vivente. Deus mesmo não é um conceito universal abstrato. cada uma irredutivelmente singular e diferente de todas as demais. através da ação da vida. p. Cada ser singular tem em si uma força interior espiritualmente estruturadora que o singulariza e que é como que o algoritmo de todas as transformações por que ela passará no curso de sua existência. Por toda parte uma interação de liberdade e necessidade. raramente são movidos por concepções filosóficas racionais e coerentes: em geral eles agem cada qual por motivos subjetivos. Nadando na contracorrente de sua época. FCE. A essas individualidades infinitas Leibniz denominava mônadas. inward order. uma riqueza de estruturas peculiares. trad. por seu lado. O terceiro passo foi dado por Giambattista Vico. egoístas e irracionais. não é porque desde fora e desde cima uma lei universal oprima e regre o curso das ações individuais.” O passo seguinte na formação da consciência historicista vem com a filosofia de Leibniz. Vico assegurava que cada ser só pode conhecer perfeitamente bem aquilo que ele próprio faz. não está. recriando-se continuamente. na sua própria constituição interna. cujo pensamento foi solenemente ignorado pelos contemporâneos. Para entendermos o curso das coisas. e sim por Deus. o macrocosmo de microcosmos que refletem a infinitude da unidade suprema na forma por assim dizer quantitativa da infinitude de suas imagens microcósmicas. sendo portanto o princípio da conservação da unidade na mudança e pela mudança. inward character e outros nomes compostos sempre com inward. num eu pensante abstrato e universal. na medida em que não se formou uma mera corporeidade. inward structure. O verdadeiro cogito. que nada tem existência sob a forma do genérico. mas ergue o edifício inteiro da nova filosofia — a interpretação da realidade como processo. que se recorda de suas ações e pensamentos e pode narrá-los. têm seu “gênio” particular. mas o da História. como imaginava Descartes. quase sempre mesquinhos. de uma idéia formadora. como seus dois grandes antecessores. a lançar fundamentos. inward constitution. cada uma total e completa em si mesma. que se torna sempre patente em sua beleza. só Deus tem um conhecimento certo e perfeito da natureza. ela é o princípio interno da sua diferenciação. se por toda parte impera a 118 Friedrich Meinecke. o primeiro a enfatizar as diferenças de temperamentos e inclinações entre indivíduos e povos como causas dos grandes acontecimentos. Todos estes pensamentos podiam um dia dar passagem a uma mais profunda compreensão da história. O universo compõe-se de universos. um obscuro professor de retórica da Universidade de Nápoles. da sua singularidade. assegura ele. ainda que em última instância sejam redutíveis a um princípio comum unitário. que lhes é inerente. cegos. mas sim a que a norma mesma. 27.

No homem confluem. É inteiramente errônea a visão estereotipada da Idade Média como o período da filosofia cristã por excelência. não produz como efeito apenas o caos. E respondia: para o homem. onipotente: logo. na imortalidade da alma individual). o filósofo grego tendia a vê-las como uma imagem e semelhança das coisas do mundo sensível. resultou numa divinização idolátrica do tempo e do processo histórico. É mais do que evidente que um ser assim constituído não pode ser eficazmente descrito por uma antropologia coisista. É que toda a herança do pensamento grego era centrada na noção do cosmos. Esses três pais-fundadores do historicismo estavam. de ordem interior. ao descrever a história como história da consciência. e por isto mesmo. Mesmo quando falava de realidades espirituais. Ora. tendia a fazê-lo nos mesmos termos com que falava das coisas do mundo externo. da analogia. Do mesmo modo. buscando nele o mesmo tipo de estabilidade e fixidez que o estudo das ciências físicas buscava nas leis da natureza. das correspondências simbólicas. perguntava o catecismo da nossa infância. o Doutor Sutil. é porque há uma força maior que. individual ou coletivamente. Para usar o termo genial de Ortega y Gasset. forjar seu destino. querem coisas diferentes. A escolástica medieval deu passos gigantescos no sentido de cristianizar a filosofia. Vico. mas não pôde livrar-se completamente do resíduo coisista. a ênfase de Leibniz na singularidade como princípio do real é um eco da hæceitas scotista. A visão de uma pluralidade de ações más produzindo um resultado bom é profundamente cristã. não é o homem que tem de ser descrito à imagem e semelhança do cosmos. por um lado. As coisas sucedem diferentemente porque em épocas diferentes os homens. do alto. mas o cosmos à imagem e semelhança do homem. com todas as diferenças irredutíveis que os singularizam. É impossível não ver em Shaftesbury a marca da mística neoplatônica. Teilhard de Chardin. Sua liberdade reflete a Infinitude divina. na verdade. com sua visão do universo como uma harmonia vivente. coerido pelos laços da simpatia. e este à imagem e semelhança de Deus. e da Idade Moderna como época da ruptura da filosofia com o cristianismo. hostil à doutrina cristã da imortalidade da alma (Aristóteles. ao expressar-se em atos. Se o conjunto inesgotável das motivações individuais. o homem está exteriormente sujeito às leis cósmicas e interiormente à lei moral. O pensamento grego era fundamente marcado por uma visão objetivista-exterior. que é rebaixado à função secundária de um cenário ou de um reflexo do drama principal. era um pensamento coisista: via o homem à imagem das coisas. que o encare como essência fixa sumetida à operação de leis de causa-e-efeito uniformes como aquelas a que estão sujeitos os corpos do . não acreditava. acredita piamente na Providência. queda e redenção do homem. Scot acreditava que a hipótese contrária era um resíduo pagão. divergira de toda a tradição escolástica para afirmar que não existem idéias eternas ou modelos universais somente das espécies e gêneros.110 OLAVO DE CARVALHO mesmo indivíduo. como imagens dos dois atributos divinos fundamentais — a Infinitude e a Absolutidade — as duas correntes contrárias da liberdade e da necessidade. O homem. de fato. Mas Deus é Absoluto. O homem. como veremos adiante. e em última instância no culto de uma idéia abstrata. mas dos indivíduos. o “progresso”. como epopéia da criação. o pensamento cristão é centrado na relação homem-Deus. Além do fato histórico de que todos os fundadores da filosofia moderna eram cristãos piedosos e movidos por intuitos apologéticos declarados. da natureza sensível. quando falava do homem. tomada como o protótipo mesmo da realidade. Vico. saltando por cima do cosmos. o último dos grandes escolásticos medievais. por seu lado. Para quem Deus fez o mundo?. para quem o conhecimento a rigor versa somente sobre os gêneros e as espécies. centro de perspectiva da criação cósmica. dirá o Pe. resgatando valores da espiritualidade antiga e medieval soterrados sob a uniformização racionalista. a filosofia moderna é cristã por um motivo muito mais fundo. saltava sobre quase dois milênios de herança grega para voltar à visão do Gênesis. Mas os primeiros passos na direção do historicismo devem ser considerados marcos memoráveis no sentido da cristianização da filosofia. harmoniza as várias ações humanas no sentido de um resultado benéfico. é livre para tomar suas decisões. o qual se passa na alma humana. O historicismo. Logo. à visão do universo como processo temporal. em cujo altar foram sacrificados milhões de indivíduos humanos. tal como Leibniz. é também o seu centro de construção. John Duns Scot.

e sim socialmente: novas formas de atividade intelectual começavam a desenvolver-se fora da universidade (da Escola). ao mesmo tempo que revalorizava sua metodologia. em oposição ao mecanicismo. advindos do fato de que esses meios também têm a sua forma e estrutura próprias. É preciso. Descartes. Do neoplatonismo pode ter vindo a imagem do universo como totalidade vivente. verdadeiro sob certo aspecto apenas. Para Aristóteles. Como já afirmei em outros trabalhos ( v. IAL & Stella Caymmi. o que quer dizer em suma a individualidade concreta — este homem. A mudança do cenário social da atividade filosófica muda o estilo de filosofar e até de escrever sobre filosofia. e sim investigadores independentes. conciliar dinamicamente.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 111 mundo visível. é claro. por um lado. Como ninguém supera sem primeiro absorver. ela também estruturada e dotada de forma. é preciso contar com a interferência dos meios e instrumentos. que não se rendem plasticamente à nossa vontade mas impõem à sua execução toda sorte de obstáculos. a única realidade efetivamente existente é a substância. saiba encaixar harmoniosamente essa variedade no quadro das determinações cósmicas e divinas que limitam a liberdade humana. até Sto. A superação começa somente com Duns Scot e sua teoria da hæceitas — a forma eterna da individualidade humana. vivendo de algum ofício como Spinoza. Rio. na unidade de um desenrolar temporal real. pode ser considerada como um gigantesco esforço de absorção da cosmologia grega no contexto cristão. É por isto que não posso concordar inteiramente com o insigne Friedrich Meinecke quando enfatiza de maneira um tanto unilateral o peso da influência neoplatônica nas origens do historicismo. mas a valorização do drama humano como centro da realidade cósmica é. e logo em seguida a eclosão da conciência historicista. editado em apostilas pelo IAL ). já não serão profissionais do ensino. é só uma grosseira simplificação própria da cultura de almanaque que pode sustentar o mito de que o pensamento moderno é uma ruptura com o aristotelismo. que o novo movimento em seguida tomasse o rumo da entronização de um novo deus cósmico — a “História” hipostasiada. em suma. no fundo — e coexistindo. por outro. com Descartes e Montaigne. esta dimensão estava completamente ausente do pensamento grego. A descoberta ou redescoberta da dimensão histórica requeria primeiro a superação da cosmologia naturalística grega. 119 . a continuidade de uma evolução coerente: a descoberta da subjetividade. Ora. sua metafísica. era uma retomada do que havia de melhor e mais genuíno em Aristóteles. e na escolástica ela só foi abrindo caminho muito lentamente. com Duns Scot. Leibniz. o princípio da corrupção. de algum emprego público como Leibniz ou de rendas de família como Descartes e Pascal. Ele só pode ser descrito segundo uma ótica que leve em consideração. a escolástica inteira. Entre o intuito e o resultado. contra o platonismo da nova física. dialeticamente. A forma da idéia não se encarna na matéria senão pela mediação da matéria. o “progresso” — sob cuja figura obsessivamente dominante desapareceriam. é perfeitamente injusto ignorar que um giro em direção às individualidades concretas. que se introduzem os desvios. então. Só a História pode dar conta da complexidade da visão da vida humana como drama da salvação. Mas aí a escolástica já estava esgotada — não intelectualmente. fazer História. “o conjunto dos resultados impremeditados das ações humanas”. Tomás. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. não fazem senão prosseguir no sentido da cristianização crescente uma evolução a que a escolástica. para descrever o homem. o “processo”. afinal. contra o abstratismo racionalista. liberdade e necessidade. na frase célebre de Weber. Spinoza. a raiz divina da imortalidade da alma. fazendo com que o desenrolar da História acabe constituindo. já tendia manifestamente e com muita força 119. a um só tempo. com elementos antagônicos como os assinalados no parágrafo anterior —. a variedade e a imprevisibilidade das ações individuais e que. a imagem de Deus e a do indivíduo humano concreto? Nada no mundo se faz sem instrumentos. como bem viu Aristóteles. 1994. um verum secundum quid. Como foi possível. Pascal. bem como sua própria matéria. esta árvore — cujo conceito genérico é somente uma realidade secundária e derivada. e sobretudo Pensamento e Atualidade de Aristóteles. Daí a aparência de uma ruptura drástica onde há. e os grandes pensadores da época subseqüente. sua teoria da linguagem e sobretudo sua Poética. É preciso. De outro lado. sem dúvida alguma. cristã na base. inteiramente desconhecida na Idade Média. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. É nesta mediação. Do aristotelismo a filosofia moderna só abandonou algumas parcelas da Física.

“letras humanas”. O amor às palavras. uma lei promulgada pelo rei de um reino extinto — tudo é documento da fala humana. sua utilização em rituais de bruxaria oferecia expectativas mais promissoras que a de olhos de sapos. é bem diferente do intelectual medieval. A casta era internacional. mas a da conversação amena e elegante em língua nacional. Qualquer coisa serve: uma carta. do que pelos textos. mas pelas humanæ litteræ. escrevia Hugo de S. damas e pajens. Mas foi a discussão em torno deles — e sobretudo o impulso de tirar conseqüências filosóficas diretamente das conquistas técnicas. sem a mediação da crítica filosófica — que acabou por desviar o movimento historicista de sua destinação originária e colocá-lo no rumo de uma nova idolatria. O impulso de colecionar surge de um misto de motivos estéticos e ocultistas: atribui-se aos fragmentos de estátuas um poder mágico.”. já vinham-se desenvolvendo antes deles. pelos velhos diplomas empoeirados e pelas velhas línguas. O abandono da dialética em favor da retórica é uma mudança decisiva da mentalidade: os argumentos já não valem pela sua demonstração exaustiva. um membro da orgulhosa casta acadêmica que. empenhadas em imitar a beleza e persuasividade da literatura antiga. formada de homens que abandonavam seu torrão natal para instalar-se nos grandes centros universitários onde se falava uma língua supranacional. escorada no aplauso das hordas de estudantes. da origem familiar. necessitava de instrumentos de investigação. que se interessa por essas coisas. Para isto. O novo intelectual abomina a universidade. Sua atmosfera verbal já não é a seca terminologia técnica da dialética escolástica. recheada de floreios bajulatórios. o amor à pátria era um atavismo condenável. as universidades. do mesmo modo que toda nostalgia do passado. o humanista vai inspirar-se em Ovídio. soldados e cortesãs. italianos. unidos pelo comum desprezo às suas origens nacionais e de classe. Inaugura-se o pendor de filosofar literariamente. Estes instrumentos representam uma conquista de valor inestimável. um membro ou servidor da casta palaciana. no decorrer da Idade Média. o latim. com finalidade teológica: obter um texto mais fidedigno da Bíblia. necessitava criar uma ciência histórica. mas pelo encanto persuasivo. Nascidas e formadas pela iniciativa independente de grupos de estudiosos. Ele brota do novo amor pelas línguas. “Humanismo” significa o espírito museológico: o amor aos documentos vem junto com a mania das coleções — selos. Está acima da crítica. um contrato de arrendamento. Para o letrado. aos homens do século XV. ao contrário. pedaços de velhas estátuas. Vítor. o que significa apenas qualquer texto que não seja as Sagradas Escrituras. desafiava os reis e o Papa. aos olhos da nova classe. Vico e Leibniz desenvolveram-se em velocidade prodigiosa. A diferentes classes sociais. da paisagem natal: “Nada se pode fazer. e qualquer discussão pode ser cortada pela raiz mediante a fórmula: “C’est assez que Quintilien l’ait dit. e onde conviviam em pé de igualdade franceses. totalmente esquecidos de suas diferenças de origem. Na verdade. sobretudo expressivas de sentimentos pessoais. pelo aluno que tem saudades da cabana onde nasceu. Este era na essência um universitário. uma autoridade que nem Aristóteles pudera alcançar na Idade Média.” O novo intelectual é.112 OLAVO DE CARVALHO A consciência histórica. irlandeses. Contemporaneamente a Shaftesbury. O novo modelo de homem letrado. um termo tremendamente equívoco. por um cotovelo de Mercúrio. os aficionados da bruxaria pagam grossas quantias por um dedo de Vênus. as técnicas de investigação e documentação históricas. analisar e criticar documentos é um instinto filológico. Virgílio. analisado. pelos documentos. Horácio. O motivo é claro. e sobretudo em Quintiliano. correspondem diferentes mestres: os medievais tinham encontrado os seus em Platão e Aristóteles.. mas entre príncipes e duques. O codificador da retórica antiga vai adquirir. “Humanismo” não vem de amor pelo homem. estudado. haviam-se tornado focos de po- . um resíduo de mundanismo. concreto e vivente. O impulso de comparar. sobretudo na Itália.. que preferirá as palavras às idéias. já não entre seus colegas de ofício. aos poucos. dará novo impulso às línguas nacionais. patas de corvos. um movimento a que se costuma chamar humanismo. pois um humanista da Renascença tem menos amor pelo ser humano. conservado. e acelerada nas épocas subseqüentes. Vive na corte. moedas. e como tal é desejado. unhas e cabelos humanos. saxões. para se realizar.

mas pode ser belo: Maquiavel des- creve o Estado como obra de arte — o templo da autoglorificação aristocrática erguido sobre o sangue dos inimigos. a ambição de domínio encontrará um padrão ordenador e um novo critério de legitimação. pela tinta mesma em que escrevem. Não podendo justificar-se moralmente. Enquanto a catedral gótica isolava o fiel do mundo exterior. 1588: Annales ecclesiatici. libertas das peias morais que lhes impunha o clero romano. imperando sobre a paisagem do mundo. dos parentes. A longa disputa encerra-se. fora da universidade. mas elas conseguem conservar sua independência. O novo mundo de guerra e conquista. 1695: Dictionnaire historique et critique. entre os arcos que se elevam ao céu. que. se preciso. torna-se assim o fundador da técnica da crítica textual. seu próprio quadro de intelectuais. Vencidos. o espaço em torno. pela astúcia ou pela violência. substituindo a ética pela estética. obra de Brunelleschi. publicando alguns anos depois uma edição anotada do Novo Testamento. ora aliando-se a um contra os outros. 120 Convém tomar nota do ineditismo do evento. sociedade governada por uma elite de burocratas letrados para os quais um erro de gramática podia custar a vida. com a vitória do Papa: as universidades tornam-se órgãos da Igreja. 1678: Glossarium ad scriptores mediæ et infimæ latinitatis. os reis. Não há limites ao poder do indivíduo talentoso. sobre os fiéis recolhidos em oração. Expressam o despeito dos rejeitados pelos vencedores do dia. sabe impor seus gostos e valores. A primeira catedral renascentista. para ser apreciada. de maquiavelismo e traição na luta pelo poder. como um eixo. do monge beneditino Jean Mabillon. pelo menos. No Oriente e no Ocidente. 1693: Codex juris gentium diplomaticum. ora mandando ambas as autoridades às favas e promovendo arruaças estudantis que faziam tremer os poderosos de ambos os partidos. Descartes. de Leibniz. legislando em causa própria dentro das fronteiras do seu reino — só demarcadas pela vizinhança de outros homens ambiciosos. temidas e invejadas. esta. a da Brunelleschi situa-se no centro da paisagem e organiza. 1681: De re diplomatica. a classe aristocrática. tem de ser vista de dentro. dos ex-amigos e até. em parte por indiferença ao curso da História. na Renascença. O mesmo Valla. escritos produzidos por algum discípulo séculos após a morte de um filósofo circulavam sob a autoria deste. em parte por uma mentalidade anti-individualista que não atribuía a um homem em particular a descoberta de uma verdade e preferia esquecer os autores das mentiras. começam a formar. Nesse ano. 120 Daí para diante. a de Santa Maria dei Fiori. na luz irreal que os vitrais projetam. não é um mundo bom. pelo gênio. as conquistas da técnica erudita se acumulam em rápida sucessão: 1559: começa a publicação da História da Igreja dos eruditos protestantes de Magdeburgo. argumentando ser um documento forjado pelo menos quatro ou cinco séculos após a morte do imperador romano. nenhuma outra civilização jamais se preocupara muito com a datação de antigos documentos ou com as questões de autoria. Com exceção da antiga China. Assim era a Idade Média Ocidental — um mundo onde uma certa desorganização em tudo era considerada uma condição sine qua non da manutenção da liberdade: Queste cose hanno bisogno di um pò di confusione.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 113 der. É nessa atmosfera de nacionalismo. o humanista Lorenzo Valla denunciou a falsidade da suposta Doação de Constantino. O ano de 1440 é um marco na história desses estudos. retórica. os reis e os papas disputam a sua hegemonia. de fixar a cada um sua data provável de composição — pelo tipo das letras. um sentido de expansão e domínio sobre o reino deste mundo substitui-se ao de interiorização e ascensão espiritual. tem de ser vista de fora e de longe. dotados de igual talento e poder. Por toda parte. e ninguém achava isso anormal. do cardeal Cesare Baronius. Aquela. ora ao contrário. que empinam o nariz ante o ensino universitário — Maquiavel. projetando-o no sentido de uma luminosidade vertical. de Charles du Fresne. As ambições da casta aristocrática. estetismo e colecionismo que surge o amor aos documentos escritos. pelos usos ortográficos. assinala essa transformação. . vão se multiplicar e alastrar até a autoglorificação prometéica. A catedral gótica retira-se do mundo: a renascentista reina sobre ele. de Pierre Bayle. Montaigne — não são francoatiradores: são funcionários da corte ou membros da classe aristocrática. Do amor aos documentos escritos surge o interesse — e do interesse a técnica — de separar os autênticos dos forjados. Os novos pensadores. Desde o século XII.

alcança sua máxima expressão na Filosofia da História de G. que parasitam o prestígio da mesma ciência histórica que os desmente. 1750: Nouveau traité de Diplomatique. protestantes e católicos acusam-se mutuamente de haver falsificado a História da Igreja. Pierre Bayle. Não estranha. assim. A antecedência dá ares de legitimidade ao usurpador: até hoje. com Ranke. Por outro lado. a História propriamente dita começa a dar seus primeiros passos. no século XIX. W. mas. O historicismo. divulgam e alardeiam os resultados de suas pesquisas. Se. até o século XVI pelo menos. 1708: Paleographia græca. se notabilizasse também. Auxiliados pela argumentação erudita. E como. Que esta visão. Esta condição humilhante de uma História que dá mais força aos mitos na medida mesma em que se esforça para restaurar a verdade é uma das trágicas ironias do mundo moderno. A situação delineia-se então pela convergência de duas linhas de força: 1ª Na esfera do pensamento filosófico. um lugar e um prestígio notáveis na ideologia das classes letradas no momento em que. o nascimento da ciência histórica. De um lado. a dos progressos retilíneos da consciência. de Dom Bernard de Montfaucon. portanto. formam exércitos de críticos históricos. na ausência de um saber histórico legítimo. Hegel. tudo tendia a fomentar uma abordagem histórica da realidade. Ambas as igrejas percebem o valor estratégico das novas armas. e que. Formam-se assim. para compensar as fraquezas do mecanicismo racionalista. a qual se pode sem erro datar dos trabalhos de Leopold von Ranke ( de 1820 em diante). de 1820. tendo passado a vida a compulsar criticamente documentos históricos e a apontar os erros dos historiadores. O resultado dessa convergência foi muito complexo. o de lançar a dúvida cética sobre toda a imagem do passado. já tinham conquistado. A História da Igreja dos eruditos de Magdeburgo (1559) é o primeiro tiro de canhão disparado pela crítica protestante. seu efeito imediato — que certamente viria também a contribuir para isso — foi principalmente o de desmoralizar a narrativa histórica como então se conhecia. como um emblema vivo do ceticismo. 2ª Os progressos da técnica erudita forneciam os instrumentos para a criação de uma ciência histórica. formando-se através de uma sucessão impressionante de obras de síntese que começam com Vico e prosseguem com Montesquieu e Voltaire. em nome da História. que o príncipe dos eruditos. as que viriam a ser chamadas “ciências auxiliares da História”. tivesse então de ser pela primeira vez explicitada e defendida contra seus adversários — que é o que se vê no Discours sur l’Histoire Universelle de Bossuet (1681) — mostra que a polêmica a havia feito descer do céu das verdades pres- . Roma vinga-se com os Annales ecclesiatici do cardeal Baronius (1588). de Jean Leclerc. as armas forjadas nas oficinas dos eruditos passassem a ser usadas a título de “argumentos históricos” nas polêmicas religiosas e políticas do tempo. atinge sua maturidade e se torna uma força influente no curso espiritual do mundo antes que se forme propriamente a História como ciência. ele não se atrevesse jamais a escrever pessoalmente um livro de História. o historicismo como doutrina filosófica ou como cosmovisão. tornavam patente a inconsistência da História então conhecida e fomentavam a dúvida cética sobre todo o conhecimento do passado. convocam legiões de eruditos. de haver interpretado erroneamente os textos bíblicos. aconteceu que. e sobretudo. a visão dominante do curso da História fosse aquela trazida na Bíblia. a da liberdade crescente através dos tempos. F. o que faz as vezes de História na mentalidade média dos intelectuais é um resíduo de mitos e lendas historicistas. de Toustain e Tassin. muito antes da História como ciência. ao mesmo tempo. Noções que a ciência histórica viria a derrubar como total- mente inconsistentes. elas darão como resultado longínquo. o resultado mais notável dessas polêmicas foi lançar em todos os cérebros a dúvida sobre a confiabilidade da narrativa bíblica e da visão cristã da História. implicitamente aceita como veraz desde a Antigüidade até o fim da Idade Média.114 OLAVO DE CARVALHO 1697: Ars critica. como por exemplo a de um curso unitário do acontecer mundial. ou seja a da História como percurso do homem da criação até a queda e a redenção. de um lado.

o hegelianismo já havia se transformado numa poderosa corrente de influência e numa força histórica agente. Repete-se. os comunistas respondem que o historiador burguês só enxerga os fatos isolados. chegou a admitir que o conceito mesmo de “classe” — a idéia- . de suprimir fatos e personagens para recortar a História segundo o molde dos seus desejos. Thompson. de outro. e recebe em resposta a acusação de falsear os dados. de fato. Entre a época de Bossuet e a Revolução Francesa multiplicam-se em número e sobem na dose de violência os ataques à história cristã. De um lado. só que a do burguês é disfarçada de ciência. quer em sua versão cristã e escolástica. na ausência de conhecimentos históricos suficientes. os excessos mais escabrosos da generalização hegeliana. o debate teve um duplo efeito. com Hobsbawm. opostas: ou se faz uma criteriologia para planejar as investigações históricas que vão dizer o que aconteceu. fruto de uma ciência organizada. F. a destituir o proletariado de seu papel de agente privilegiado da causalidade histórica (admitindo. Os partidários do capitalismo acusam os historiadores comunistas de selecionar ardilosamente os fatos para fazê-los caber num esquema simplista. do individual. por exemplo. com muitos contatos e intercâmbios. Mas as ciências auxiliares. uma explicação filosófica do conjunto dos fatos históricos. do singular e irrepetível. as concepções de Hegel e Marx exerceram também seu fascínio e seu influxo sobre os historiadores de ofício. não parecia haver outra saída senão pelo lado da concepção histórica. o arcabouço metodológico de uma ciência. o comunista protesta que toda História é ideologia. ao mesmo tempo. se dá a explicação teórica do conjunto. mas abalada também a confiança no racionalismo clássico. De outro. não enxergando os fatores espirituais da História e reduzindo tudo à economia. atenuou muito o simplismo dogmático do esquema marxista originário. cuja História se reduz a mera propaganda revolucionária. porém. a segunda. dando-se por sabido o que aconteceu. Do ponto de vista do progresso da ciência. por si. de fato. de um lado. para decidir quem conta a verdadeira história. As duas linhas evoluíram simultaneamente. de outro. Era. De um lado. o burguês retruca que o comunista toma a parte pelo todo. seu adversário insiste que ideológico é o comunista. mãe do marxismo e avó da Rússia soviética. obrigando seus adversários a construir igual aparato para defender-se. Desacreditada a história providencialista de Bossuet. com Gramsci. e. nesta direção que as coisas pareciam ir. a Georg W. porém. a função estratégica da intelectualidade. não a armadura do conjunto. que a síntese filosófica sobre o conjunto do acontecer histórico era um empreendimento prematuro. os avanços da pesquisa histórica foram corrigindo. a reflexão só podia se perder nas névoas de uma pseudometafísica fantasmagórica e terminar no culto de uma nova divindade. até mesmo a do Lumpenproletariat) 121. impelidas pelo progresso das ciências auxiliares que davam ao historiador os meios de resgatar os acontecimentos singulares de que se compõe a História. a teoria do conhecimento histórico e a teoria do acontecer histórico. aqui e ali. rejeitando as “leis universais imutáveis”. A primeira dessas tarefas incumbiu a Leopold von Ranke. nada podiam fazer sem a teoria da História capaz de unificá-las segundo uma hierarquia racional de critérios. Foi nesta direção que se esforçou Hegel e. As duas direções são.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 115 supostas para tornar-se uma idéia entre outras e concorrer com elas em pé de igualdade. entre o comunismo e o capitalismo. quer na sua versão científica e racionalista. Hegel. Hoje entendemos facilmente que Ranke estava na direção certa. P. girasse a atenção para o lado do mutável. que. que o principal historiador marxista do pós-guerra britânico. A querela da História forma um dos quadros mais interessantes da guerra ideológica dos últimos dois séculos. contaminou de marxismo os 121 Os marxistas tanto cederam aos argumentos de seus adversários. E. o marxista replica que os fatores espirituais são um véu ideológico que oculta a realidade do fator econômico. Aí entra porém em ação a ambigüidade mesma da expressão “teoria da História”: ela significa. ou. que. Isto acabou por transformar a ciência histórica mesma num equipamento da gigantesca máquina de guerra ideológica montada pelos comunistas. para desgraça dos pósteros. obrigando os teóricos marxistas a reconhecer a interferência importante de fatores não-econômicos na História. no momento em que o sensato Ranke começou a trabalhar. a disputa entre católicos e protestantes.

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estudos históricos, que passaram a privilegiar os aspectos econômicos da causalidade histórica ou a buscar para ela algum outro fundamento materialista para enfrentar o marxismo no seu próprio terreno. É característico o caso de Weber, anti-marxista que buscava mostrar a influência das causas religiosas no acontecer histórico, mas que, pessoalmente agnóstico, influenciado pelo positivismo e incapaz de apreender dos fenômenos espirituais senão suas analogias e reflexos no plano social, terminava por entrar no círculo vicioso da explicação marxista: após reduzir uma época histórica a seus aspectos econômicos, não via outras causas senão as econômicas. Acabava fazendo a contragosto o que Marx fizera por gosto. Mas, do ponto de vista da evolução geral do pensamento, o confronto entre ciência histórica e ideologia historicista teve conseqüências muito mais profundas e devastadoras. A primeira foi que, pendendo para o lado do marxismo ou para o lado da ciência rankeana, o pensamento histórico acabava caindo igualmente em algum tipo de ideologia “progressista”; no primeiro caso, pelo endosso à teoria que fazia toda a História evoluir na direção do socialismo; no segundo, pela celebração positivista da ciência como etapa superior — e, segundo Comte, final — da evolução da mente humana. Foi só no século XX que, graças sobretudo à antropologia e à Religião Comparada, com as luzes que trouxeram sobre os valores de outras culturas e civilizações, a ciência histórica se aventurou a enfocar o passado sem prejulgá-lo segundo a ótica que privilegiava o presente 122.
chave da interpretação materialista-dialética da História — não é propriamente um conceito econômico, mas cultural e psicológico. Foi sem querer, mas com isto Thompson implodiu o marxismo. V. a respeito E. P. Thompson, The Making of the English Working Class, Penguin Books, 1968 ( 1ª ed., 1963 ). 122 Infelizmente essa gigantesca abertura do horizonte humano acabou sendo neutralizada pela perversão ideológica. Posta a serviço da contestação esquerdista à civilização Ocidental, a compreensão antropológica das culturas antigas e indígenas tornou-se um clichê incumbido de dar reforço a um novo e mais virulento discurso “progressista”. Discurso autocontraditório e por vezes demencial, como por exemplo quando deseja preservar as culturas indígenas de todo contato “desaculturante” com os costumes Ocidentais, sob a alegação — antropologicamente verdadeira — de que a adaptação a novos modos de vida destruiria a coesão dessas comunidades e desmantelaria as personalidades de seus membros; mas ao mesmo tempo deseja impor a populações conservadoras e religiosas do próprio Ocidente mudanças drásticas e repentinas; e que, provocando assim a ruptura dos elos de lealdade social e a demolição das

A segunda foi que, a idéia do progresso consistindo basicamente numa teleologia imanente à História, aos poucos o debate em torno do sentido da vida humana em geral foi estreitando seu horizonte até reduzir-se à questão do “sentido da História”. Esta questão resume-se assim: a História tem um sentido predeterminado, imanente, ou, ao contrário, o homem vive num vácuo onde pode criar livremente o que bem entenda? Marx, é certo, dizia que “os homens fazem sua própria História”, mas em seguida neutralizava esta frase ao assegurar que a História ia necessariamente na direção do socialismo. O principal defensor da inexistência de um sentido na História foi Friedrich Nietzsche. Para ele, não apenas a História não fazia sentido algum, mas era melhor mesmo que não fizesse. Só as mentalidades torpes, covardes e mesquinhas necessitavam abrigar-se sob a mitologia de um “sentido da História”. O homem verdadeiro, o guerreiro metafísico dos novos tempos, a que Nietzsche chamava o Super-Homem, não queria sentido algum predeterminado, para poder criar seu destino como bem lhe aprouvesse. Nietzsche foi o pai de várias correntes que expressavam a revolta do homem contemporâneo contra a razão, a ciência, a História, e valorizavam o instinto, o sangue, o sonho e o delírio. Fortalecidas pela descoberta freudiana do inconsciente, essas correntes lançaram no século XX um vigoroso ataque ao positivismo e ao marxismo. D. H. Lawrence, GarlG. Jung e Ludwig Klages deram uma forte expressão a essas idéias, que no Brasil contaminaram um de nossos mais talentosos pensadores: Vicente Ferreira da Silva. Confrontada a essa resistência, as duas ideologias do progresso, marxismo e positivismo, deram-se as mãos para enfrentá-la e salvar o “sentido da História”. Não é preciso dizer que essa aliança na esfera das idéias antecedeu e preparou aquela que, no domínio político-militar, se celebraria após 1939 entre as democracias ocidentais e as ditaduras comunistas para enfrentar o Eixo. Radicalizado assim por suas repercussões políticas formidáveis, o confronto entre o sentido imanente da História e a História sem nenhum sentido absorveu todo intepersonalidades, desencadeia uma onda de violência, loucura e crime, pela qual enfim, ao invés de assumir a responsabilidade, acusa “o sistema”. Aprendeu com o capeta, tentador e acusador em turnos.

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resse intelectual do século XX pela questão do sentido da vida, até que desapareceu da vista do homem nosso contemporâneo a simples possibilidade de que a vida humana possa ter algum sentido para além da História terrestre. A identificação do sentido imanente da História com o sentido da vida tornou-se uma crença tão arraigada que entrou no rol dos pressupostos inconscientes: já não é uma teoria — é uma realidade, um fato. A aposta num sentido imanente da História tornou-se, para milhões e milhões de pessoas, o único propósito de suas existências — ao ponto de que bastam alguns sinais de a História desviar-se do sentido esperado, para que uma onda de desespero, depressões, suicídios e internações psiquiátricas se espalhe pelo mundo. Na década de 50, a revelação dos crimes de Stálin, destruindo repentinamente a fé e a esperança do movimento comunista, foi um choque traumático de que milhões de militantes jamais se refizeram. A queda do Muro de Berlim foi outro. Esses acontecimentos são interpretados geralmente como sinais de que o comunismo era para essas pessoas uma religião; de que a perda da fé no comunismo funcionou portanto nelas exatamente como aquilo que a Bíblia chama “escândalo” — o desmentido brutal das crenças mais queridas. Mas esse é só o aspecto mais patente e superficial da questão. No fundo, ninguém poderia apostar no comunismo se não tivesse apostado, antes, no Sentido da História. Ora, a crença no Sentido da História é comum aos comunistas e aos democratas Ocidentais. Estes não crêem no esquema marxista, na revolução ou no advento da utopia proletária, mas crêem no progresso das instituições, no aperfeiçoamento gradual das leis, na redução progressiva da miséria, na educação universal, na extensão a todos os homens dos benefícios da economia e da cultura modernas. Tanto quanto para os comunistas, o sentido da vida identifica-se, para eles, com a participação do indivíduo na construção da sociedade futura. Divergem apenas nos meios e no tipo de sociedade a que aspiram, mas, tanto quanto os comunistas, não concebem que a vida possa ter algum sentido fora ou acima da História. Para uns e para outros, a História e somente a História é a doadora do Sentido à vida humana. É isto, precisamente, o que denomino divinização da História. Socialismo e Capitalismo são, assim,

as duas seitas em que se cindiu uma mesma religião. De outro lado, é evidente que reduzir o sentido da vida ao sentido da História é encerrá-lo na dimensão temporal, voltando as costas à eternidade. Repete-se assim, no outro braço da cruz, a imersão completa do homem na imanência, que já tínhamos observado na evolução do pensamento científico. À divinização do espaço na ideologia científica corresponde, na ideologia político-social, a divinização do tempo.

§ 22. A divinização do tempo. — (II) Beaux draps
Mas a História não teria podido elevar-se à condição de deusa sem a concorrência de dois outros fatores que, entre o fim do século XVIII e o começo do XIX, mudaram decisivamente o curso das idéias. O primeiro foi a doutrina da “vontade coletiva”, introduzida pelos teóricos da Revolução Francesa. O segundo foi — em decorrência do primeiro — a doutrina hegeliana do Estado.

Para todos os pensadores políticos desde a Antigüidade até o Renascimento, a sociedade era nada mais que um sistema de relações entre seres humanos. Ela envolvia e continha os homens como uma rede envolve e contém os peixes, limitando seus movimentos mas não alterando sua natureza intrínseca: não é por cair na rede que um peixe se torna peixe ou deixa de sê-lo. É claro que nenhum pensador sério, pelo menos desde Aristóteles, ignorou a natureza social do homem, a socialidade essencial do zoon politikon. Tanto a reconheceram, que chegaram a negar a condição humana aos homens afastados da vida social. Mas reconhecer a natureza essencialmente social do homem em geral é uma coisa, e outra muito diferente é afirmar que a sociedade tem alguma realidade e consistência própria independentemente e acima dos homens concretos que a compõem. É esta última afirmativa que diferencia do antigo o pensamento moderno, e que o caracteriza com ênfase crescente desde o Renascimento e sobretudo após o século XVIII. Para os antigos, “a sociedade” não era uma subs-

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tantia prima, no sentido aristotélico, um ente real em si, como um cavalo, uma árvore ou um homem, mas um composto das ações, paixões e reações dos vários homens que a constituem. Sem chegar a ser irreal nem limitar-se apenas a um efeito passivo das ações individuais, ela era no entanto uma substantia secunda, uma forma de existência mais tênue e indireta que a da substância individual, vivente e concreta. Ela era uma substância como os gêneros e as espécies, entidades que não existem em si mas somente nos entes que as corporificam. A sociedade era, em suma, o que se chama um universal: o conjunto dos seres que vivem juntos sob um mesmo sistema de regras e hábitos. Portanto, na definição tradicional da sociedade, o termo forte, o sujeito ativo, o personagem concreto, era o homem. A sociedade permanecia recuada como um pano de fundo, que podia limitar as ações humanas ou mudar o curso de seus efeitos, mas não podia propriamente determiná-las. Pois a ação é um atributo da substância, e a substância em sentido estrito — a individualidade corporal vivente — possuía a propriedade da ação em sentido muito mais direto e mais real do que a substância derivada e segunda de um mero universal: se quem dá coices são os cavalos e não a cavalidade, do mesmo modo quem age é o homem concreto, não a sociedade. Essa definição parecia — e a intenção com que digo “parecia” se tornará clara logo adiante — parecia assentar-se na idéia de que a natureza humana de cada um dos membros da sociedade não depende da sociedade em que vive, mas é um dado anterior e fixo. Ora, o advento do pensamento historicista, como vimos acima, teve como uma de suas primeiras e mais devastadoras conseqüências a de abalar a confiança geral na imutabilidade e universalidade da natureza humana. Em decorrência, a idéia da sociedade como um mero sistema de relações começou a parecer insustentável também. Se o indivíduo não tinha uma natureza dada, mas era o resultado de um processo, então o sujeito ativo da vida social já não era “o homem”, mas “a sociedade”: de universal abstrato, a sociedade foi promovida a substância concreta, real, agente, enquanto o indivíduo foi sendo visto cada vez mais como mera abstração, como mero sinal algébrico vazio cujo valor será determinado pelo resultado de uma equação

social. Daí que, para os pensadores políticos do século XVIII, o agente da História não fossem os personagens de carne e osso, mas o coletivo abstrato concretizado e hipostasiado sob o nome de volonté générale. Essa conclusão pareceu muito lógica, na época, mas é claro que ela se assenta numa interpretação falseada do antigo pensamento político. A confusão clareia-se tão logo distinguimos entre socialidade e sociedade — uma distinção que os teóricos da volonté générale desconheciam. Por desconhecerem, acreditaram que o fato de a vida social alterar os hábitos ou a personalidade dos indivíduos concretos provava uma mutabilidade essencial, uma inconsistência e tenuidade da natureza humana. Ora, os antigos, e Aristóteles mais que todos, insistiram na socialidade fundamental do homem e, ao fazê-lo, não poderiam ao mesmo tempo negar o peso dos fatores sociais na moldagem dos caracteres humanos e acreditar ingenuamente numa imutabilidade universal do homem. As descrições minuciosas dos caracteres, hábitos e preconceitos dos vários grupos sociais, que Aristóteles nos fornece na Retórica, são mais do que suficientes para derrubar o mito de que os antigos acreditavam numa natureza humana fixa e imune à influência da sociedade. Se o homem, segundo o Estagirita, adquiria ou perdia caracteres por tornar-se rico ou pobre, militar ou civil, ou mesmo simplesmente por envelhecer, é claro que não tinha uma natureza imutável. Os únicos traços imutáveis que Aristóteles enxergava no homem eram aqueles contidos na sua definição mesma — a animalidade dotada de potência racional — e as propriedades imediatamente derivadas dessa definição, entre as quais a socialidade; e da definição da socialidade, por sua vez, fazia parte necessariamente a capacidade que o homem tem de alterar-se, de transformar-se, por efeito da vida social. Dito de outro modo: o homem era imutavelmente, e por natureza, mutável segundo as condições sociais. Malgrado, portanto, toda a inclinação coisista do pensamento grego, não havia nenhuma incompatibilidade essencial, senão só aparente e superficial, entre ele e as novas conquistas do historicismo. Muitas dessas conquistas, como vimos acima, faziam eco, com um atraso de dois mil anos, ao apelo de Aristóteles contra o universalismo abstrato e em favor de uma ciência voltada para a realidade vivente.

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Mas, como os mortos não argumentam, foi fácil atribuir-lhes a crença numa absurda imutabilidade absoluta da natureza humana, para em seguida basear na contestação a essa crença a nova teoria da volonté générale. Foi assim que, do apelo historicista ao particular, ao concreto, ao vivente, se chegou a uma personalização do abstrato, fazendo da “sociedade” o “verdadeiro sujeito” da ação histórica. Bertrand de Jouvenel assinala o oportunismo histórico que consagrou em dogma essa transformação 123:
“...a teoria da Soberania traz ao poder um reforço excessivo e perigoso. [ Mas ] os perigos que essa teoria comporta não podem se manifestar plenamente enquanto subsiste nos espíritos a hipótese fundamental que lhe deu nascimento, isto é, a idéia de que os homens são a realidade e de que a Sociedade é uma convenção. Esta opinião sustenta a idéia de que a pessoa é um valor absoluto, ao lado da qual a Sociedade não tem senão o papel de um meio. “Para que a metafísica afirmasse a realidade da Sociedade, foi preciso primeiro que esta assumisse figura de Ser, sob o nome de Nação. “Foi esse um resultado, talvez o mais importante resultado, da Revolução Francesa. Quando a Assembléia Legislativa jogou a França numa aventura militar que a monarquia não teria podido arriscar, percebeu-se que o Poder não dispunha de meios que lhe permitissem fazer face à Europa. Foi preciso pedir a participação quase total do povo na guerra, coisa sem precedentes. Mas em nome de quê? De um rei destituído? Não. Em nome da Nação: e, como o patriotismo tomasse desde havia dois mil anos a forma do apego a uma pessoa, a inclinação natural dos sentimentos fez com que a Nação assumisse o caráter e o aspecto de uma pessoa, cujos traços foram fixados pela arte popular. “Esta concepção de um Todo que vive de uma vida própria, e superior à das partes, estava provavelmente latente. Mas ela se cristaliza bruscamente. “Não é o trono que se derruba, mas sim é o Todo, o personagem Nação, que sobe ao trono. “Aceitou-se na França, depois disseminou-se na Europa, a crença de que existe um personagem Nação, detentor natural do Poder. “É em plena floração do sentimento nacional germânico que Hegel formula a primeira doutrina coerente do fenômeno novo, e concede à Nação um certifica123

do de existência filosófica. O que ele chama ‘sociedade civil’ corresponde à maneira pela qual a Sociedade fora sentida até a Revolução. Aí os indivíduos são o essencial. O que ele chama ‘Estado’ corresponde, ao contrário, ao novo conceito da Sociedade.”

Nem Hegel, nem os teóricos que, logo em seguida, fundaram as ciências sociais na suposição de uma autonomia substancial do Todo social em relação aos seus constituintes humanos, se deram conta do ridículo que havia em tomar como um princípio científico auto-evidente o pretexto publicitário a que uma Assembléia semi-enlouquecida recorrera no intuito de justificar às pressas a aberração do recrutamento militar universal. Mas o homem a tudo se habitua, e o hábito, uma vez adquirido, passa a ser tomado como expressão de uma lei eterna e auto-evidente: assim como nos afeiçoamos à crença de que o Estado tem o direito de mandar todo e qualquer cidadão para o campo de batalha — idéia que teria parecido monstruosa aos olhos de Júlio César, de Luís XIV ou mesmo de Gengis-Khan —, também nos acostumamos a tomar como uma verdade patente a mentirinha boba segundo a qual “a Sociedade” é um todo, uma substância real, mais real do que os indivíduos que a compõem, e de que as personalidades individuais nada mais são que um epifenômeno da estrutura social.

Bertrand de Jouvenel, Le Pouvoir. Histoire Naturelle de sa Croissance, Paris, Hachette, 1972, pp. 91-

Mas, até aí, “a História” ainda era, pelo menos, a História de alguma coisa; era a ação de um sujeito que, embora coletivo e abstrato, permanecia referido à existência concreta de seres singulares. Com Hegel, até mesmo “a sociedade” deixará o palco, para ceder a preeminência a um personagem ainda mais abstrato: o sujeito da História será... a História mesma. É que, uma vez tendo decidido conceder ao Estado (= sociedade política, ou Nação) o supremo grau de realidade na hierarquia ontológica, o filósofo de Jena se viu em face de um pequeno obstáculo: o Estado, no sentido em que ele o definia, era um fenômeno mais ou menos recente na História. Seu nascimento

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Para falar como Aristóteles. enquanto indeterminado. um clímax em sentido estrito existe somente no domínio do crescimento biológico. nem universo. pior para os fatos”. a conclusão era que a suprema realidade reside precisamente naquele ente cujo destino final é transfigurar-se em Estado. o que. nesse esquema. que pelo menos o lucidíssimo Eric Voegelin assinalou o caráter de “magia negra” dos escritos de Hegel.120 OLAVO DE CARVALHO fora. I. fiat philosophia. O nome desse ente é História. nem homem. não pode ser um erro involuntário. E.I. nem coisa nenhuma: a única realidade é o acontecer que acontece ao acontecer. Hegel poderia ter dito portanto a seus discípulos. que o único verdadeiro ente é o não-ente. O próprio Cristo. após o qual começa o declínio. caso tudo isso parecesse muito vago. num homem da sua habilidade lógica verdadeiramente virtuosística. isto é. 125 Propedêutica Filosófica. 12 de suas Obras Completas editadas pela Universidade de Louisiana. no entanto. respondeu que era um mistério só conhecido de Deus Pai. onde após a maturidade do ser vêm o envelhecimento e a morte. a História que é a História da História. Ora. E como esse acontecer não tem um sujeito que possua alguma consistência ontológica por si e fora dele. o último na ordem do aparecer é o primeiro na ordem do ser. teve então de praticar uma das maiores trapaças filosóficas de que se tem notícia: marcou para sua própria época a data do vencimento da História humana. decretou o fim da História. Mas essa comparação não será feita.A.1. Hegel. só se torna patente quando o processo atinge o seu clímax. muito posterior ao da humanidade. — É verdade. o resultado é que o acontecer é promovido à condição de sujeito dele mesmo. mas apenas o de uma fase da sua existência. Já não há mais ser. Sim. Como. num estudo reproduzido no vol. quando o que está é apenas aplicando — muito mal — um preceito aristotélico. um processo de duração indefinida. confundindo a ordem do ser com a ordem do conhecer. mas só um truque Como aliás se dá também com Gurdjieff. Hegel traduz para Wesen ist was gewesen ist: “a essência é aquilo em que a coisa enfim se torna”. e tascou na promissória a assinatura de Deus Pai. Uma certa desonestidade aparece já nas bases mesmas de sua metafísica. a forma final a que o ser tende em sua evolução. e não ente. e todo mundo acha que ele está falando uma grande novidade. Como seria possível que o mais real dos seres fosse o último a aparecer? Hegel escapa do problema mediante o recurso à teoria aristotélica da enteléquia. A metafísica deste e a cosmologia daquele dariam um belo capítulo de teratologia intelectual comparada. avançado em anos.a. foi apenas um desses casos deprimentes em que um fundo de desonestidade intelectual subsiste num homem dotado de autêntico gênio filosófico 124. corpóreo e presente que atestava a existência do processo e a consumação final dos séculos: o Estado moderno. Eis. falsificando o aval de Jesus Cristo. verboso e estratosférico. porque a enteléquia. perguntado sobre a data do fim do mundo. que é. § 16. Para preservar a integridade lógica do seu sistema. disfarçada numa nova terminologia que a faz parecer muito original e estritamente hegeliana. é que ele é a forma mais perfeita e acabada a que tende toda a evolução anterior. Feito isto. é processo. o Estado já não era o nome de um ente. justamente porque o ser biológico tem uma duração média predeterminada. porque iniciados gurdjieffianos e filósofos acadêmicos ( entre os quais os admiradores de Hegel ) sentem demasiado desprezo mútuo para poderem admitir a hipótese de nivelar nos pratos de uma balança seus respectivos gurus. como Gurdjieff: Vous voilà dans de beaux draps! Hegel não era no entanto nenhum idiota para crer sinceramente que fosse de fato o último filósofo e que a História terminaria no último volume do seu sistema. onde ele proclama que o conceito de ser. Essa média inexiste na História. Hegel apontava para o resultado final. tinha passagem comprada para o reino das sombras. onde. realizando assim literalmente a sentença que para os antigos era matéria apenas de piada: pereat mundus. portanto. mesmo porque a História já estava para acabar e o seu filósofo. equivale ao nada 125 — conferindo subrepticiamente validade ontológica absoluta a esse juízo que só tem sentido gnoseológico. mil vezes mais emocionante do que meus pobres Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Se o Estado é a última coisa a aparecer. para aplicar à História o conceito de enteléquia. nada mais disse nem lhe foi perguntado. cujas semelhanças com Hegel vão muito além da mera coincidência. Mas História é devir. em princípio. 124 . Aquele que disse: “Se os fatos desmentem minha teoria. Na hora de morrer. inexistindo um “antes” e um “depois”. ninguém teria a desfaçatez de lhe perguntar o que viria após o fim da História. é o acontecer. e eu tenho mais o que fazer. em todo caso.

é dos três o mais eficiente no combate à religião. que professa nominalmente a liberdade religiosa. ) 127 V. 1841 ). pois a opinião que ele aí expressa não é só a de quem lhe paga. por trás de todo o floreado dialético... Hegel Secret. de fato. tendo conservado sua fé religiosa sob a opressão nazifascista e comunista. ele faz a apologia da Reforma protestante como a culminação do processo cristão de libertação da consciência individual. a Igreja se tornou desnecessária e o Estado vem a ser a suprema autoridade religiosa 128. produz milhões de pequenos Stálins e Hitlers. desfeito esse truque. Mas até que ponto o prêmio financeiro não ajudou a cegar o filósofo para inconsistências que de outro modo ele teria percebido? Pois se de um lado não há como duvidar da sinceridade com que ele defende a liberdade da consciência individual. as mulheres que praticam nos EUA um milhão e meio de abortos por ano logo terão superado as taxas de genocídio germano-soviéticas. os beijos 129 É claro que a chamada “esquerda hegeliana” foi muito mais longe. esperto como ele só. concordando com elas por dentro. banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo 129. proibindo cultos. até mesmo os preceitos mais óbvios do direito natural: exercendo livremente seus “direitos humanos” sob a proteção do Estado democrático. alguma forma mais grosseira. Nietzsche. fechando templos. seja realmente um nada pelo simples fato de ainda não termos preenchido seu conceito de um conteúdo em nossas cabeças é com efeito o fundamento absoluto do sistema de Hegel e a objeção inicial de que ele parte para montar sua contestação a Schelling. em favor do cristianismo. inseparavelmente. Essa causa é geralmente associada ao comunismo. como o Estado moderno incorpora e realiza em suas leis a essência perfeita do cristianismo. 126 nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual. pelo culto obrigatório da Nação e do Estado. que declaram em voz alta as inconveniências que o alto sacerdote. Ela mostra o quanto valem. De outro lado. instituicionalizando nas escolas o ensino do ateísmo. Com requintada habilidade sofística. como se vê pelo fato de que as massas.F. acaba por deixar as consciências individuais à mercê do Estado ( Filosofia do Direito. Recherches sur les Sources Cachées de la Pensée de Hegel. ( Explico isto com mais detalhe em minha História Essencial da Filosofia. De outro lado. § 268 ). elevando o Estado à categoria de “Providência do homem”. dá a fórmula que se tornaria quase que um dogma do século XX: “A política deve tornar-se a nova religião. junto com a religião. a serviço da causa que mais Não é preciso dizer que. mas também a sua própria. Muito mais eficiente do que a tirania de Hitler e Stálin é o regime que. 128 Neste como em muitos outros pontos de sua filosofia. ele acaba se colocando. a projeção ampliada de fenômenos imanentes à psique humana. em si mesmo. As três procuraram com igual afinco substituir-se à Igreja na condução espiritual dos povos: a primeira. recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas interessadas em promover a idéia de uma Religião de Estado para se substituir à Igreja cristã (católica ou reformada) 127. Na Vida de Jesus de David F. Mas onde há safadeza intelectual há também. Mas o Estado liberal.” Mas não devem nos impressionar tais arreganhos: esses subfilósofos seriam impotentes sem as armas que receberam do mestre. A idéia de que o ser. facilmente cedem ao apelo das “novas éticas” disseminadas pela indústria de espetáculos nas modernas democracias. meio às tontas. mas sublinhando que. prudentemente silencia. ao fazer do Estado moderno a condição necessária e suficiente dessa liberdade ⎯ omitindo-se de defendê-la contra o Estado mesmo ⎯. reduz a religião ao conceito de “moralidade” ⎯ acreditando que quanto pudesse haver de metafísica na religião já fora absorvido e superado completamente pela filosofia acadêmica ( faz-me rir! ) ⎯ e. a propósito. nomeando cardeais biônicos para ludibriar os poucos fiéis restantes. nazifascista e liberal. o Estado neoliberal produz novos códigos repressivos que. toda a metafísica hegeliana vem abaixo. Strauss ( 1835 ) a divinização do espaço-tempo é explícita. e abandonam. de outro lado é fato que. Paris. esse sistema e essa contestação. no fim. compensando astuciosamente o desequilíbrio que a liberação desenfreada dos desejos poderia causar. Por um lado. Em verdade vos digo. logo percebeu o truque: o Estado hegeliano era o “Novo Ídolo” que se oferecia como sucedâneo aos cansados combatentes que haviam derrotado o “antigo Deus”. legalizando e protegendo todas as exigências tirânicas e autolátricas de cada ego humano. 1968. o autor da Filosofia da História argumenta. mais material de desonestidade: pesquisas recentes demonstraram que Hegel.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 121 proposital 126. fazendo do Estado o guardião da moralidade.U. fuzilando religiosos. et tenebræ non comprehenderunt eum. filhinhos: Schelling era muito grande. restaurar o culto de César. o trabalho notável de Jacques D’Hondt. P. . pela violência física e psicológica. mostrando ser apenas. que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta. Mas ela foi incorporada pelas três formas do Estado moderno: comunista. de maneira ainda mais ostensiva. Sumo-pontífice do Estado moderno é Hegel: eles são antes os bobos-da-corte. Isso não faz de Hegel um intelectual de aluguel. A segunda. Hegel é estonteantemente ambíguo. descarregando a reação violenta do superego em alvos moralmente inócuos (o fumo. e Ludwig Feuerbach ( A Essência do Cristianismo.

ademais. passo a passo. sem deixar de ostentar o prestígio da lenda democrática. no instante em que regula a vida interior dos indivíduos. que. o vocabulário corrente. eis que o Estado neoliberal. sem nada impor. impedindo-o de expressar-se numa condenação frontal de um estado de coisas marcado pela impostura obrigatória e universal. ademais. fiscalizar e punir até mesmo olhares. enfim. que cada nova lei resulta em nova extensão da burocracia governante. excitados até à exasperação pelo estímulo incessante ao espírito reivindicatório. por regulamentar. É claro. instaurando-se como suprema autoridade espiritual.122 OLAVO DE CARVALHO roubados. só se tornam governáveis mediante o nivelamento por baixo. ele apenas regula sabiamente os conflitos de interesses. movido pela dialética infernal do reivindicacionismo. risos e pensamentos. reinando sobre as almas e as consciências com o novo Decálogo dos direitos humanos e do politicamente correto. E. as cantadas de rua. fiscal e judiciária. Pairando acima de todos. É claro. cumpre à risca o programa hegeliano. assim. que toda nova reivindicação resulta em novas leis. o machismo. Beaux draps que constituem a essência da herança hegeliana. que o Estado neoliberal não faz isso por meios ditatoriais. acaba por se imiscuir em todos os setores da vida humana. Uma sociedade. moral e religiosa. a mais requintada monstruosidade moral que a humanidade já conheceu. mas com o apoio e até por exigência dos eleitores no pleno gozo de seu direito de exigir e legislar. dão um Ersatz de satisfação ao impulso natural da moralidade humana. com efeito. o Estado. que pune um olhar de desejo e dá proteção policial ao assassinato de bebês nos ventres das mães é. as piadas ). de fato. . que termina pela instauração da moral invertida. e que.

chegamos enfim à conciliação dos aparentemente inconciliáveis: evasionismo e ativismo. em seguida (§ 15). Só nos restava. a esta altura. Ele fundia-se. aquele tipo de solidez que se exige dos sistemas filosóficos. sem perguntar a quê. Ali não se encontrava. mas a da eficácia persuasiva. de haver ali alguma coerência. já que o objetivo final do epicurismo não podia ser declarado em voz alta sem provocar espanto e horror. quando em verdade os conduzia ao niilismo. por esquisito que parecesse. nem aquela que se espera das hipóteses científicas. com o marxismo. enquanto filosofias da praxis que só tocam no mundo real como num pretexto e meio para chegar ao mundo inventado. Nova Era e Revolução Cultural. a tarefa do pregador epicúreo não consistia em expor a doutrina. constituiam o recheio dos dois lóbulos cerebrais de José Américo Motta Pessanha. Com evidente satisfação. era bastante lógico. só podia ser estética ou prática. como vimos. e que lhes permite sair incólumes. nos mostrava a perspectiva de um horror sem fim (§§ 14 e 15). uma vez que compreendê-la seria rejeitá-la. Coerência estética: ali onde as verdades afirmadas se desmentem umas às outras e são desmentidas pelos fatos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 123 CAPÍTULO VIII. Revisão do itinerário percorrido Terá o leitor. recobrindo-a de um manto de subterfúgios engenhosos. não resistia a um exame mais atento que. a confirmação mútua das sensações que se coadunam produzindo um sentimento de harmonia. portanto. a hipótese do objetivo prático: o discurso de Pessanha não tinha satisfações a prestar à realidade existente. Só assim ele poderia persuadir os discípulos de que os levava pelo caminho da felicidade. perdido o fio da meada? Vamos revisar o itinerário percorrido. Vimos. o epicurismo não ocupava sozinho todo o horizonte mental de Motta Pessanha. em ocultá-la. segundo verificamos. Coerência prática: entre as sentenças que se desmentem umas às outras pode haver no entanto a unidade de um interesse prático. pode no entanto haver alguma beleza ao menos aparente. mas de sugestionar para impelir a uma ação. sem perguntar aonde. ao desespero e à morte. Em decorrência. Ali não se tratava de provar. Mas. portanto. que. Esses opostos. ela deixavase persuadir. que consiste em resistirem ao confronto com os fatos observados. Após demonstrar (§§ 16 e 17) a perfeita compatibilidade entre marxismo e epicurismo. por trás das belas palavras. Tinha. mas. ali. isto é. A REVOLUÇÃO GNÓSTICA § 23. como verificamos. aos ataques da crítica racional. mas isto não parecia incomodar a platéia no mais mínimo que fosse. ao contrário. casados e reduzidos à unidade de uma comum repulsa à inteligência teorética. que justamente só possa ser atendido através da falsidade e da incoerência. personificando-as nos tipos antagônicos: o iogue e o comissário — aquele que busca a verdade num outro mundo e aquele que se empenha em mudar este mundo à imagem da sua própria verda- . ocultismo e revolução. Mas um pensamento totalmente incoerente não poderia ter a persuasividade quase hipnótica que tinha o de Motta Pessanha. Sua clave não era a da veracidade. já que o que pretendia era produzir uma nova. e conduzir. não sendo do tipo lógico-científico. era frouxa. Logo. A coerência estética. Qual ação? O objetivo não ficava absolutamente claro. e que portanto a proposta epicúrea tinha esta característica peculiar: a de recrutar seus mais entusiasmados adeptos precisamente entre os que menos a compreendiam. no todo ou em parte. Passara desde muito a época em que Arthur Koestler podia dividir o bolo ideológico do mundo em duas metades opostas e inconciliáveis. que esse fenômeno. não era estético o padrão que unificava o conjunto. Estávamos tratando de recompor a coerência interna do universo mental de José Américo Motta Pessanha.

é cósmico. Para nós como para os pigmeus da Nova Guiné. Afinal. a consumação do prazo histórico. les puissances temporelles. § 24. eles permanecem separados pelo abismo de uma funda incompatibilidade metafísica. mas o cosmos. Vimos então que. Detentor das chaves de dois reinos. o deus de Motta Pessanha. mentales même. não existe incompatibilidade prática senão momentânea e aparente. ele está bem próximo de poder entender-se com o comissário. personificou-se em César. os deuses do espaço e do tempo não são objeto de culto primaveril numa infância do mundo. O véu do templo “Tout l’appareil des puissances. les autorités de tout ordre. com toda a sua maciça improbabilidade. Os parágrafos de 19 a 22 mostraram-nos que a entronização de novos deuses permitiu canalizar para o culto da Natureza e da História as aspirações espirituais dos homens. a profecia de Motta Pessanha anuncia. Isto não resolve a contradição. No pódio do MASP. o deusimperador. sendo impossível saltar esse abismo. mas amortece-a ao ponto de torná-la quase insensível: quando o iogue já não busca o infinito. a criatura sintética e bifronte. a mesma imersão definitiva do espírito humano no círculo do samsara. Jonathan Cape. que. O deus histórico-cósmico. 1945 ( várias reedições ).” CHARLES PÉGUY . e entre os dois cultos.124 OLAVO DE CARVALHO de 130. Nessa síntese residia o segredo do misterioso atrativo que Pessanha exercia sobre uma platéia fatigada do real e incapaz de transformá-lo. e sim um rastro de insânia e crueldade. o comissário é materialista. bloqueando-lhes o acesso a concepções espirituais em sentido estrito. o sentimento da participação “ética” numa epopéia revolucionária e os prazeres da evasão consumista? Mais que um líder ou um guru. já passou duas vezes pela História ocidental. intellectuelles. dando a cada ser humano. a personificação do futuro. o iogue-comissário é um símbolo em que se projetam as mais potentes aspirações do nosso tempo em direção à utopia. porém. esse personagem não é novo na História. A síntese de culto do cosmos e culto da História não surge — ai de nós! — na hora antes da aurora. Ele já passou por este mundo. o iogue-comissário transcende assim a sua insignificância pessoal e intelectual. a ressurreição de César. levando os indivíduos a acreditar que subiam a uma mais elevada visão das coisas quando na verdade sentiam apenas a natural zonzeira de um corpo que cai. entre aplausos gerais. para tornar-se. Por mais que os aproxime a comum rejeição do mundo real. e quando passou não deixou atrás de si um jardim de delícias. Epicuro-Marx. ele se torna o sacerdote de um novo culto. e quando o comissário erige a História numa realidade ontológica superior aos homens concretos. 130 paravelmente. Chegada. mas o princípio de uma decadência. Mas — ai de nós! — . o sinal de uma ruptura trágica entre a Existência e o Sentido. que dá início a uma longa e fatal decomposição do espírito e termina pela dispersão da tribo em grupos errantes de homens aterrorizados e indefesos. desde que no fundo eles celebram o mesmo esquecimento do eterno. Da segunda. iogue-comissário. ne pèsent pas une once devant un mouvement de la conscience propre. a pregar-nos o ativismo da evasão e a evasão pelo ativismo (§ 18). Da primeira vez. era necessário forrá-lo com algum tipo de algodão que amortecesse a queda. tomou o nome de gnosticismo. o dos deuses do espaço e o dos deuses do tempo. sobre o túmulo de Cristo. Mas aí surgia um obstáculo: o iogue é espiritualista. London. ao mesmo tempo e inseArthur Koestler. les puissances politiques. erguia-se diante de nós. la raison d’État. The Yogi and the Commisar and Other Essays. o cadáver da religião imperial a empestear com os vapores da sua decomposição os seis primeiros séculos do Cristianismo. não podendo ser espiritual. que sonho arrebata e fascina a humanidade de hoje mais do que a aspiração a uma sociedade que reuna os ideais do socialismo e do capitalismo. mas na luz indecisa que prenuncia uma longa noite.

pela intelecção filosófica. porque há uma differentia specifica do Cristianismo que salta aos olhos logo a um primeiro exame e dá. o gnosticismo surge. uma seita religiosa. Não que o pensamento individual fosse reprimido. pela dialética socrática. uma razão suficiente para justificar a profundidade do abismo que separa o Cristianismo do mundo antigo e explicar a violência contínua que este opôs à nova revelação e. ficará fácil compreender o gnosticismo. continua a lhe opor. Mas não. ao passo que o indivíduo alcança. enfim. como uma reação global da mentalidade religiosa antiga contra o Cristianismo emergente. da verdade universal. portanto. da forma dos fenômenos respectivos. uma cosmovisão religiosa se cristaliza numa estrutura social determinada. universal. uma autoridade superior à da sociedade. dogma a dogma. se residisse no conteúdo doutrinal do Cristianismo. um almálgama de seitas religiosas diferentes e até conflitantes mas unidas por um duplo sentimento comum: o ódio ao Cristianismo. Para explicarmos o sentido. religião a religião. o primeiro homem que afirma explicitamente a soberania da consciência individual. Todas as grandes religiões anteriores ao Cristianismo têm um caráter em comum. Não se trata de duas religiões diferentes. A Unidade de um Absoluto supra-cósmico aparece aí como uma verdade eso- . a amplitude e a profundidade dessa reação. A diferença é tão profunda que o uso de um mesmo termo — “religião” — para designar fenômenos tão heterogêneos deveria ser afastado para evitar confusão. na sucessão dos tempos. o islamismo ao judaismo. Sócrates é. por si mesma. sob uma variedade impressionante de manifestações. inacessível ao culto público e só conhecido. O abismo entre Cristianismo e religião antiga é mais profundo. o Sumo Bem. ao proclamá-la. ou melhor. e acessível à consciência individual livre. de duas espécies do mesmo gênero em conflito entre si: trata-se de dois gêneros incomensuráveis. como as divergências que opõem. cujas repercussões se propagam até hoje. Aí. a crença reta e a integração obediente do indivíduo na ordem social eram uma só e mesma coisa. temos de perguntar o que é que o Cristianismo trazia de tão novo e estranho. ausente no Cristianismo: Nelas. derivadas e segundas. não surge na história antes da filosofia grega. na origem. independente de qualquer ordem social determinada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 125 O gnosticismo foi. ou as várias confissões cristãs entre si. Se os deuses da comunidade habitavam nos templos e nas praças. sua superioridade mesmo em relação à crença materializada na ordem social. A questão parece imensa e complexa. tomada ela mesma como expressão corporificada da verdade dessa cosmovisão. passados vinte séculos. forma quantitativa e meramente simbólica do universal. a visão direta. A diferença a que me refiro. O indivíduo que chega à verdade tem. com ofuscante claridade. por exemplo. Uma vez assinalada essa diferença. É o mesmo que dizer que os deuses gregos não eram senão a corporificação de forças cósmicas. mas sua resposta é bem simples. ao passo que a sociedade fala apenas em nome do geral. ao passo que o Deus de Platão. era o Absoluto mesmo. de tão radicalmente hostil e incompatível com a mentalidade antiga em seu todo — e não só com a sua versão greco-romana em especial — a ponto de desencadear tamanho “choque de retorno”. escolas e doutrinas que. não simbólica. mais amplamente. não havia um espaço onde a consciência do indivíduo pudesse se desenvolver para fora da crença coletiva. pois fala em nome do universal. não faria senão opor. A diferença é. como diversas espécies de um mesmo gênero. a organização sóciopolítica era ela mesma a verdade encarnada — não havendo qualquer possibilidade de uma verdade exterior à crença coletiva. se voltaram contra o Cristianismo desde muitos lados. A concepção de uma verdade objetiva. ao longo de dois milênios. Se lembrarmos que esta tradição tinha fundas raízes no passado egípcio-babilônico. mais ou menos no mesmo plano. na medida em que a sociedade só pode ter acesso a verdades esquemáticas e simbólicas. o deus de Platão não reside senão na pura intelecção metafísica do filósofo. como viria a ser mais tarde e como é até hoje em sociedades de vários tipos: é que o pensamento individual simplesmente não existia. a nostalgia da tradição grecoromana. absoluto e supra-quantitativo. como a fonte e inspiração comum de uma multidão inesgotável de movimentos. Noutros termos.

com uma clareza ofuscante. o Apóstolo. romanos e bárbaros. ou a comunidade historicamente existente. assim. Na sua mensagem destacam-se três aspectos essenciais: lº. tendo litígio contra outro. não se desse conta de que a mesma contradição se agravaria ainda mais no Estado moderno. mostrando que o Estado só pode ser o lugar da liberdade abstrata. viria a ser percebido também com muita clareza por Karl Marx. o que. oferece-a como verdade universal. no diálogo entre a comunidade humana e 131 Tendo exortado os fiéis a obedecer as autoridades mundanas ( Rom. O portador da verdade esotérica está. tendo percebido nitidamente a contradição da Igreja medieval ⎯ a um tempo defensora da liberdade de consciência e obstáculo ao seu exercício efetivo ( Fil. tendo sabido que cristãos recém-batizados disputavam algo entre si no tribunal romano. em face do culto exotérico das potências cósmicas. restaurando a concepção de um deus supracósmico.: 13:1-7 ). De outro. que o culto exterior. unilateralmente. sem a intermediação da polis ou do Estado. o cristianismo retirava o divino do quadro histórico e cósmico em que o aprisionara a imaginação greco-romana. conservava seus direitos enquanto não chegasse o momento de rasgar o véu dos símbolos para exibir urbi et orbi o supremo segredo. sem intermediação da autoridade civil. O Cristianismo. A única diferença é que Sócrates se resignava a que esta verdade interior permanecesse secreta. mas enquanto indivíduos conscientes e senhores da sua liberdade. mas apenas para dar. para fundar uma nova religião. O sentido é claro: “dar a César o que é de César”. A religião do Império. em última instância. convocando todos os homens a buscarem o acesso direto ao Verbo. verbal e pro forma. numa posição ambígua: de um lado. Para nós. a consciência reflexiva. Ora. formal. diante da sociedade. é universal. mas sem submeterlhe o julgamento de questões de consciência. É significativa. os adverte a não se submeterem ao julgamento da autoridade civil. hoje. enquanto indivíduo humano. testemunho de uma verdade universal transcendente a todo culto local. no Novo Testamento. válida para todos os homens e não só para uns poucos situados num momento e lugar da História. ir a juízo perante os injustos. transcendente a todas as representações sensíveis. implicitamente. 3º. portador de uma mensagem espiritual. Aparece aí. no mesmo instante em que consagrava. Com isto. Chega a ser espantoso que Hegel. adverte: “Atreve-se algum de vós. a passagem em que S. é apodíctica. como portadora do Verbo divino. ao Deus verdadeiro. mesmo porque nossa adesão à verdade interior que ele representava é. dessacralizava radicalmente o Estado. curiosamente. em primeiro lugar. Sócrates. uma espécie de autoridade espiritual simbólica. quase sempre. pela antigüidade. mas a experiência direta do Verbo divino. funda-se na evidência e não em mera opinião. condensação de cultos gregos. e não perante os santos?” ( I Cor. O sábio deve. Paulo já deixava refutada de antemão a falácia hegeliana de que “o Estado é a realidade da liberdade concreta”. filosófica. pois não cabe a esta julgar “aqueles que vão julgar o mundo” 131. não lhes propõe um novo sistema de ritos e símbolos. uma certeza superior a toda prova dialética. resumia-se. é o porta-voz de um Deus verdadeiro. S. em segundo lugar. afinal.. em terceiro lugar. sem a menor pretensão de transformar o seu ensinamento num novo culto público. por outro lado. aquilo que Sócrates propõe a um grupo restrito de filósofos. não viera ao mundo. que a verdade interior devia permanecer interior. livres da pressão da sociedade local ateniense. seu representante e porta-voz é o indivíduo como tal. a alma do indivíduo humano. é fácil dar razão a Sócrates. num aberto desafio a todos os cultos estatais. Mas o próprio Sócrates deu alguma razão a seus carrascos. obediência às leis e costumes. ao passo que o Cristianismo a revelava publicamente. do qual aqueles deuses que aparecem no culto público não são senão ecos e imagens distantes. II:1 ) ⎯. Ao mesmo tempo. reconhecendo. . a tragédia da autoridade espiritual legítima colocada em face de um poder temporal a que um velho culto já amputado de toda raiz celeste conferiu. caso não deseje ser excluído da comunidade humana. O cristianismo. é um homem como os outros. não se dirige aos homens enquanto membros de uma comunidade. por mais deteriorado e vazio de qualquer conteúdo espiritual.126 OLAVO DE CARVALHO térica. não obstante. por um lado. 2º. Paulo Apóstolo. em suma. deve-a. é precisamente o que o Cristianismo oferecerá a todos os homens: o acesso dire- to ao conhecimento do Verbo divino. e não a autoridade socialmente constituída. submisso ao culto e às leis. do homem independente.: 6:1 ). um membro da polis. Hist. válida para todos os seres racionais e não somente para uma comunidade em particular. cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu. do qual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes.

o pensamento comum dos homens reunidos na ágora ou no fôro. a infinitude. Os cultos públicos são vastos sistemas de símbolos. por trás do panteão das divindades cósmicas. a existência de uma realidade mais alta a que os símbolos do culto aludiam veladamente. o recinto secreto da intimidade do homem consigo mesmo. tapam a via de acesso ao divino. ele gira o botão do acontecer histórico. é um estudo sobre a significação da profecia na História. para além do véu simbólico dos ritos e das leis. ainda inédito nove anos após ter recebido um prêmio do governo da Arábia Saudita. inacessível quer à imaginação comunitária. Submetidos à lei da entropia. de outro. Repetidamente os filósofos procuraram resgatar a sua lembrança. tudo equalizando na platitude do social e do histórico: de um lado. imprimindo-lhe uma direção totalmente nova. “determinar”. Não que essa dimensão fosse totalmente desconhecida do mundo antigo. as forças cósmicas. Mas a aspiração ao infinito parece inerente à constituição humana. mostrando. captável pela pura inteligência metafísica mas irredutível tanto à representação concreta quanto às tentativas de uma formulação doutrinal acabada. O cristianismo rompe esse mundo bidimensional. que toma momentaneamente a forma do copo. acabara por se refugiar na consciência filosófica e nos cultos de mistérios: tornara-se esotérica. desviada. ora adversas. A dimensão vertical da alma e de Deus. omitida pelo culto público. é precisamente um dos sentidos do simbolismo da cruz. Encontramos sinais dela na mitologia grega. provavelmente herdeira de tradições orientais onde a consciência metafísica se conservara intacta. É só a banalidade do mundo de hoje que pode conceber os profetas como meros vaticinadores das coisas futuras. ilustrado pelo caso do único profeta de cujos atos e 132 . que rompem a unidade cerrada das instituições antigas. inaugurando a dimensão vertical da profundidade e da altura. por força do resíduo humano e histórico que carregam. Estudos sobre a Interpretação Simbólica da Vida do Profeta Mohammed ( Maomé ). que contêm essa água ao mesmo tempo que a ocul- tam. ora propícias. Mas. O termo mesmo “profeta” vem do grego prophero. O cristianismo exoterizou-a. inaugurando novos mundos históricos e resgatando as possibilidades espirituais perdidas. mas não pode ser abolida para sempre. acabam por mundanizar o divino e divinizar o mundo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 127 o cosmos. O profetismo é o retorno cíclico da primavera do mundo. que significa “fazer”. ritos e mitos. dando um sentido ao caos e iluminando a uma nova luz a meta permanente da existência 132. como tudo o que existe no espaço-tempo. Ele determina o curso dos eventos. povoando os céus de figuras de heróis e deuses projetados da Terra: ampliações divinizadas do Estado e da natureza física. impedindo que os homens bebam. caóticas e inconciliáveis se unifica numa nova direção da vida humana. absorvem a consciência interior dos homens. para metamorfosear-se. que cortam a linearidade horizontal das causas históricas pela vertical de uma intervenção superior: os adventos de novos profetas-legisladores. ao ser vertida noutro recipiente. um sentido. que ela subentende. às instituições jurídicas e políticas. De um lado. abertura que o Evangelho simboliza como um rasgão no véu do templo. que pesam sobre o destino humano e entre cujas exigências a comunidade deve abrir seu caminho. gerando efeitos de escala incomparavelmente superior ao das forças causais até então agentes. “produzir”. superposta ao confronto horizontal da sociedade e do cosmos. Meu livro O Profeta da Paz. quer às representações sensíveis das divindades cósmicas: de um lado. É evidente que a dimensão metafísica não pode ser totalmente abrangida pelos discurso legalista da moral religiosa e pelos símbolos de um culto público. conservando-se não obstante intacta. eles tendem. narcotizada por meio de sucedâneos “cósmicos” ou “históricos”. O profeta é uma força agente. Daí que a história das religiões seja pontilhada de rupturas cíclicas. À dimensão moral e cósmica da religião antiga o cristianismo superpôs a dimensão espiritual e metafísica. a encerrar-se numa totalidade enrijecida e auto-suficiente. a profundidade interior da consciência individual. Ele determina uma súbita elevação do nível do devir histórico. A realidade divina foi muitas vezes comparada à água. revelando a todos os homens o segredo que se tornara o privilégio dos sábios e dos místicos. Entremeados e às vezes identificados aos costumes morais. O recipiente fecha-se. não um observador. a eternidade. para além do tempo e do cosmos. de outro. neutralizando-a na fala coletiva. Pode ser reprimida. de outro. onde repentinamente uma profusão de forças dispersas.

na mensagem cristã. mas que ela é absolutamente necessária à eclosão da autoconsciência. o trazem consigo. É fácil compreender que essa revolução da auto-imagem humana promovida pelo cristianismo teve no mundo greco-romano o impacto traumático de um corte do cordão umbilical. pelo idealismo social (precisamente as duas colunas a que se pretende reduzir o templo da moral moderna). é apenas a finalização de um processo de estreitamento do horizonte intelectual humano que vem de alguns séculos. monastérios. Ele coincide. O fenômeno é espantoso. afirmar poderosamente seus valores. o detentor consciente do critério da verdade. aldeias. Esse novo mundo é composto de unidades autônomas — cidades. de um lado. através de uma disciplina moral dolorosa. assumisse ao mesmo tempo a responsabilidade de ser. as ascensões e quedas dos impérios e das doutrinas. Este desenvolvimento é impossível enquanto todo o horizonte da atenção for ocupado. Não se trata apenas de uma retirada. que agem movidos por um impulso pessoal e quase sem comunicação com a autoridade religiosa central em Roma ou Bizâncio.128 OLAVO DE CARVALHO Aconteceu que. indagado sobre o que era o céu. O advento do Cristianismo encerrava a era do Estado sacerdotal protetor e inaugurava a do homem religioso autônomo e solitário. crescer. não para buscar as consolações factícias do jardim de Epicuro. o portador do Logos. sem qualquer poder de elucidar os fatores decisivos. Apenas o liame sutil e voluntário da fé. estruturalmente. fora de qualquer tutela ou garantia externa. De outro lado. com aquele hiato que o cristianismo abre entre indivíduo e sociedade ao proclamar. sempre por obra de homens solitários. o fruto supremo da História. ao voltarem para junto de seus semelhantes. É nesse espaço que floresce a personalidade humana. o cristianismo abre entre a individualidade física e a identidade social humana um intervalo. firmemente empenhado em não deixar os homens enxergarem nada para lá do círculo mundano. Ao propor ao homem um esforço que não se volta nem à satisfação de apetites individuais nem ao melhoramento da sociedade. Seu ideal é reduzir a consciência do historiador à condição do sapo da fábula. Não somente o Império povoa-se de monastérios. Nenhuma unidade administrativa. Como pôde a nova civilização sobreviver. propriedades rurais — separadas umas das outras por imensas distâncias e sem outra ligação entre si senão a obediência comum a uma mesma religião. pelo indivíduo que. diante do qual o homem está nu e verídico tal como no dia em que nasceu. A importância fundamental que teve o monasticismo (monakos = monge = solitário) no desenvolvimento da nova civilização é um sinal eloquente do teor básico da sua vocação. é: e não espanta que uma época afeita à liberdade sexual irrestrita também seja fértil em filósofos que negam a existência ou o valor da autoconsciência. A socialidade fica assim submetida hierarquicamente à solidão onde Deus habita: a assembléia dos que se reunem em nome de Cristo é uma assembléia de homens que conhecem profundamente a solidão de seus corações. esse hiato também corresponde palavras restou para o historiador moderno uma documentação abundante. que se expande invisivelmente até abarcar todo o território europeu. de outro. Foi esse estudo que me persuadiu. a ser preenchido pelo desenvolvimento da autoconsciência. econômica ou militar. o interlocutor solitário do Deus que “sonda os rins e os corações”. de que o fenômeno da profecia é o gonzo sobre o qual gira o portal da compreensão histórica. mas há uma verdadeira corrida para o deserto: milhares de anacoretas evadem-se do falatório urbano. respondeu: “É um buraquinho no teto da minha casa. A “total mundanização e terrestrialidade do pensamento” ( sic ) advogada por Antonio Gramsci. é apenas uma crônica provinciana. esse novo sentido não podia ser captado senão pelo indivíduo desligado dos laços que o prendiam à sociedade e ao Estado. que. É desses homens fugidos do mundo que nasce o novo mundo. na Epístola a Diogneto (séc. e não apenas o de uma pedagogia. de uma vez para sempre. tenaz e silen- . e que precisamente por isto podem se reunir em Cristo e não em mera tagarelice. O que se pode questionar é se essa disciplina tem o valor moral definitivo de um código de conduta universalmente válido. II). como o é quase tudo o que hoje recebe o nome da ciência de Heródoto. pelos impulsos naturais egoístas. mas para experimentar na extrema solidão o acesso a uma nova profundidade da vida interior. os retornos cíclicos. habitante de um poço. mas tão necessária ao florescimento da autoconsciência quanto o isolamento social. em tais condições? Não há outra explicação senão a atividade incessante. e de que uma história reduzida às dimensões natural e civil.” a uma certa separação que o cristianismo estabelece entre consciência e corpo. é certo. Eles vão em busca de um espírito regenerador e. que cada cristão é um estrangeiro na sua própria pátria. Que filosofias inteiras da História possam ter-se assentado sobre bases tão estreitas mostra apenas que a intelectualidade moderna é um novo sacerdócio de tipo greco-romano. o espaço da liberdade interior. assumindo sua liberdade.

Para os homens da religião antiga. por um lado. de um contrato que os homens acreditavam ter selado para sempre com os deuses. Image Books. É quase uma lei ou princípio histórico: o exoterismo destronado funde-se no esoterismo do ciclo seguinte. de ressonâncias antropofágicas apavorantes. 134 M. a negação mesma da cultura. afetação e arrogância de bárbaros. no existente primariamente en instituciones y actos externos (aunque manifestado en ellos) sino viviendo originariamente en la intimidad de cada uno. De que valeriam ali o discurso sobre os direitos. demônios e feras. O novo mundo espiritual emerge num panorama exterior de sinistra desolação. desperta ódio. à espera de um futuro ciclo onde possa ressurgir. desde o ponto de vista do mundo antigo. constituiam a essência mesma da moralidade. Mas o que é um patrício romano. cit. de fora. mais grave do que tudo. 1957 ( várias reedições ). sacerdotes e iniciados. um desejo incoercível de vingança e de restabelecer as coisas como eram antes. e do qual tiravam boa parte da sua autoridade. a dissolução dos valores sacros do Império entre as mãos das hordas de invasores bárbaros. entre índios e frades. viram desfazer-se em fumaça a proteção do segredo que as cercava. das letras e mesmo da virtude em geral. em primeiro lugar. 1970. p. A confiança em Deus bastava para o anacoreta na noite do deserto. o apelo aos tribunais. New York. onde tratará de conservar vivas as suas forças. na . a cultura espiritual antiga é em parte absorvida no novo quadro. caótico e hostil às classes e pessoas acostumadas à ordem imperial. por outro. vol. para o subterrâneo. Pode-se fazer uma imagem supondo como se sentiria um senador norte-americano que. entre ventos. repentinamente arrebatado à segurança do Estado. eles haviam trocado a complexa beleza das antigas cerimônias públicas por um rito estranho. Madrid. apegados à sua fé por um liame interior muito mais poderoso do que qualquer obediência externa a um governante 133. New York. entregue à sanha das hienas. Em terceiro lugar. Compreende-se. An Introduction to the History of European Unity. Somente o homem da fé pode enxergar ali a semente de um futuro glorioso. De los Orígenes a la Baja Edad Media. conhecimentos e atitudes antes reservados a umas quantas sociedades iniciáticas que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 129 ciosa de milhares de monges espalhados ao longo do território. promete senão trevas crescentes. revolta contra o destino. sino extendido en la eternidad. símbolos. o cristianismo havia “rompido o véu do templo”. no fundado en la dominación sino en la comunión. no integrado por la subordinación sino por la participación. em Antonio Truyol y Serra. seu senso de orientação e de dignidade familiar? É um leão sem suas garras. 1956. não se ocupavam das letras. A noção mesma de autoridade e hierarquia era ali submetida a uma estranha mutação: “Se trata de un reino no encuadrado por el espacio y por el tiempo. fosse jogado no interior da Amazônia. I. e. y no mantenido por el poder sino por la autoridad que se identifica con el servicio a la comunidad. García-Pelayo. havia colocado em circulação temas. O tipo de vida interior que os monges traziam era tão diferente de tudo quanto o mundo antigo conhecia como filosofia. e The Making of Europe. pouco se lixavam para as virtudes cívicas que. que o cristianismo não tinha senão como parecer. no contexto greco-romano. Porém. Revista de Occidente.” 134 O novo mundo deve ter parecido misterioso.. a confiança no poder onipresente da autoridade civil? Ali só lhe restaria ser homem e confiar em Deus. Historia de la Filosofía del Derecho y del Estado. seu lugar de honra não só no Exército e no Senado mas na casta sacerdotal. a súbita ruptura. de repente. Os monges. e como religião. mostrando ante a “sabedoria mundana” um desdém que não tinha como não parecer. Este reflui para as sombras. nem cultivavam os debates filosóficos. passado o susto inicial. Entre letrados. 251. Religion and the Rise of Western Culture. Acuada pelo avanço cristão. por parte dos céus. rancor. Meridian Books. a reação horrorizada dos letrados e da casta sacerdotal. ele nada 133 É absolutamente indispensável a quem queira compreender este período da História ler os clássicos de Christopher Dawson. nobres. a essa gente. A quem o vê de fora. o cristianismo foi a “pedra de escândalo”. mais particularmente. mas resta sempre um fundo inassimilável. o cristianismo caiu como um raio que provoca espanto e terror. 4ª ed. sem o Império que lhe dá sua identidade. Em segundo lugar.

é precisamente o que se denomina gnosticismo 135. tal como o corpo moribundo vê ressurgirem com redobrada força as moléstias que venceu no passado. de cuja amplitude e variedade. às vezes reduzido a um conceito metafísico abstrato. onde a vertical simboliza a eternidade e a horizontal a temporalidade. quase alucinantes. que refluíram para o subsolo no advento do cristianismo. como aliás em todo o simbolismo universal da cruz (Figura 2). e também de uma gnose cristã ( por exemplo. De outro lado. às vezes ocultado sob um véu de obscuridade e silêncio como no 136 V. a “perfeição passiva” ou manifestação cósmica 135 Usa-se às vezes para nomeá-lo o termo gnose. Esse diagrama não tem. porém. Elementos do fenômeno religioso. Para me fazer entender. que rigorosamente nada têm a ver com o fenômeno particular que estou estudando aqui. molde do cosmos — transcendente ao cosmos portanto — e não a individualidade empírica. Toda civilização em declínio experimenta um retorno de temas religiosos abandonados milênios antes. e o horizontal a khien. que de lá lhe moveram guerra subterrânea ao longo de dois milênios. § 25. como no hinduismo. o Homem Universal é a essência mesma da individualidade concreta. e que agora ressurgem à plena luz do dia para o combate final. A Nova Era e a Revolução Cultural. de um lado. Leviatã e Beemoth Não cabe entrar aqui numa descrição aprofundada do fenômeno gnóstico. pp. aqui. 15-17 da 1ª ed. solapando-lhe as bases. a sacralização da sociedade (ou do Estado). ele representa o elemento antagônico e complementar da cultura dominante — a “sombra” que cresce junto com o novo corpo da civilização. Mas não creio errar ao assinalar. Durante o período de espera. do Infinito. mas esta palavra serve também para designar — de modo mais genérico e sem qualquer conexão com a resistência greco-romana ao cristianismo — o elemento intelectivo e cognoscitivo de qualquer tradição religiosa e espiritual. um conceito da natureza física. somente estudos volumosos podem. dar conta. Na simbologia chinesa. valores e atitudes da cultura espiritual greco-romana. O único elemento fixo. . O conjunto de crenças. um conceito da alma humana. ou “mundo” como o cenário onde se desenrola a história dessa alma. como pontos comuns a uma ampla variedade de escolas gnósticas. em Clemente de Alexandria ). Em cada uma delas. finalmente. a “perfeição ativa”.130 OLAVO DE CARVALHO espera de uma ressurreição. ou o princípio metafísico do qual tudo se origina. símbolos. de sua natureza. Figura 2. é Deus.. da singularidade humana. o qual por isto prefiro designar com o termo diferencial gnosticismo. ao menos. Ele indica simplesmente os quatro elementos básicos que estão presentes em todas as concepções religiosas do mundo. se encontra algo como um conceito de Deus. ligação direta com o simbolismo cristão do sacrifício do Gólgota. até engoli-lo quando chegar a hora do crepúsculo. presente em todas as religiões. quanto à organização real ou ideal da sociedade humana para os fins que a alma deve cumprir. Às vezes não sob esse nome. alguma noção. Note-se que o homem aqui designado é o Homem Universal. origem e destino. a religião cósmica. a vertical corresponde a khouen. por outro. budista etc. devo recorrer a um diagrama. e. de longe. desse princípio 136. Fala-se neste sentido de uma gnose islâmica. cristã inclusive. do Absoluto.

no sentido judaico ou islâmico de uma regra para a ordenação do mundo. que no Judaismo a ênfase recai nas relações entre Deus e a comunidade humana — o povo de Israel —. Eterno. Não precisamos endossar por completo a tese de Guénon para admitir o fato patente de que o cristianismo. sua transformação numa lei religiosa para o conjunto da sociedade. na religião do Império 138. contra a consciência autônoma 137. mas. originariamente. contra o Papado. que sempre deve ser ouvido nessas matérias. seja à natureza em torno.. mesmo a contragosto. numa nova Lei exterior. No Evangelho não se encontra uma indicação. A ênfase do cristianismo cai evidentemente no eixo vertical. que voltava as costas para este mundo. Ao contrário. teria sido causada por circunstâncias externas: a decadência da religião romana e do judaismo deixavam o mundo greco-romano praticamente sem qualquer lei religiosa — e o cristianismo. do direito civil e penal. contra a Instituição Romana. concentrando todos os esforços na busca da Cidade Celeste. conforme a ênfase maior ou menor que dão a um ou outro desses três elementos na sua relação com o Absoluto e conforme o jogo de compensações dialéticas que estabelece entre eles. seu papel de interlocutoras entre a alma e o divino. nem quis restaurá-lo. René Guénon. identificar diretamente essa luta como uma luta contra a Igreja. no Corão ou nas Escrituras hindus. com poucas referências seja à alma individual. em luta aberta com as divindades da natureza — os djinns de que fala a tradição islâmica — e os poderes sociais. As religiões podem ser diferenciadas e classificadas. de fato. era elevado a senhor do mundo. romanizando o cristianismo. malgrado sua imensa força de renovação espiritual. contra o indivíduo humano. por exemplo. explica o fenômeno dizendo que o cristianismo não tinha.” É evidente. mas sempre presente. pp. teve de preencher providencialmente uma lacuna que ameaçava alargar-se num abismo e engolfar a civilização. O conflito entre expansionismo catequético e conservação da fé inicial acompanha toda a História da Igreja — em contraponto com a perene ambigüidade das relações entre Fé e Império. O homem singular. ele. 1977. que a reação básica contra o cristianismo assume desde logo a forma de uma luta pela restauração da natureza e da sociedade em seu estatuto anterior — de uma luta. mas o de um esoterismo. 8- 26. da moral exterior. que Dante simbolizou na luta entre a águia e a cruz. uma palavra sequer a respeito da organização política e econômica. nas relações diretas entre a alma e Deus. de um caminho puramente interior: “Meu reino não é deste mundo. a própria consolidação da autoridade romana se faz. do qual no entanto me separam algumas diferenças menores. em grande parte. Para transformar-se numa força organizadora da Ci138 René Guénon. O cristianismo. Aperçus sur l’Ésoterisme Chrétien. novo Adão. Seria errôneo. Os outros três fatores são móveis. porém. como se encontram com abundância na Torah. autoridade espiritual e poder temporal. muito facilmente e sem qualquer inexatidão. Não há religião sem uma referência mais ou menos direta a um Absoluto. mas deixando-se em par





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